‘Axilas’: uma ode negra e hilariante à obsessão masculina

12 MAIO, 2016 -

Axilas cativa logo pelo nome. Realmente as axilas são profundamente poéticas, quando captadas por José Fonseca e Costa. O realizador, falecido no ano passado, durante as filmagens deste filme, deixou indicações de como o mesmo devia ser terminado.

Lázaro de Jesus é confrontado com a morte da senhora beata e abastada que o adoptou, a quem ele chama Avó. Ela criou-o à sua imagem, para que pudesse ser o homem que idealizava que ele fosse. Mas Lázaro, graças ao escritório do seu falecido ‘avô’, descobre em si uma obsessão pela axila feminina, que o leva a distanciar-se dos objectivos traçados pela Avó, de quem ele queria mais a herança do que outra coisa.

O filme, talvez pela trágica perda do realizador, apresenta alguma falta de coesão em certos pontos. Retém uma teatralidade exagerada (que felizmente se manifesta mais apenas no início), que acaba por não ser tão interessante quanto o método mais realista adoptado para o resto da história.

Após o início acidentado, a construção extremamente bem feita da história mantém-nos presos ao ecrã. É sempre acompanhado daquela portugalidade inerente à maioria dos filmes nacionais, materializada pelos cenários lisboetas (CCB, Gulbenkian, Avenida da Liberdade, Olaias, “A Minhota” na Rua de S. José). Tudo isto é capturado em planos limpos e concisos, que mostram tudo o que querem mostrar.

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Para além da boa construção da história, a personagem principal, em quem reside o principal foco do filme, está também muito bem desenvolvida. Uma personagem simples, à primeira vista, Lázaro de Jesus oscila entre a inocência infantil, a descoberta adolescente e a perversidade adulta, numa escala sem limites bem delineados que a tornam numa personagem complexa. Pedro Lacerda aceita este desafio de forma soberba, passando de inocente a perturbador no piscar de um olho. A certa altura, já só nos fixamos na sua expressão aparvalhada ou enigmática, quer com riso ou intriga.

Lázaro está rodeado de personagens que, suficientemente contextualizadas, dão a sua contribuição deliciosa ao filme, completando-o. Margarida Marinho, nomeadamente, quebra a sua ligação às personagens convencionais das novelas, fazendo de Angelina, a religiosa fervorosa que esconde um fundo mais libertino.

Longe de ser perfeito, Axilas entretém muito e passa num instante, muito pelo ambiente leve e hilariante, proporcionado pelas cenas bem escritas. Sem querer revelar demais, o filme possui uma mudança de direcção extraordinária que, por muito que se dê voltas, não é previsível. Com ela, o que era uma comédia despreocupada passa a algo muito mais profundo e que pode ser objecto de reflexão.

Que isto seja o suficiente para levar o leitor a ir ver esta despedida de José Fonseca e Costa do grande ecrã, e a apreciar a poesia negra das axilas.

Texto de Bernardo Crastes

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