Balsemão, 80 anos depois

5 SETEMBRO, 2017 -

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Muito, muito trabalhador charmoso, educadíssimo, e nada esbanjador. Inflexível na hora de readmitir colaboradores. Mais jornalista do que político. Há muitas definições que se encaixam em Francisco José Pinto Balsemão, que chegou na sexta-feira passada aos oitenta anos, numa altura em que o seu império atravessa remodelações profundas. 

De menino rico a figura central e ímpar da comunicação social portuguesa correram oito décadas na vida de Francisco Pinto Balsemão. Ontem, o dono da Impresa soprou 80 velas feitas de jornalismo, política e de uma vida social intensa. A data da celebração coincide com o desmembramento de um império que começou na década de 70, com o Expresso. Há duas semanas, o grupo Impresa – liderado desde 2016 pelo mais novo dos seus filhos, Francisco Pedro Balsemão – anunciou uma reestruturação interna e a alienação de 13 publicações do portfolio, em que se incluem as revistas Visão, a Exame, a Exame Informática, a Activa, a Caras e o Blitz.

Aos 80 anos, no inverno da vida, o antigo primeiro-ministro e, tal como lhe chamou o jornalista Joaquim Vieira, o grande “patrão dos media” do país na biografia não autorizada homónima publicada esta semana, vê o legado que construiu desfazer-se. Talvez seja o maior, mas não é o primeiro revés do género na vida de Francisco José Pereira Pinto de Balsemão. O primeiro grande golpe atingiu-o no primeiro projeto a que deu a alma, o Diário Popular, vendido pelo tio de quem herdou o nome. Mas adiantamo-nos, que as primeiras décadas de vida do aniversariante têm pedras importantes para a construção deste caminho.

Uma família de Henriques e Franciscos

A queda da família pelo ramo da comunicação não nasceu com Francisco José naquele fim de tarde de 1 de setembro de 1937. O filho único e varão de Henrique Patrício Pinto de Balsemão e de Maria Adelaide Van Zeller de Castro Pereira – nascido de cesariana na casa de Saúde das Amoreiras, conta a referida biografia – não foi o primeiro Balsemão a sentir o chamamento dos jornais. Antes dele, ainda na Guarda, já o avô paterno, também Francisco Pinto Balsemão, fundara o Jornal do Povo, de linha antimonárquica e, em 1904, O Combate.

E tanto o pai como o tio, Henrique Francisco Balsemão, investiram também no ramo. Franciscos e Henriques seriam os nomes escolhidos pela família e a própria descendência do dono da Impresa seguiria a ‘norma’ masculina – o filho mais velho, do primeiro casamento chama-se Henrique, o filho que foi obrigado a reconhecer em tribunal, fruto de uma relação extraconjugal, Francisco Maria e o mais jovem, já do segundo casamento, Francisco Pedro. Teve ainda duas filhas, Mónica, também em primeiras núpcias, e Joana, que, como Francisco Pedro, são filhos de Mercedes Aliu Presas Balsemão, conhecida por Tita, casada com Pinto Balsemão há mais de trinta anos.

Até se mudar para a Quinta da Marinha, em Cascais, onde ainda hoje reside, viveu na Lapa aristocrata e de gente de bolsos fundos. E Balsemão personificava os dois – do lado paterno vinha o dinheiro da indústria de lanifícios e da eletricidade, da mãe, nascida em Sintra, o sangue e, inclusivamente, a linhagem real já que, por esse lado, Balsemão é descendente do rei D. Pedro IV.

Cresceu, por isso, num meio priveligiado, tanto de conhecimentos como de posses, mas isso não o tornou preguiçoso – antes pelo contrário.

Estudou perto de casa, no liceu Pedro Nunes. Dos tempos de liceu, a cantora Simone de Oliveira, que por lá estudou na mesma altura, recorda que sempre sentiu «uma ternura muito grande» pelo ‘colega’. E recorda o fraquinho – por mulheres – que Balsemão parece ter evidenciado desde os tempos de meninice. «Ele gostava de loiras mas eu era morena», conta. Sobre o tipo de aluno, Simone diz não ter grande memória mas assume que Balsemão se safasse bem, já que a turma em que estava incluído «era boa». E era, efetivamente, assim, conta Joaquim Vieira na biografia em que revela as notas por vezes médias, mas mais a atirar para o alto.

