Augusto Cury: ‘A maioria dos casais são entediantes, estão sempre a repetir-se’

6 JUNHO, 2017 -

O psiquiatra mais lido do Brasil conversou com o i sobre janelas de memória assassinas e seguros emocionais.

Basta pesquisar na internet por Augusto Cury para encontrar centenas de pensamentos da sua autoria. Uns, se calhar, nem são, outros levam o nome de autores como Fernando Pessoa ou o Papa Francisco e saíram da sua cabeça. Psiquiatra de formação, Cury explica que o trabalho de ficção resulta do estudo do pensamento e da gestão de emoções, área em que as neurociências “estão atrasadas demais”, lamenta. O preço é alto: milhões de pessoas com problemas psicológicos que podiam ser mais bem prevenidos se parássemos todos os dias para duvidar daquilo que vemos no espelho e para programar os pensamentos em direções mais construtivas. De passagem por Portugal para apresentar o livro “O Homem Mais Inteligente do Mundo”, onde disseca a mente de Jesus, o autor conversou com o i sobre a sua teoria das janelas killer e janelas light – e como estas podem levar a uma mente mais saudável –, mas também sobre a arte de construir frases que ficam no ouvido.

Não há muitas entrevistas em que fale sobre si. Nasceu em Colina, São Paulo. Que lugar é este?

É um sítio pequeno, de menos de 20 mil habitantes, uma cidade que não tem livrarias.

Não tem agora ou não tinha quando era miúdo, nos anos 60?

Nunca teve. Nunca ninguém me falou sobre livros ou sobre como publicar.

Sempre soube o que queria ser?

Sempre fui um apaixonado pela psiquiatria. No terceiro ano da Faculdade de Medicina comecei a estudar a mente humana e a escrever sobre o funcionamento da emoção.

De onde saiu essa vocação?

O contacto com a natureza sempre me incentivou muito a interiorizar-me. Por outro lado, sou muito sociável, tinha vários amigos.

Muitos irmãos?

Seis irmãos a contar comigo, era uma família muito grande. Uma família pobre. Até aos dez anos de idade morávamos todos num quarto só, com muitas dificuldades. E essa sociabilidade foi muito importante, até pela resiliência. Quando você tem uma família muito grande, passa por perdas, por crises, chora e ri muito, e isso aumenta a capacidade de lidar com a frustração e de reconhecer as dificuldades.

E ajuda a perceber melhor os outros?

Sim, a conhecer e a respeitar as diferenças, o que é vital para o ser humano ter uma mente saudável. Mas eu era uma pessoa muito desconcentrada na escola. Amava o pensamento antidialético.

Tinha más notas?

Era um dos alunos que menos estudavam na classe. Os meus colegas diziam que eu tinha um caderno só, e nada lá escrito. Quando resolvi fazer a Faculdade de Medicina comecei a estudar 12 horas por dia. Então aquele péssimo aluno, mas que era muito imaginativo e de-senvolvia muitas personagens e muitos ambientes, começou a usar a sua imaginação para a disciplina. E descobri aí que sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas e que disciplina sem sonhos produz pessoas autómatas, que só obedecem a ordens. Eu uni as duas coisas que os jovens na atualidade raramente unem: sonhos e disciplina. E sonhos não são desejos. Desejos são tensões superficiais, sonhos são projetos de vida.

Os jovens, hoje, têm mais sonhos e menos disciplina? Ouvimos isso, por exemplo, dos millennials.

As gerações X, Y e Z, principalmente Y e Z, estão perdidas. A geração Z, nem digo nada: esses jovens que nasceram a partir do ano 2000 são a “geração minuto”. Têm dez ou 15 anos de idade biológica, mas emocionalmente têm 80 ou 90. Envelheceram precocemente a emoção.

Quais são os sintomas desse envelhecimento?

Reclamar demais, querer tudo rápido e pronto, não elaborar as suas experiências, não se colocar no lugar do outro e não se curvar em agradecimento. Estamos numa era de jovens emocionalmente velhos e biologicamente novos, e isso é muito grave. E no mundo todo, em mais de 70 países onde já fui, tenho dito que é preciso mudar a educação: passar da era da informação para a era do eu como gestor da mente, até para rejuvenescer a juventude. Tudo o que temos hoje, do WhatsApp ao Facebook, envelhece precocemente a emoção. Têm contacto com centenas ou milhares, mas raramente têm profundamente contacto com alguém e, pior ainda, raramente têm profundamente contacto consigo.

