‘As You Were’ é um disco bem conseguido por Liam Gallagher, talvez o melhor desde o fim dos Oasis

22 OUTUBRO, 2017 -

Desde 2009 que os Oasis não existem, mas isso não parou nenhum dos irmãos Gallagher de criar e lançar música. Enquanto que, para Noel Gallagher e os seus “High Flying Birds”, esta transformação correu bem, o mesmo não se pode dizer da banda formada por Liam e os restantes membros dos Oasis após o fim da banda, Beady Eye. Com críticas pouco favoráveis ao seu trabalho, e, acima de tudo, pouco sucesso comercial, a banda acabou por terminar sem grande furor em 2014, fazendo com que Liam desaparecesse do mapa.

Fast forward a 2016, e com a promoção do documentário “Supersonic”, surgiram os primeiros rumores de um possível álbum a solo de LG. Inicialmente desmentidos, foram eventualmente confirmados, e, apesar da longa demora entre o anúncio e o primeiro single, de seu nome “Wall of Glass”, finalmente temos o produto final. Terá conseguido ‘Rkid’ recuperar a sua imagem? O título do mesmo, “As You Were“, deixa a entender que sim, que é algo que pretende recuperar a fama e a imagem de Liam Gallagher. Passemos a analisar o caso mais detalhadamente, com uma passagem por todas as quinze músicas que fazem parte do álbum (doze caso só ouçam a Standard Edition).

“As You Were” abre com o primeiro single desta viagem a solo, “Wall of Glass”, que é uma melodia bastante catchy, embora saiba a pouco ao fim de algumas audições, pois nota-se, claramente, a falta de um grande chorus, que faz com que a música toda acabe a ser um loop da mesma melodia. Porém, num mundo em que importa deixar ficar um som que seja memorável para ser comercial, e precisando Liam Gallagher disso para voltar à ribalta, foi algo de necessário uso. Isto talvez seja consequência da utilização de Greg Kurstin na ajuda da construção desta música em particular, artista aconhecido por trabalhar com artistas, como Adele, entre outros.

Bold” e “Greedy Soul” seguem-se, e entramos em território completamente do Liam, pois foram escritas a 100% por ele mesmo, que demonstram que, apesar de nunca ter tido a qualidade nessa arte que Noel tem, em certas situações, com os guias corretos, consegue criar boas músicas. “Bold” é mesmo um dos highlights do álbum, crescendo de uma forma absolutamente incrível, e ficando no ouvido desde a primeira vez que se ouve. “Greedy Soul” foge muito ao que foi visto em concertos até agora. Esperávamos uma canção mais rock, e temos algo a tender mais para o Pop, perdendo a canção alguma vida por consequência, mas continuando a ser uma boa audição. “Paper Crown” aparece em seguida, e é uma balada bastante gira, com a voz de Liam novamente a fazer com que a música ganhe outro nível.

For What It’s Worth” é, provavelmente, dos sons mais próximos de Oasis que vamos encontrar neste álbum. Talvez uma tentativa de fazer uma “Stop Crying Your Heart Out” ou “Don’t Look Back In Anger” para a sua carreira a solo, embora não conseguindo chegar à genialidade de ambas. É outra das tracks criadas por escritores externos, e, ao ouvirmos a letra, ficamos muitas vezes a pensar que “o Liam nunca escreveria nada assim”.  Não deixa de ser verdade, pois parece algo que nunca o imaginamos ver a cantar, mas estamos em 2017, e já o ouvimos cantar a “Don’t Look Back In Anger”. Fica na retina (ou no ouvido), no entanto, embora seja uma apology song algo forçada, e muito fora do carácter de Liam.

When I’m In Need“, “I Get By” e “You Better Run” seguem-se. A primeira é outro dos highlights do álbum e, para grande choque, Liam toca guitarra no início da mesma, tendo, em toda a sua duração, uma batida bastante aquecedora, com um enorme take vocal, que só dá ainda mais vida à música. Porém, seguem-se duas das tracks menos fortes do álbum, que são as únicas real rockers, mas que roçam muito o genérico. O que se poderia encontrar em Beady Eye vem muito à tona nestas duas faixas. Apesar disso, pelo facto da voz de Liam estar bastante melhor agora do que estava em 2013, as mesmas conseguem escapar a serem skips na audição do álbum, e são uma boa mudança de ritmo.

Entrando agora na parte final da “Standard Edition”, a que, possivelmente, mais pessoas irão comprar, temos quatro músicas; “Chinatown“, “Come Back To Me“, “Universal Gleam” e “I’ve All I Need“. A primeira foi uma das lançadas antes da comercialização do álbum, e, apesar de ser muito básica em termos líricos, tem, possivelmente, das melodias mais evoluídas e dinâmicas de toda a composição, e é sempre uma boa audição, embora frases como “What’s an European?” cheguem ao ponto de nos fazer rir.

As restantes constituem são um belo trio. “Come Back To Me” devia ter sido um single, pois tem uma combinação de som dos 90´s com um toque moderno, e tinha sido um boost na promoção do álbum, enquanto que “Universal Gleam” parece uma versão da “Tender“, da banda arqui-inimiga dos Oasis, Blur, por parte de um Gallagher, o que não deixa de ser irónico. “I’ve All I Need” é outra surpresa vinda de Liam, que cresce como poucas músicas que este cria, e tem um final incrivelmente fenomenal.

Das músicas incluídas na Deluxe Edition, destaca-se, sem dúvida, “It Doesn’t Have To Be That Way“. É uma sonoridade que nunca esperamos ouvir de um Gallagher. É como se os Tame Impala tivessem entrado no estúdio naquele momento, e ajudado Liam a criar aquela canção. Algo que soa mesmo ao ano de 2017, e que devia estar na edição normal do álbum, pois é, sem dúvida, um dos pontos altos. A sua ausência do álbum principal é uma má escolha, ao nível da omissão de “Let’s All Make Believe” do álbum dos Oasis “Standing On The Shoulder Of Giants“, em 2000.

Em suma, apesar de por vezes algumas músicas quebrarem a sequência de músicas de qualidade indiscutível, As You Were é bastante mais bem conseguido que qualquer um dos trabalhos dos Beady Eye, e, possivelmente, é o melhor trabalho lançado por um Gallagher desde o fim dos Oasis, a par claro, do “Chasing Yesterday“, lançado por Noel, em 2015.  As You Were indeed, Rkid.

Crítica escrita por: Pedro Monteiro

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