Aos 17 anos quando entra na faculdade de Direito de Lisboa que, à época – anterior à Cidade Universitária – funcionava no Campo dos Mártires da Pátria – Balsemão já demonstrava uma aptência grande para a escrita. Mais até do que pelo discurso oral. «Tinha muito mais jeito para escrever do que para falar», descreve uma amiga da primeira mulher que pediu o anonimato.

Mas, mesmo com esta queda, todos parecem reconhecer o charme natural intrínseco às conversas de Balsemão. «Tinha um charme a falar que era uma coisa doida, fazia charme com toda a gente mesmo sem se esforçar», reconhece a mesma fonte.

Curiosamente, foi durante o serviço militar que Francisco Pinto Balsemão pôs, pela primeira vez, palavras no jornalismo – a partir de 1961, foi chefe de redação da revista Mais Alto.

O bichinho continuou a crescer no Diário Popular, propriedade da família – o irmão do pai, Henrique, detinha a maior parte do jornal. Balsemão entra como secretário da direção do Diário Popular, cargo que mantém até 1963 – mais tarde chegou a integrar o respectivo Conselho de Administração, entre 1965 e 1971. Na prática, era o diretor oficioso do jornal e já demonstrava uma capacidade inata de trabalho e de gosto pelo jornalismo. Numa altura em que a imprensa portuguesa era rasurada pelo lápis azul, lia tudo o que podia sobre os moldes do jornalismo além fronteiras e tinha um especial interesse pelos modelos anglo-saxónicos.

Por essa altura, já estava casado com Maria Isabel da Costa Lobo Cardoso, conhecida por Belicha, mãe do primogénito Henrique e de Mónica Balsemão. A fama de playboy já era bem conhecida, mas nada causou tanto escândalo como o processo de paternidade de Francisco Maria, que resultou de um affair com Maria Supico Pinto. A paternidade foi debatida até à última instância em tribunal – com Balsemão a negar constantemente ser o pai da criança. «Essa foi uma história horrível», conta uma amiga de uma das testemunhas de Balsemão que pediu anonimato. «Ainda por cima antes do 25 de Abril, em que a sociedade era muito fechada. Já toda a gente o conhecia, ele era um menino rico, foi muito feio».

Balsemão perdeu o processo, mas só conheceu o filho quando o mesmo já teria atingido a maioridade – e terá sido, segundo a investigação de Joaquim Vieira, a própria Tita a mediar uma reconciliação.

Enquanto o caso decorria na barra dos tribunais, o casamento com Belicha desmoronava. A última machadada é dada quando a ainda mulher se apaixona pelo apresentador de televisão Carlos Cruz, com quem vai viver, levando inclusivamente os filhos Henrique e Mónica.

Se a vida social e amorosa de Francisco Pinto Balsemão parecia uma confusa partida de ténis – ainda namorou com a agora cunhada antes de se casar com Tita Balsemão – o seu percurso, tanto como «patrão dos media» com na política continuava de vento em popa. E, aos 35 anos, a 6 de janeiro de 1973, lança o que viria a ser o grande jornal da oposição e parte importante na queda do regime, o Expresso, do qual foi diretor até 1980.

Antes disso, o acaso da política

Parece que foi outra vida, tantos anos vão passando. Mas foram 14 anos de vida política ativa, com algumas interrupções, que não terá propriamente procurado, mas que assumiu no pico da força da juventude. «É mais jornalista do que político. Ele torna-se político um bocado por acaso», resumiu o biógrafo Joaquim Vieira na entrevista publicada na última edição do SOL a propósito do lançamento da biografia. Em 1969, por instinto de Marcello Caetano, Balsemão é convidado para ser candidato à Assembleia Nacional pela União Liberal. Ao ser confrontado com uma lista de 17 nomes selecionados por José Guilherme de Melo e Castro para este grupo de deputados mais independentes mas apoiantes do Governo, o presidente do Conselho terá dito que faltava acrescentar Balsemão e Mota Amaral. «Ó senhor presidente, esse é um menino de família», retorquiu Melo e Castro, lembra na biografia Joaquim da Silva Pinto. «Marcello Caetano sorri, coisa que não era tão frequente, e diz: ‘Ele é de família, mas uma família ligada à comunicação social. Isto tem uma importância política muito grande. Além de que é um rapaz muito inteligente e com muitas ligações externas (…) é um nome que eu insisto».