É nisso que assenta a sua teoria de inteligência multifocal, mas acaba por ser mais conhecido pelas frases “inspiradoras”.

Minhas frases não são frases, são teses.  Eu me coloco como artesão das palavras. Escrevo e reescrevo cada obra cinco a dez vezes ou mais. Lapido as palavras para que elas não tenham só conteúdo, mas estética. Por exemplo: “Quando a sociedade te abandona, a solidão é difícil mas suportável, mas se você mesmo se abandona, ela é intolerável.” Pode levar a depressão, autopunição, pode gerar autocobrança e inclusive pode levar ao suicídio. Há muitas pessoas que não relaxam, não se encantam, perderam a capacidade de contemplar.

Como sabe que a frase está no ponto certo?

Quando ela, na minha mente, toca a minha emoção. Por exemplo: “Um ser humano brilhante escreve os capítulos mais importantes da sua história nos momentos mais difíceis da sua vida.” Quando constrói uma fase assim, que estimula o leitor a perceber que pode escrever capítulos como escritor e assim se tornar autor da sua própria história, toca nas raízes da mente. Outros exemplos: “Quem vence sem riscos triunfa sem glória.” Ou: “Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros, não precisa sofrer para aprender.”

Não tem receio de que o vejam como o homem dos clichés?

Eu não faço clichés. Eu construo frases, não são frases prontas. As frases são ferramentas para tornar o texto agradável. Não escrevo para entreter, mas para provocar o leitor, para que ele possa desenvolver autonomia. Só que tem um problema: sou um autor difícil de traduzir. Sou publicado em 70 países e frequentemente a dor de cabeça que dá na língua chinesa ou inglesa: não conseguem traduzir poesia. Passo por um certo stresse porque os tradutores falam: “É lindo, mas traduzir é difícil.”

E como se rejuvenesce a emoção, que é um dos seus apelos?

Todos os dias criticando cada ideia perturbadora no exato momento em que ela aparece.

Por exemplo?

Um jovem pensa que ninguém gosta dele ou uma jovem que, diante do espelho, não se ache bonita. Ela, quando olha no espelho, pune-se. Aí tem um biógrafo no cérebro humano, que é algo da minha área de investigação, que é o chamado fenómeno RAM – registo automático de memória. Ao fazer isso, a jovem arquiva uma janela killer ou traumática. Aquela janela vai ser acessada de cada vez que a jovem se olhar no espelho, vai ver o defeito que arquivou na vez anterior. De cada vez que ela reproduzir a experiência de angústia ou ansiedade, o biógrafo inconsciente vai arquivá-la. O fenómeno RAM aumenta, assim, o núcleo traumático. Perante isto, é muito importante que se faça a higiene mental, crianças, adolescentes e adultos. Todos os leitores tomam banho, mas quantos fazem a higiene emocional?

Refere-se a quê? À meditação, ao mindfulness de que se tem falado?

É mais do que isso, essas técnicas de relaxamento acabam por ser muito superficiais. O que proponho é se interiorizar e fazer a técnica do DCD: duvidar, criticar e determinar. No silêncio mental, duvidar de cada pensamento perturbador.

Como aplica isso no seu dia-a-dia?

Por exemplo, quando produzo uma preocupação intensa e atroz, eu duvido do controlo dela, eu critico essa ideia perturbadora e decido não ser escravo dessa preocupação. Isto é fazer a higiene mental. Eu uso o meu biógrafo para registar janelas light, saudáveis. É muito mais do que o mindfulness, que visa desacelerar o pensamento e relaxar. Vamos falar da ditadura da beleza: cerca de mil milhões de mulheres, quando estão diante do seu maior inimigo, o espelho, veem um defeito. E aquilo produz uma angústia enorme, baixa autoestima e sofrimento. Ao estarem diante do espelho, têm de fazer a técnica do DCD. Na hora em que veem o defeito, seja o tamanho do nariz ou o busto, ao invés de sofrer, porque abre uma janela killer, reeditam a janela killer – é impossível apagar os traumas, só dá para reeditar. Aí duvidam do defeito, criticam a ideia perturbadora que as angustia e determinam passar a entender que beleza está nos olhos de quem vê.

