Até um rufia com complexo de Peter Pan merece ser feliz

12 OUTUBRO, 2016 -

Se a forma como o futebol mexe com a cabeça dos humanos fosse um caso de estudo, muito provavelmente as conclusões ficariam por escrever. As variáveis do que muitos dizem ser uma ciência parecem intermináveis e acrescentam constantemente novos dados que se embrulham com todos os outros num novelo que parece impossível de desfazer, mesmo quando se ganha. No meio desse caos, os casos como o de Balotelli são difíceis de entender, como difícil é entender a empatia que alguns de nós acabam por criar com eles. É que esta coisa dos artistas, da bola e os outros, é tudo menos racional. Acho que foi por isso que comecei a gostar de Basquiat. É que o Jean-Michel podia ser mas não era só um puto rebelde. Era a tal “criança radiante”, inocente, com toda a irracionalidade que isso traz por consequência. O estilo que incutiu na sua interpretação do Neo Expressionismo que via os alemães fazer é bem mais que o traço cru e primário que rapidamente associamos às capacidades de uma criança. Será mais a forma como alguém (não) pensa em expressar-se. Uma forma despreocupada, meio violenta, descuidada, mas não menos hábil ou talentosa. Mais ou menos como a criança que faz o que lhe apetece sem tentar agradar aos que o rodeiam. E isso é bom. Se o Jean-Michel queria pintar às 4 da manhã enquanto a Madonna dormia, ele pintava. Pintava todo nu ou com um fato da Armani que podia ainda não ter estreado. E se tivesse uma exposição para inaugurar no dia seguinte, vestia o fato todo borrado de tinta e lá ia posar ao lado dos que na hora do sucesso o seguiam para todo o lado. O artista era ele, o resto do mundo era secundário. O talento que transbordava ainda hoje inspira novos artistas, mesmo que tudo o resto tenha ficado longe de consagrá-lo como um bom exemplo aos olhos da maioria.

Nisto do futebol, os artistas carregados de talento e infantilidade também marcam e inspiram muita gente mas raramente são vistos como grandes exemplos. Porque são irregulares, porque não são jogadores de equipa, porque tacticamente são rebeldes ou simplesmente porque não saem do treino para se juntar à mulher e aos filhos em casa. Mas eles não querem saber. Não encaixam em modelos sociais e há sempre quem diga que, por nunca atingirem todo o seu potencial, são um desperdício de talento. Não consigo concordar. Prefiro acreditar que a história tem sempre um lugar para os que mostram talento e potencial para fazer as coisas bem, mesmo que à sua maneira. Porque o talento que dizem que desperdiçam é só deles. Não foram mais porque não quiseram, mas não fizeram mal a ninguém. E isso é mais que suficiente para merecerem ser felizes.

Texto de Miguel Mestre, impulsionado pelo artigo de Luís Mateus, para o Maisfutebol, com o mesmo título.

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