Balsemão tem 32 anos e dá as cartas no jornal do tio, diário de grande tiragem. Torna-se candidato à AN pelo círculo da Guarda, berço da família paterna. Durante a campanha num distrito que mal conhecia, conta Joaquim Vieira, a família viria a doar uma casa que já não era usada, mas nem isso granjeou de imediato o apoio local. Nos discursos, falava do problema da «efetiva aplicação dos direitos, liberdades e garantidas» ou da «possível instauração de partidos políticos». E embora não fosse tão rebelde como Sá Carneiro, para lá caminhava.

As eleições tiveram lugar a 25 de outubro daquele ano, com o Diário de Lisboa a destacar a grande afluência as urnas, tudo na maior ordem, gente que fora votar de gravata e fato de ganga. Os resultados de todos os distritos demorariam três dias a chegar.

Na ficha ainda disponível no site do Parlamento, Balsemão, que fora quase última escolha – mas bem apadrinhada – é descrito como «membro proeminente» da Ala Liberal. Na primeira sessão legislativa, debruça-se sobre a promoção do turismo na serra da Estrela. Mas começa a causar mossa: apresenta uma nota de perguntas sobre a provável data de envio à Assembleia Nacional da proposta de lei de imprensa, o que incomoda Marcello Caetano. Há também registo de «um aparte à intervenção do Sr. Sá Carneiro sobre os cortes feitos pela Censura nos relatos da imprensa relativos à sua última intervenção», episódio que Vieira relata na biografia. Ao ver que declarações suas são eliminadas, Balsemão escreve a Marcello Caetano a queixar-se, não sendo conhecida resposta.

Na segunda sessão legislativa aumenta o dinamismo e a tensão. Apresenta com Sá Carneiro uma proposta de lei de imprensa e investe nessa pasta perante a inação do Governo, chegando a publicar um livro sobre o estado da comunicação Informar ou Depender?. Marcello Caetano acusa o toque e não é pouco. «Eu tenho sobre os meus ombros responsabilidades, e bem graves. E o autor do livro é um deputado eleito numa lista de apoio ao Governo da minha Presidência, o que implicava a aceitação de certa disciplina e o compromisso de leal colaboração», escreveu-lhe, cita Joaquim Vieira na biografia. «O Dr. Balsemão tinha dúvidas. E as dúvidas resultavam do seu desejo de ajudar o mais eficazmente possível a ação do meu Governo: essa eficácia seria melhor conseguido mantendo-se apenas no Diário Popular ou acumulando a posição de deputado? Respondi que compreendia a dúvida e deixava ao seu critério a resolução, porque efetivamente o apoio do Diário Popular me era preciso», continuava o chefe de Governo, para concluir, sobre a proposta de lei dos jovens deputados, «compreenderá que eu não possa considerar a sua conduta como modelo de lealdade cavalheiresca». Meses mais tarde, Balsemão chega a pôr o lugar à disposição. Dá nota de que continuará a apoiar o chefe de Governo, «agora, calado, sem a tribuna do Diário Popular e sem a tribuna de São Bento» – o tio tinha vendido o jornal. Haveria outros embates, como a apresentação também com Sá Carneiro de um projeto de lei de revisão da Constituição de 1933, que após os trabalhos na especialidade não vai tão longe quanto pretendiam ao defender o regresso ao sufrágio direto e universal na eleição do Presidente da República ou ao fim das práticas totalitárias da PIDE. Ainda assim, Sá Carneiro, de quem era colega de carteira na AN, o que estreitou a relação entre ambos, viria a fartar-se primeiro. Renuncia ao lugar de deputado em fevereiro de 1973, na altura já com o Expresso a fazer o seu caminho – o semanário nasce a 6 de janeiro daquele ano. Nesses primeiros tempos, a coluna de Sá Carneiro, de nome Visto, era particularmente visado pela censura. Balsemão despedir-se-ia da vida de parlamentar na primavera desse ano, dedicando-se a tempo inteiro ao seu semanário.