E isso funciona, reduz o sofrimento?

Se o fizer com emoção, todos os dias, o eu torna-se protagonista. Caso contrário, cada vez que olha no espelho e vê um defeito, vai-se diminuir, apequenar, e isso asfixia a saúde mental. Há 70 milhões de pessoas com anorexia e bulimia no mundo, um número tão grande como aqueles que foram destruídos na ii Grande Guerra. É um número enorme. Aqui deve ter 3% da população, é essa a média: 300 mil pessoas que sofrem de transtornos alimentares. Se o eu não se torna autor da própria historia, vai acumulando janelas killer ou traumáticas e vai desertificando a alegria, o prazer, o encanto, a ousadia.

Como é que os seus colegas psiquiatras o encaram? Estamos habituados a um discurso mais fechado…

A prática é simples, mas o pano de fundo é complexo. Estou a falar do processo de construção de pensamentos. Freud, Piaget, Schopenhauer, Kant, Hegel, Agostinho, Nietzsche ou Sartre foram brilhantes teóricos, usaram o pensamento para construir as suas teorias, mas não estudaram o próprio pensamento, os tipos de pensamento, a natureza dos pensamentos, o seu processo e gestão. Esta última fronteira do pensamento não foi estudada. Se nós não tivéssemos estudado a célula, que é a fronteira mais importante da biologia, não teríamos produzido nem antibióticos nem vacinas – e a humanidade nunca chegaria a 7 mil milhões de habitantes, porque nunca passou dos 700 a 800 milhões até o séc. XIX. Agora, não estudámos a unidade mais importante das ciências humanas, que é o pensamento, e não produzimos vacinas para a prevenção de transtornos emocionais.

Mas já se percebe o suficiente o cérebro para ir por aí?

Por exemplo, António Damásio tem falado da necessidade da emoção. Eu falo da necessidade de gestão da emoção, que é algo mais complexo que inteligência emocional. Até um psicopata tem inteligência emocional; pode não a ter desenvolvido, mas tem. A gestão da emoção é a aplicação de ferramentas para que o ser humano se torne autor da própria história. Metaforicamente, é como se a inteligência emocional fosse uma montanha. O que propomos é você implodir a montanha: penetra nas pedras, constrói os blocos e forma os edifícios. E quais são? Pensar antes de agir, colocar-se no lugar do outro, proteger a emoção, gerir a ansiedade, reeditar janelas killer e assim por diante.

Mas como se cruza o seu trabalho com os estudos das neurociências?

Hoje, as neurociências estão a descobrir a necessidade vital de habilidades sócio–emocionais, só que estão atrasadas demais. Uma em cada duas pessoas tem ou vai desenvolver um transtorno psiquiátrico. Na era do digital, as pessoas estão a adoecer rápida e coletivamente. Hoje esperamos as pessoas adoecerem de depressão, síndrome do pânico, transtorno obsessivo e compulsivo ou transtornos alimentares para depois tratar. Isto é injusto. Se eu faço a técnica do DCD…

Previne?

Sim. O suicídio virou uma epidemia em todo o mundo: a cada 40 segundos, uma pessoa tira a vida a si própria e, a cada quatro segundos, uma pessoa tenta o suicídio. Mas nenhuma delas quer morrer. O eu não quer matar a vida. O eu, que representa capacidade de escolha e consciência crítica, quer matar a dor, o autoabandono, o sentimento de culpa, a baixa autoestima. Quando você estimula o eu a entender que não quer matar a vida mas a dor, a pessoa relaxa. Começa a ser protagonista aplicando o princípio da sabedoria na filosofia, que é a arte da dúvida, o princípio da sabedoria na psicologia, que é a arte da crítica, e o princípio da sabedoria na área de recursos humanos, que é a determinação estratégica – enfim, a técnica do DCD. E quando o eu começa a impugnar cada pensamento perturbador, a perceber a teoria das janelas de memória, a perceber como pode ser sequestrado de dentro para fora e as causas disso, vai reorganizando o solo do consciente, e isto é incrível.

Dizem-lhe isso?

