As últimas palavras de Bukowski: ‘Don’t try’

4 AGOSTO, 2017 -

Não é segredo que sou fã de Charles Bukowski e do seu contributo literário que marcou a segunda parte do século XX. Os seus romances, contos e poesia marcaram uma geração. O seu estilo de realismo influenciou autores como Raymond Carver (“That’s all we have, finally, the words, and they had better be the right ones”) e Jayne Anne Philips (“Writing provides no guarantees. And writers who stay with writing do it for reasons that are larger than self.”) Embora a associação com Bukowski seja quase sempre negada por quem a poderia clamar, o estilo replicado de frases curtas, a escassa utilização de advérbios, a inexistência de metáforas ou a ausência de diálogos internos categorizam uma parte do movimento que Bukowski apadrinhou: o minimalismo literário, como subgénero ou género paralelo ao realismo sujo e honesto. A imagem criada através das palavras ganha significado não através de descrições longas e metáforas familiares, mas sim através de contexto e acção. Normalmente, as personagens neste género são párias sociais, desterrados e ostracizados pelos seus pares. Eles encaram uma pobreza geradora de um desespero interno, que é explorado pelo autor. Por outras palavras, Bukowski criou, não intencionalmente, um movimento com tudo aquilo que sempre repudiou: regras, estruturas, pilares fundamentais que definiram o género.

Bukowski escrevia sobre ele, a sua vida e existência “dura”. Nada mais. Ao descrever as suas próprias personagens, Bukowski é ainda mais duro: “Shit, my characters seldom evolve, they are too f-cked up. They can’t even type.”. Esta rudeza áspera é transversal a todo o seu trabalho.

Charles Bukowski nunca reflectiu acerca do seu legado como um todo, na influência que produziu, no género que fundou. Como muitos outros escritores, a sua descoberta não foi fácil. Aos 23 publica o seu primeiro conto “Aftermath of a Lengthy Rejection Slip” e aos 25 o segundo “20 Tanks from Kasseldown”. Seguem-se 10 dez anos em que não escreve. A este período, o autor refere-se como “ten-year drunk” que, post factum revelaram-se fulcrais para o trabalho que viria a desenvolver.

Mas o meu objectivo não é escrever sobre a biografia de Bukowski – outros já o fizeram melhor do que eu – mas falar de uma simples frase que o autor escolheu para adornar a sua sepultura até ao fim dos tempos: “Don’t try”

Não consigo fazer jus à importância que estas duas palavras tiveram em mim, enquanto aspirante jovem escritor, a desesperar internamente com o meu lugar no mundo. Foi como um interruptor, um fardo que desapareceu das minhas costas. Interpretei o “conselho” como se “não vem naturalmente, não vale a pena tentar”. O resultado? À semelhança de Bukowski, passei 6 anos sem escrever uma única palavra porque “Não tinha nada para dizer”. Não persegui paixões ou ambições porque “Don’t try”, “não tentes” livrou-me de tudo aquilo que julgava ser uma obrigação social. Se não vem naturalmente, se não me caía no colo, não era para mim, não me estava “destinado”. Olho para trás e reconheço a ingenuidade daquele rapaz que desesperadamente procurou uma resposta e encontrou-a num dos melhores autores do século XX. O que faltou, porém, foi maturidade para interpretar o significado, não como um mote para a apatia – aliada a debates internos existenciais, criados por ler e reler Kafka sem parar – mas sim, como Linda Bukowski, a viúva do poeta, explicou numa entrevista:

“Yeah, I get so many different ideas from people that don’t understand what that means. Well, “Don’t Try? Just be a slacker? lay back?” And I’m no! Don’t try, do. Because if you’re spending your time trying something, you’re not doing it…”DON’T TRY.”

É estranhamente parecida com a famosa frase do nosso Mestre Jedi preferido, “Do or do not. There is no try.” No entanto, não deixa de ser uma resposta difícil de dar. A subjectividade de cada um de nós entra em jogo quando disputamos ideias filosóficas, especialmente quando estão abertas a um grau tão variado de interpretação que nos leva a dizer: não há resposta certa. Para mim, o sentido que retirei daquelas palavras – na altura em que as li – ajudou-me. Alguns podem argumentar que desperdicei anos da minha vida à espera que as coisas acontecessem, a ver a vida a passar. De certo modo é verdade, mas foi uma escolha consciente e informada. Sinto, no âmago do meu ser, que foi a opção correcta para aquela parte da minha vida. Nesses anos em que “não tentei”, descobri-me a mim próprio, cresci e amadureci, mas também me acomodei. Não foi fácil sair do marasmo que erigi à minha volta. Por exemplo, nunca pensei que voltaria a escrever. Tinha – tenho – sonhos que considerava inatingíveis, mas que agora me guiam para um futuro mais certo e, finalmente, com um foco específico.

Don’t try” ainda é um dos meus lemas, mas mudei-lhe o significado. Não tento, faço. Sei que nada me vai cair no colo como dádiva divina. Não penso duas vezes sobre o que escrevo e as palavras fluem sem problema. Finalmente, não estou a tentar ser algo, estou a ser. O quê, não sei mas finalmente sou alguém com ambições e uma direcção vocacionada.

Talvez daqui a uns anos revisite a interpretação das últimas palavras de Bukowski. Para já, contento-me em saber que o significado que lhes dei guiou-me ao longo de uma década. O trabalho de continuar a desvendar o sentido e aplicá-lo à minha vida, esse, cabe-me a mim. Espero continuar a ter a maturidade suficiente para, no futuro, nunca me esquecer de que não há palavras talhadas em pedra.

Podes ler aqui mais textos de M.J. Cruz

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Há alguns anos, quando me encontrava num momento mais existencialista da minha vida - quem não os