O jornal que virou barriga de gestação

«Era sempre dos primeiros a chegar», contou ao b,i. uma antiga funcionária que trabalhou diretamente com o fundador e dono do semanário, para o qual chamou o promissor e jovem advogado Marcelo Rebelo de Sousa na primeira hora. «A primeira coisa que fazia era pedir uma garrafa de água fria».

O rigor e a capacidade de trabalho, além do contacto com os funcionários, fazem parte do leque de memórias da mesma fonte. «Perguntava à porteira pelos filhos, à telefonista a mesma coisa. Conhecia perfeitamente o contexto familiar de cada um». «Recordo essencialmente uma pessoa muito, muito trabalhadora e que não perdia a cabeça. Tinha as suas zangas, percebia-se que ficava maldisposto mas era uma pessoa profundamente educada pelo que não transparecia de nada por aí além».

Sobre a fama de forreta, a antiga funcionária admite dois cenários. «É verdade que era uma pessoa que, se podia viver com três fatos, vivia. Se podia viajar em turística, viajava. E se mandava o paquete comprar o que quer que fosse, esperava sempre calmamente pelo troco», conta. «Lembro-me de quando comprávamos artigos ao New York Times e, imaginemos, se lhe pediam 500 dólares, ele negociava até chegar a um valor que achasse justo. Não era esbanjador, podia ter uma casa de luxo na Quinta da Marinha e tinha uma casa normal. Tinha um Porsche nessa altura, que era uma coisa rara, mas foi-lhe oferecido». Mas, por outro lado, e principalmente nos primeiros tempos do Expresso em que a liquidez dos cofres escasseava ao final do mês, era o primeiro a ir às suas contas pessoais para pagar os ordenados. «Dizia muitas vezes que o Expresso era as pessoas que lá trabalhavam, era impensável para ele não pagar a horas».

Também José António Saraiva [que se mantém como conselheiro editorial do semanário SOL e é colunista do b,i.] e que, durante 23 anos, dirigiu o semanário realça esse sentido de família alargada que sentia pelos funcionários. «As saídas das pessoas eram quase uma traição. Ficava muito magoado, até porque via a empresa como familiar. Era mesmo um cordão umbilical. Tinha a regra de, quando as pessoas cortavam o vínculo profissional, não havia volta a dar».

Mais tarde, Júlia Pinheiro, que deixou a SIC para a TVI e voltou à estação de Carnaxide, foi uma exceção à regra.

No entanto, Balsemão nunca «exerceu esse sentimento de forma prepotente», reconhece José António Saraiva. E, mesmo nas discussões, foi sempre «muito civilizado». «Só me recordo de um episódio, uma vez que mudei o grafismo da primeira página e o Balsemão ligou-me e disse: ‘Fez-me um atentado contra o meu património!’. A discussão depois durou um dia inteiro em casa dele, lá expliquei e a coisa acabou bem».

Se o semanário fez o seu caminho, salvo da falência pelo 25 de Abril que pôs fim à censura, os primeiros anos acabarão por confundir-se com a história do PPD. Segundo a reconstituição de Joaquim Vieira, foi logo no dia seguinte à Revolução que Sá Carneiro procurou o amigo na sede do Expresso para discutirem a hipótese de formar um partido. O anúncio de intenções seria feito na RTP na mesma semana. Na altura, recorda a biografia, ainda esteve em cima da mesa a conversão da SEDES (Associação Para o Desenvolvimento Económico e Social), mas o núcleo que incluía Sá Carneira, Magalhães Mota, Miller Guerra e Marcelo Rebelo de Sousa ou António Barbosa de Melo opta pela constituição, do zero, de um partido à direita do PS. «O Expresso acaba por ser a barriga de aluguer da formação em gestação, como explicará Marcelo de Sousa, falando desses ‘frenéticos’ dias iniciais de maio: ‘No Expresso fazia-se, naqueles momentos, mais política partidária do que jornalismo», escreve Joaquim Vieira. Um local de paragem regular era o restaurante Pabe, na avenida Duque de Palmela, onde ficava também a redação do Expresso. Balsemão é um dos clientes com mesa cativa.