Fui ontem ao El Corte Inglés. A minha filha estava numa loja a comprar uma bolsa e a gerente pergunta-lhe: “Cury? É parente do Augusto Cury?” Quando eu cheguei, deu-me um abraço e falou: “Eu recebo celebridades direto aqui, nunca peço uma foto, mas quero pedir para você, deu-me mais saúde emocional.”

Recebe muitas cartas de leitores?

Muitas, de vários países, pessoas que aprenderam a gerir emoções, a gerir a ansiedade. Livros não tratam doenças, quem trata doenças são psiquiatras e psicólogos.

Mas existe um certo culto em torno de gurus de autoajuda. Revê-se nisso?

Eu detesto a palavra guru: quem precisa de guru não é autor da própria história. E detesto também a expressão autoajuda, porque os meus livros são de aplicação psicológica, ensinam a pessoa a reeditar janelas e a proteger emoção. E o que é isso de proteger emoção. Tem seguro de carro? Tem. Tem seguro de emoção? Nas conferências que vou dar agora nos Estados Unidos vou perguntar isso às pessoas: hoje em dia, até há seguros para andar na calçada, mas nunca ninguém levantou a mão a dizer que tem seguro emocional.

O que é o seguro emocional?

Número 1: doar-se, sem medo, sem expectativa de retorno. A maioria dos pais doam-se e esperam demais dos filhos, como os executivos esperam dos colaboradores, como os professores dos alunos, e os casais entre si. Quem espera retorno demais acaba por viver o autoabandono. Porque quem cobra demais o reconhecimento é porque não dá reconhecimento para si mesmo. Número 2: entender que, por detrás de uma pessoa que fere, há uma pessoa ferida. Isto é um seguro emocional tremendo. Se alguém te ferir, saiba primeiramente que ele ou ela foi ferido na vida. Isto não resolve o problema do agressor, mas aumenta o limiar de frustração para o agredido, e isso faz toda a diferença na prevenção de transtornos emocionais. Número três: não pode ser um agiota da emoção. Falo muito nisto neste novo livro, “O Homem Mais Inteligente da História”, que já é o livro mais lido no meu país.

Diz que é o livro mais importante da sua carreira. Porquê?

Porque foi o que exigiu mais complexidade, mais seriedade. Um livro do maior risco: imagine o que é falar da mente de Jesus para milhões de pessoas que são religiosos, alguns radicais, e que nunca se atreveram a analisar a mente de Jesus. É uma ousadia.

Quanto tempo levou a fazer este trabalho?

Dez a 15 anos. Se fosse na época da Inquisição, acha que eu estaria vivo?

Já teve alguma reação da Igreja?          

Eles estão amando, os padres, os teólogos. Estão vendo, por exemplo, Maria e a formação da personalidade de Jesus numa noutra perspetiva, até porque o tema da mente é importante para os religiosos. O índice de suicídio entre padres, pastores e líderes religiosos é alto: doam–se muito aos outros, mas esquecem-se de si mesmos. Por isso, também eles têm de usar as ferramentas de gestão de emoção, e que foram ferramentas que Jesus usou. Ele era um superdotado emocionalmente.

O que o surpreendeu mais nesta análise?

Ele escolheu uma estirpe de jovens completamente despreparados para a vida que só lhe davam dores de cabeça. Outra frase: um grande mestre investe tudo o que tem naqueles que pouco têm. Escolheu jovens completamente fora da curva. Pedro era hiperativo, tenso e ansioso. Se fosse um aluno nos dias de hoje, nenhum professor queria tê-lo na sala de aula. João tinha uma personalidade com um viés bipolar, alternava muito. Num momento era sereno e afetuoso e, no outro, queria eliminar quem não andava com o mestre. Tomé era paranoico, Mateus era corrupto e Judas Iscariotes não era transparente. Enfim, essa estirpe de jovens devia ser eliminada, e não integrada. Mas o maior artesão da emoção, Jesus, não apenas investiu tudo o que tinha neles como se fez extremamente pequeno para os tornar grandes e ensinou-os a fazer a mais importante viagem, para dentro de si mesmos.

Como fez este trabalho, foi só lendo a Bíblia?

Folheando várias versões e biografias de Jesus e analisando-o sob os ângulos de gestão da emoção. Sou autor do primeiro programa mundial de gestão de emoção, o programa Escola da Inteligência, e usei os parâmetros que estudamos para o analisar.