O partido, que não se chamou logo de início Partido Social Democrata por ter aparecido uma formação com nome idêntico, seria fundado a 6 de maio de 1974. A primeira sede do partido fica no largo do Rato e a 12 de maio há um encontro combinado secretamente para aprovar o primeiro programa do partido. Na véspera, Balsemão anuncia-o na rádio. «Fiquei furioso. Então o Balsemão não sabia guardar segredos? Eu tinha arranjado maneira de o encontro ser no CADC, onde fui presidente como estudante. Aquilo não era propriamente um gineceu de virgens, mas era um sítio onde se faziam conferências, não havia ali atividade política. Eu não queria comprometer a Igreja!», disse em 2010 ao Público Barbosa de Melo. Estava criado o primeiro incidente, com o encontro a ter de passar para o Palace Hotel da Curia. «Em Coimbra havia o perigo da invasão de grupos de esquerda, que entravam aos 50 e aos 60 e partiam tudo”, contou ao mesmo diário Miguel Veiga.

Quatro dias depois, escreve Joaquim Vieira, toma posse o I Governo Provisório, chefiado por Adelino Palma Carlos. Balsemão não integra o Executivo, continuando sobretudo dedicado ao Expresso, embora trate da divulgação do PPD. «Ele está envolvido no lançamento do PPD, futuro PSD, mas o líder é claramente Sá Carneiro. Mesmo quando há contestações internas, ele nunca ambicionou assumir a liderança», lembrou Joaquim Vieira ao SOL. «Chegou a subscrever as Opções Inadiáveis, um grupo de oposição a Sá Carneiro, que contava com Sousa Franco e Magalhães Mota. No entanto, ao fim de dois meses, não sei que volta lhe deram mas acabou por sair. As Opções Inadiáveis, que começou por ser só uma contestação interna às políticas de Sá Carneiro, tornou-se a partir de certa altura mesmo um grupo – tinham mais de metade do grupo parlamentar do PSD. Acabaram por dar origem à ASDI – Ação Social Democrata Independente – e concorreram às eleições de 80 contra Sá Carneiro em aliança com Mário Soares – chamava-se Frente Republicana e Socialista. Balsemão conseguiu tirar o cavalinho da chuva, ficou muito discretamente ao lado de Sá Carneiro e quando este ganhou as primeiras eleições com a coligação AD (Aliança Democrática), em 1979, pôs Balsemão no Governo».

Ficou com o cargo de ministro de Estado adjunto do primeiro-ministro, embora preferisse os Negócios Estrangeiros, a sua pasta desde a formação do partido. Abandona então a direção do Expresso, passando a bola a Marcelo.

Reeleito pelo Porto nas eleições legislativas de 1980, Balsemão manifesta vontade de deixar o Governo. Ainda assim, integra a campanha às Presidenciais, que teriam lugar a 7 de dezembro, longe de imaginar que viria a ser primeiro-ministro pouco tempo depois. Sá Carneiro morre a 4 de dezembro no desastre de Camarate, pouco tempo depois de partir rumo ao Porto onde iria participar no comício de encerramento da campanha, precisamente por insistência de Balsemão junto da direção da candidatura de Soares Carneiro, apoiada pelo PPD. «Foi um acaso histórico. Ele não estava talhado para ser primeiro-ministro. Sá Carneiro morre no acidente de Camarate e Balsemão é o número 2 do PSD. O número 2 do Governo era Freitas do Amaral, só que este último dirigia o partido minoritário da coligação AD, por isso coloca-se a questão de quem deveria suceder a Sá Carneiro. Faria sentido que fosse o líder do partido maioritário. Balsemão ascende assim a líder do PSD e torna-se automaticamente primeiro-ministro», descreveu ao SOL Joaquim Vieira.

O VII Governo foi empossado por Ramalho Eanes no Palácio da Ajuda a 9 de janeiro de 1981, uma sexta-feira. «Depois de ter prestado homenagem à memória de Sá Carneiro e de ter assegurado a continuação da sua política, afirmou que tudo fará ‘para garantir a estabilidade e para evitar a paralisia governativa e a insegurança política’», noticiou o Diário de Lisboa daquele dia. Os dois grandes objetivos do Governo seriam a libertação da sociedade civil e o desenvolvimento económico do país. Em setembro, encabeçaria o VIII Governo Constitucional, chamando Marcelo para seu ministro dos Assuntos Parlamentares, «para o afastar do jornal», assumiu em 2013 numa entrevista publicada no Expresso. As fugas de informação para o Expresso fazem parte da história. Dos anos à frente do país, «o mais importante foi mesmo a revisão constitucional», avalia Joaquim Vieira, que passou a pente fino todo este período. «E esta nem sequer compete ao primeiro-ministro, mas sim aos líderes partidários – a revisão constitucional deve ser feita no Parlamento, mas a verdade é que aquilo foi combinado. Houve ligações partidárias e Balsemão participou nas negociações com Mário Soares e Freitas do Amaral. No fundo, são eles que fazem a revisão.» Aconteceu em 1982, criou o Tribunal Constitucional, dissolveu o Conselho da Revolução. Balsemão cessaria funções como primeiro-ministro a 9 de junho de 1983, depois de seis meses em governo de gestão. É neste ano que passa a frequentar os sigilosos encontros do clube Bilderberg. Até 2015 fez parte do comité que organizava as reuniões e pouco falou publicamente sobre o assunto. «É um grupo da sociedade civil que junta uma vez por ano norte-americanos, canadianos e europeus para falar a alto nível sobre os problemas atuais, que tanto podem ser as relações entre os dois continentes como a guerra no Iraque ou a economia da China. Está muito bem organizado e, ao não estar lá a imprensa, não pode haver conclusões nem comunicados finais, as pessoas podem falar de forma muito livre. Muita gente que o critica gostaria de fazer parte dele», disse em 2005 numa entrevista ao jornal espanhol Abc. Para seu sucessor no lugar de porteiro de Bilderberg escolheu Durão Barroso.

Em 1992, nascia outro sonho

«Que televisão é que o senhor vai fazer?», perguntou Artur Albarran no arranque da entrevista em fevereiro de 1992, quase uma década volvida sobre a saída de Balsemão da vida política ativa. Estava a nascer um novo sonho. «Não lhe posso contar tudo porque o senhor neste momento é concorrente. Posso dizer que vamos tentar fazer diferente. Na informação política institucional e referencial que por vezes é praticada, mas alargando o âmbito da informação aos aspetos sociais, económicos e culturais e alargando o direto».

A construção deste sonho é detalhada na nova biografia. «40% do capital para criar a SIC teve de vir de fora de Portugal com recurso a um testa-de-ferro, que era um amigo de infância, Luís Correia de Sá. A lei só permitia que os órgãos de comunicação na altura tivessem 10% de capital estrangeiro. E Balsemão com 10% não ia a lado nenhum, não tinha dinheiro para a SIC», descreveu ao SOL Joaquim Vieira. «E assim aparece Luís Correia de Sá com uma empresa em nome dele, a LCS, com os 40% na SIC. E até há uma comunicado interno do Balsemão a dizer que a partir do dia seguinte o seu amigo de infância ia entrar com 40% na empresa. Mas a história acaba por tornar-se complicada: Luís Correia de Sá ganhou muito pouco com isto, uns 110 ou 115 mil euros, mas aparece na lista dos homens mais ricos de Portugal feita pela revista Fortuna. Afinal, é um dos homens por detrás da criação da SIC. Correia de Sá estava num processo de divórcio da mulher, que era belga e tinha ido para Bruxelas com as duas filhas. Ela viu a revista e avançou com um processo no tribunal de Bruxelas para ficar com metade de uma fortuna que ele não tinha. Correia de Sá perde o processo e hoje em dia está completamente falido, na miséria».

Alberta Marques Fernandes daria o pontapé de saída da primeira estação televisiva privada em Portugal a 6 de Outubro de 1992.