Escreveu agora sobre Jesus, mas  diz que foi o maior ateu a pisar a Terra.

Fui, talvez mais do que Nietzsche e Marx. Nietzsche não era um ateu, era um antirreligioso. Ele escreve uma poesia muito bonita em que fala ao Deus desconhecido. Marx também era um antirreligioso. Diderot era mais feroz, queria que o último religioso fosse asfixiado nas próprias vísceras. Freud achava que a busca por Deus era a busca por um pai protetor. Como pesquiso sobre o processo de formação do pensamento, para mim, Deus era fruto de um cérebro apaixonado pela vida que resistia ao seu caos na solidão do seu túmulo. Depois de estudar a mente de Jesus, fiquei perplexo: percebi que não cabe no imaginário humano. Percebi que este homem é muito mais inteligente do que as religiões imaginaram, é muito mais lúcido do que aquilo que a psiquiatria e a psicologia sonharam.

Mas a sua conversão surge aí?

Eu não me converti a uma religião, tornei-me um cristão sem fronteiras. Não defendo uma religião, mas acredito em Deus, tornei-me um cristão. Admiro quem tem uma religião, tenho muitos amigos padres, freiras, líderes de diferentes religiões, e o que lhes peço é que se respeitem uns outros. Ninguém é digno da maturidade se não aceitar outros que contrariem as suas ideias. Gostou da frase? (risos)

Como é a sua vida no meio disto tudo, é casado?

Sou casado. Tenho quatro mulheres na minha vida, a minha esposa e três filhas. Sou casado há mais de 30 anos e elas são moças apaixonadas pelo pai.

E estão sempre a chateá-lo: “Lá vem o pai com mais uma frase…”

Lá em casa tenho quatro chefes, as mulheres são mais inteligentes, altruístas e solidárias que os homens. Lá em casa, a vida é gostosa, tudo espontâneo. Não sou psiquiatra em casa, não sou escritor, sou um ser humano em construção.

O que fazem as suas filhas?

Duas são psicólogas e trabalham no programa da Escola da Inteligência. Temos 250 mil alunos e muitos países estão interessados em aplicar o programa, inclusive Portugal. A outra é engenheira e também trabalha na empresa. Temos 150 colaboradores, tudo a produzir materiais de educação emocional.

E a sua mulher?

É médica, dermatologista. Ela cuida de fora e eu cuido de dentro. Temos uma confiança maravilhosa, hoje em dia é raro uma casamento de 30 anos, não é?

E o que aprendeu sobre o amor?

Muita coisa. A primeira é que ninguém muda ninguém. Temos o poder de piorar os outros, e não de mudá-los. Já tentou mudar alguma pessoa teimosa? Se tentou, você piorou. E quais são as estratégias para mudar os outros que geram janelas killer? Número 1: elevar o tom de voz. Quem eleva o tom de voz já perdeu quem ama. Os pais e os casais perdem-se muitas vezes assim, acionam-se janelas traumáticas. Número 2: criticar excessivamente. Quem critica excessivamente traumatiza de tal forma que os filhos, os colaboradores na empresa perdem a espontaneidade, a capacidade de libertar o imaginário para a criatividade. Número 3: repetir as mesmas coisas. É incrível, no mundo todo, a forma como pais, professores, casais são repetitivos. Como digo nos meus livros, quem diz duas vezes a mesma coisa é um pouco chato. Quem repete três vezes é medianamente chato. Quem repete quatro vezes ou mais é entediante e insuportável. E a maioria dos casais são entediantes: sabem que não mudam o outro e começam a pressionar, a repetir-se, sem saber que isso fecha o circuito da memória e vicia como droga. O pai abre a boca e o filho sabe tudo o que vem pela frente. O marido abre a boca e a esposa sabe tudo o que vem pela frente.

Sendo tão frequente, não fará parte da natureza das relações?

Da natureza doente, e não saudável. Ao invés de tentar mudar o outro, devemos dar risada das picuinhices. Fica muito mais barato aceitar o parceiro como ele é do que querer ser um neurocirurgião que opera o cérebro. Podemos ajudar o outro? Claro, sendo simpáticos, sendo carismáticos, aplaudindo os acertos, elogiar duas ou três vezes por dia, inspirar os sonhos e sendo empáticos. Os simpáticos são medalha de bronze na construção de relações saudáveis, os carismáticos são medalha de prata e os empáticos são medalha de ouro. Quer um exemplo? Quando vê o filho que mais uma vez dececionou ou o aluno que mais uma vez teve um comportamento inadequado, o educador devia olhar para ele e dizer: “Você não é só mais um número nesta casa ou nesta sala de aula, você é insubstituível, tenho o prazer de ser teu pai ou professor, agora pense no seu comportamento.”