«Era um sonho que, naquela altura, era muito complicado. Fomos o primeiro canal privado a ir para o ar. As pessoas, hoje em dia, estão habituadíssimas a ver a SIC, mas naquela altura foi um sonho difícil de alcançar. De qualquer forma o sonho não se fez e acabou. É para continuarmos», admitiu Francisco Pinto Balsemão, numa entrevista em que não escondeu o orgulho de ter visto nascer a estação de Carnaxide.

Apesar de muitos dizerem que é forreta, o pai do grupo Impresa confessa que não é, «em investimentos que valem a pena». Foi o caso da SIC. Otimista por natureza, admite que, se não fosse esse aspeto da sua vida, não tinha criado o canal. Um projeto que também o define.

«Um homem tranquilo», «afável no trato», «de condição humana». Era assim que o caracterizava a casa, de que é pai, quando lhe atribuiu o prémio de Mérito e Excelência. Convencido de que, por vezes, é importante vermos os méritos reconhecidos, não esconde que o caminho que fez nem sempre foi fácil. Mas foi deixando marcas, tanto no que criou, como na impressão que deixa nas pessoas. Conversámos com algumas pessoas que trabalham ou trabalharam com ele neste projeto e há um adjetivo comum: humanidade.

«Sinto um enorme carinho e sentido de gratidão pelo Dr. Balsemão. Naquela que é a minha história profissional com o Dr. Balsemão, a nossa relação foi sempre marcada por um verdadeiro interesse em ouvir os meus sonhos de carreira e as minhas inquietações», começa por recordar Catarina Furtado, acrescentando que há duas histórias que não esquece. Vamos à primeira: «Depois do sucesso da primeira edição do Chuva de Estrelas, o Dr. Balsemão considerou que o meu ordenado (estava nos quadros) não seria uma compensação suficientemente justa para o impacto que o sucesso do programa teve na estação, e decidiu apurar junto do meu grupo de amigos, o que seria um presente do meu agrado. Ofereceu-me um carro». A segunda, mais ligada ao percurso que viria a fazer, também marcou a apresentadora. «Numa outra altura, em que decidi ir estudar teatro e cinema para Londres e abandonar a minha carreira em Portugal, fui reunir com o Dr. Balsemão para lhe comunicar esta minha vontade e dizer-lhe que faria sentido eu sair dos quadros para ficar livre e não prejudicar a SIC. A resposta do Dr. Balsemão foi qualquer coisa como: «Não deves sair da SIC, os teus estudos serão um investimento para a estação» e propôs-me ir fazendo de Londres entrevistas que enviaria para a SIC. Durante três anos assim o fiz, sentindo da sua parte a valorização do meu trabalho».

O fato de ser próximo de quem o rodeia é, aliás, o grande ponto de encontro para a admiração que muitos mostram. Para Bárbara Guimarães, por exemplo, o que aconteceu na SIC foi a criação de uma família. «Lembro-me de quando tive um convite para sair da SIC. Pedi para reunir com ele e disse-lhe que ia recusar. Nem sequer esperei pela resposta porque senti da parte dele que éramos uma família e a família é para estar junta, é para estar unida. Ele cuida e preocupa-se muito com todas as pessoas que trabalham com ele. Desde as telefonistas, a quem pergunta sempre como estão», sublinha, acrescentando que Balsemão «representa um homem que está e sempre esteve à frente do seu tempo. É um homem que revolucionou a imprensa. Criou o Expresso e a SIC e é reconhecido a nível nacional e internacional».

Também Clara de Sousa, um dos rostos da SIC, ressalva a importância da forma diferente como Francisco Pinto Balsemão sempre olhou para tudo. «Chamamos-lhe, carinhosamente, de patrão e falamos de uma cabeça muito diferente. Orgulho-me muito de fazer parte de uma empresa dele. Ele tem uma base jornalística e a essa vertente prevaleceu sempre. A SIC é uma casa de liberdade. Ele fala com toda a gente sempre com um sorriso e nunca se esquece de levar o Bolo-rei no Natal. Todos os anos, o faz e nunca falha. Além disso, é uma verdadeira referência para o país. Tiro-lhe o meu chapéu», revela, acrescentando que o contacto com os colaboradores sempre fez parte das rotinas: «Posso dizer que anda nos corredores e vai ao bar para poder estar com as pessoas. Podia ser diferente porque o gabinete dele é logo à entrada e não precisava de se cruzar com ninguém, mas faz questão. É uma pessoa excecional».