Diz-se que isso é “psicologia invertida”. Funciona mesmo?

Se funciona? É uma revolução. Quando você usa o eu como autor da sua própria história e gestor da emoção, elogiando quem erra e estimulando a arte de pensar a consciência critica, produz janela light, inesquecível, pouco a pouco você forma mentes brilhantes numa sociedade stressante. Não é rápido como uma cirurgia, é um processo lento, mas pouco a pouco funciona.

E isso é que é pôr a razão à frente do instinto, como defende nos seus livros?

Isso é tornar o Homo sapiens pensador, e não um Homo bios instintivo.

Mas então o instinto é como lhe perguntava há pouco, repetir, mandar abaixo…

Por isso, o objetivo da gestão emocional é romper o cárcere de mecanismos viciantes como repetir falhas e apontar erros. Porque repare, vamos falar sobre o cérebro primitivo. Um africano na savana, diante de uma fera, detona o gatilho, o copiloto inconsciente abre uma janela killer que lhe diz que vai morrer engolido por essa fera. A âncora se instala, o volume de tensão é tão grande que milhares de janelas não são acessadas e o Homo sapiens torna-se instintivo: não interessa pensar, é enfrentar a fera ou fugir. Mesmos mecanismos entre um marido e uma mulher: quando ele ou ela dececiona, detona o gatilho, abre uma janela killer, a âncora se fecha e ele ou ela torna-se um Homo bios instintivo, ele tem ela como sua predadora e vai atacá-la: ou vai se tornar vítima ou predador.

Portanto, isto era aceitável quando vivíamos na selva?

Exatamente. Enquanto vivíamos na savana e na floresta, estes mecanismos nos ajudavam diante de uma serpente ou de um leão, mas na selva de pedra nós não podemos transformar os nossos filhos em predadores ou em presa, ou o nosso marido ou mulher ou os nossos trabalhadores. Mas inconscientemente continuamos a acionar esses mecanismos.

A natureza leva tempo a adaptar-se…

Leva, mas o problema está nesta educação cartesiana, que tem de ser emocional. Tem de haver gestão de emoções nos currículos. É preciso ensinar às crianças, da infantil à universidade, a serem autoras da sua própria história.
Quando publicou o seu primeiro livro em 1999, imaginava este sucesso?
Sempre quis contribuir para a humanidade, mas ter dezenas de milhões de leitores foi muito além dos meus sonhos.

Telefonam-lhe a pedir frases para discursos e apresentações?

Em todos os locais onde vou, as pessoas literalmente me pescam. Querem que eu escreva um prefácio ou uma frase. Eu tenho prazer de ajudar as pessoas, mas a criatividade nasce na terra da solidão. Claro, a solidão intensa é abortiva, mas a branda é criativa.

Escreve sozinho?

Sim, é o momento mais criativo, muitas vezes à noite ou de madrugada. Eu escrevi 50 livros e tenho 3 mil páginas da teoria da inteligência multifocal. Os livros derivam dessa teoria. Quando estou sozinho, mergulho dentro de mim, mergulho na história dos pacientes que tratei em 20 mil sessões de psicoterapia e, a partir daí, elaboro as experiências. Mas como artesão das palavras escrevo e reescrevo até que tenha uma pérola que possa impactar as pessoas.

Disse-me que de cada livro saem umas cem pérolas que começam a circular, mais agora com as redes sociais.

Sim, em cada livro tenho pelo menos umas cem frases inéditas que as pessoas começam a usar na internet. Inclusive sites sobre os quais não tenho qualquer controlo começam a publicar frases de Augusto Cury. As pessoas esperam sair uma nova obra para poder garimpar as frases.

Tem uma frase preferida?

Tenho muitas. Para quem constrói pensamentos, cada pensamento é um filho. Não tem um filho mais bonito ou mais feio, cada filho tem sua característica. Assim como cada livro: cada livro tem coisas que gosto mais ou menos. São filhos que num determinado momento me deram muita alegria e noutros momentos deram preocupações.