Não é difícil encontrar vários exemplos da relação atenta que criou com muitos com que se foi cruzando ao longo da vida. José Figueiras, uma das primeiras caras da SIC, salienta que «estamos a falar de um homem que tem uma lucidez incrível. Houve vezes em que privei com ele, por exemplo em festas da estação, e sempre achei que era um visionário. É alguém com quem dá gozo falar. É uma pessoa muito próxima dos que trabalham com ele. Não está num pedestal. Basta ir bater à porta do gabinete e ele atende as pessoas. Estou na SIC há 25 anos e ele cumprimentou-me sempre. É também muito engraçado porque as pessoas que estão na SIC há mais tempo dizem que vão cumprimentar o tio. O bebé SIC nasceu dele e nós, que estamos há mais tempo, fomos os padrinhos. Há uma enorme afetividade entre esta malta que viu o projeto nascer». Uma forma de olhar para o início da estação que é partilhado por várias caras conhecidas. Jorge Gabriel também relembra esses tempos com saudade e não esconde que não esquece o homem que «deu um grande contributo para a nossa liberdade».

Balsemão e Marcelo. De costas voltas há mais de 40 anos

Mas nem só de amizades e simpatia se fez a história de Balsemão. Desentendimentos houve que levaram a inimizades que existem há vários anos. É o caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Depois de terem partilhado o Expresso, a fundação do PSD e o Governo, a amizade entre os dois acabou com Balsemão a acusar Marcelo de o ter traído. A paciência do fundador do PSD esgotou-se quando era primeiro-ministro e convidou o atual Presidente da República para colaborar no Governo, no início da década de 80. Balsemão era altamente contestado dentro do partido. Cavaco, Santana, Helena Roseta e outros críticos faziam-lhe a vida negra. Mas o pior para Balsemão era que alguns dos mais duros ataques ao governo vinham do seu Expresso. «O jornal andava a matar o pai», diz. Entre outras farpas, Marcelo chegou a escrever que «não há vergonha nenhuma que haja quem pense que Balsemão foi uma escolha infeliz ou desastrosa».

Com os ataques sucessivos vindos do Expresso, Balsemão achou que estava na hora de tirar Marcelo do semanário e levá-lo para o Governo, com esperança que as coisas mudassem. Mas enganou-se. «Apresentou a demissão quatro dias antes das autárquicas, com a promessa de nada revelar até às eleições, mas no próprio dia ou no dia seguinte a notícia estava no Expresso, conta Balsemão, na biografia de Vítor Matos do comentador político. «O episódio marca o ponto final numa amizade de dez anos», relata o jornalista. Numa entrevista, mais recente, chegou mesmo a dizer que «houve muita gente» que o enganou e traiu: «Pessoas em quem eu acreditava. Não sou rancoroso, mas não consigo perdoar e nunca mais esqueço».

Além de algumas inimizades que foi fazendo pelo caminho, a história de Balsemão também se faz de simples episódios, onde as críticas feitas ao patrão da Impresa se tornaram públicas. Foi o caso de Isabel dos Santos. Houve corte de relações, corte de canais e divergências que vieram a lume. Para a empresária falar de Francisco Pinto Balsemão é falar de alguém com uma «inconfessável ganância comercial».

Grandes amigos já partiram. É o caso de Costa Reis ou Luís Vasconcellos. No almoço de aniversário, que costuma decorrer no restaurante Gigi, na Quinta do Lago, Balsemão faz-se apenas rodear da família mais próxima para degustar dois dos seus pratos preferidos – lulas e carabineiros. E os parabéns, tal como o almoço, são um momento discreto. Mas diz-se que, para comemorar a data redonda, este ano há festa de arromba, marcada para o próximo dia 6 – ou não fosse esse o dia fetiche de Balsemão.

Artigo escrito por: Marta F. Reis, Mariana Madrinha e Sofia Martins Santos / Parceria jornal i 

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