Li que recebe 100 pedidos de palestras por mês, é verdade?

E atendo dois ou três. Demoro três ou quatro anos para aceitar um convite.

O que é que ninguém sabe sobre si?

Eu acho que me coloco muito nos livros. Sou só um ser humano que anda no traçado do tempo em busca de mim mesmo. O problema não é o que os outros não sabem de mim, mas o que eu não sei de mim mesmo. Aliás, cada resposta é o começo de uma nova pergunta. Temos de perceber que somos seres humanos em construção. Quando não há resposta tem de se colocar como aprendiz e perceber que mesmo a não resposta já é uma resposta.

Neste seu último livro publicado em Portugal diz que o Sermão da Montanha, em que Jesus ensina as bem-aventuranças aos discípulos, é o tratado de felicidade mais fascinante. O que o toca mais?

Felizes são aqueles que se esvaziam de si mesmo. Temos de nos esvaziar dos nossos preconceitos, ciúmes, da necessidade neurótica de ser o centro das atenções e da necessidade ansiosa de sermos perfeitos.

Fala também de uma sociedade de mendigos emocionais.

Sim, é um grande problema. Os pais que dão excesso de presentes estão gerando mendigos emocionais. Nos principais condomínios tem muitos mendigos desses, crianças que precisam de muitos produtos para ter pequenas migalhas de prazer. Os pais têm de falar daquilo que o dinheiro não pode comprar.

É o autor mais vendido do Brasil. Tendo origens modestas, ficou rico com os seus livros?

Rico não é aquele que tem dinheiro no banco, é o que faz muito com pouco. Eu já era um médico de sucesso, atendia pessoas de outros países, antes de me tornar escritor. Quando me tornei um escritor, bom… não tenho tanto tempo. Mas temos procurado dar para a sociedade, queremos estender o programa da Escola da Inteligência a crianças carenciadas e órfãs.

Tem 58 anos. Já começa a sentir alguma crise de meia-idade?

A vida é bela e breve como gotas de orvalho, é assombrosamente curta para se viver e dramaticamente longa para se errar. Todos os dias fico assombrado com a brevidade da existência, física e emocionalmente, e temos de ir sempre rejuvenescendo a nossa emoção, caso contrário tornamo-nos angustiados, tristes, deprimidos ou então augosos da nossa própria história. Os piores inimigos não estão fora de nós, somos nós mesmos.

A situação política no Brasil preocupa-o?

Bom, os líderes do Brasil têm uma necessidade neurótica de poder. Muitos deles não aprenderam minimamente a perceber que devem curvar-se pela sociedade, e não usar a sociedade para serem servidos. São pessoas indignas de poder. Mas, a 99% dos líderes, o poder os infeta e piora.

Como se sai desta crise?

Educação, educação, educação. Tendo pessoas apaixonadas pela sociedade e que percebem que a vida só tem sentido quando faço o outro feliz.

Há um verso que algumas pessoas atribuem a Fernando Pessoa, o que tem sido desmentido, outros dizem que é sua. “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.” Diz-lhe alguma coisa?

Eu me lembro de algo nesse sentido, mas não exatamente assim. Sei que várias frases minhas têm sido atribuídas a Fernando Pessoa. Um dia estava a dar uma conferência na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e havia um texto citado como sendo de Fernando Pessoa. Era meu. E vejo isso muitas vezes na internet: “Olhe o que o Papa Francisco diz, coisa mais linda, ser feliz não é ter uma vida perfeita, mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para lapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.”

Foi o Augusto que escreveu?

Sim. Porventura, o organizador dos discursos do Papa pode usar frases minhas. Mas fico feliz que as pessoas reproduzam na internet e nos discursos as minhas frases. Dou poucas entrevistas porque, para mim, o culto da celebridade é um sintoma de uma sociedade doente. Eu sou apenas um ser humano em construção que anda no traçado do tempo em busca de si mesmo, e de domesticar os seus fantasmas mentais e dar ferramentas para que as pessoas também o façam e dirijam o seu próprio script.  
Entrevista de Marta F. Reis, publicada no nosso parceiro Jornal SOL
Fotografia de João Biscaia

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