As teorias e conceitos de Claude Lévi-Strauss

10 ABRIL, 2017 -

Claude Lévi-Strauss foi um nome importante naquilo que é a consolidação e a afirmação da antropologia no meio académico e literário. Entre várias perspetivas daquilo que é o ser humano no seu papel social, deu a conhecer, com análises laboratoriais e no terreno, aquilo que a formação cultural não fraturava nas estruturas mentais definidas. Foi durante um século inteiro que este francês viveu, e a grande maioria deste período contou com uma atitude proativa e copulativa àquilo que é o mundo e os seus intervenientes humanos, tanto a solo como em grupo.

Claude Lévi-Strauss nasceu no dia 28 de novembro de 1908, no seio de uma família de pintores franco-judeus a viver na Bélgica, falecendo a 30 de outubro de 2009, em Paris. O interesse pelo estudo da sociedade e da sua organização em povos veio durante a sua formação académica, levando-o a mesclar vários caminhos do saber, entre eles a filosofia e a sociologia. Porém, foram as várias as diferenças que derivaram do seu modus operandi investigativo, deslocando-se aos lugares onde as tribos viviam e viveram, e estudando-as com o interesse que o despertou até lá. Dos seus vários estudos, resultaram as conotadas obras “Les structures élémentaires de la parenté” (1949), e Mythologiques” (1969).

A família e a identidade no seio de uma cultura

Desta forma, o corpo das teorias do francês bebeu daquilo que o suíço Ferdinand de Saussure apresentou na sua linguística estrutural. Tudo começou em várias expedições que o próprio fez a países indígenas, cujas explorações investigativas e antropólogas permaneciam muito vazias. Assim, foi no estudo da família que Lévi-Strauss arrancou grande parte da sua visão, partindo da (oposição à) consideração de que o casal e os seus filhos são primários e todos os restantes relativos secundários. Desta forma, e em contrapartida à posição significante-significado defendida pelo suíço, o francês considerou que as famílias adquirem diferentes identidades, que dependem das relações estabelecidas dentro de si. Com isto, inventou a visão primária daquilo que é a antropologia, e deu primazia à relação entre as unidades, sem atender a qualquer tipo de hierarquia predefinida.

A seu ver, e estabelecendo variáveis para cada caso, a relação entre tio e sobrinho (A) está para a relação entre irmão e irmã (B) como a relação entre pai e filho (C) está para marido e mulher (D). Desta feita, se há conhecimento das primeiras três, é possível prever esta última; assim como, se se souber a relação do primeiro e do último casos, saber-se-á B e C. Esta metodologia, que faz parte da antropologia estrutural proposta pelo gaulês, é uma forma de simplificar a ampla gama de dados empíricos para outros generalizados, que possam expor de melhor forma as relações entre as diferentes unidades familiares e estabelecer algumas leis probabilísticas. Estas estruturas estão na base de todas as manifestações culturais organizadas e sustentadas por uma família, sendo que qualquer cultura as tem, por mais distintas entre as outras culturas que sejam.

Ainda dentro das culturas, também os mitos entram numa espécie de discurso próprio de cada cultura, havendo até pontos que ligam as diferentes histórias veiculadas por cada uma. Para ajudar a tipificar estas ideias, Lévi-Strauss apresentou o conceito de mitema como o elemento nuclear a partir do qual todos os mitos se formam e circulam dentro das diferentes culturas. A forma como esta desconstrução foi feita passou pela criação de frases nas quais se apresenta a relação entre o cariz do mito e a própria abordagem funcional do mesmo. O mitema permite unir aquelas que possuem apresentações do mito similares entre si, mesmo sendo criadas no seio de diferentes comunidades.

Aquando da suposta descoberta das relações entre mitemas, aquilo que de realmente se apercebeu foi da constituição de um mito por uma oposição justaposta, um pouco à imagem do dualismo apresentado pelo filósofo alemão Georg Friedrich Hegel. O gaulês estava crente que a mente funcionava de forma binária, opondo a uma ideia o seu reverso e, a partir deste confronto, a criação daquilo que é o mito. Neste caso, aquilo que é posto em diálogo é uma oposição viável com uma menos exequível, criando a ilusão de que a presença da primeira fortalece e dá integridade à existência do mito.

Teorias e conceitos gerais

O europeu apresentou várias definições e perspetivas inovadoras no sentido do estudo daquilo que é a humanidade agrupada e aculturalizada. A definição de cultura deste pensador é a de que esta é um sistema de comunicação simbólica, a ser estudada de forma minuciosa e crítica, tal e qual como os romances, os filmes e os próprios discursos políticos são analisados.

As suas tendências funcionalistas permitiam explicar com rigor a existência deste ou daquele ente, desempenhando ou não a função que lhes é comprometida, opondo-se à visão historicista, cujo fundamento parte da exploração da origem desses entes. De um ponto de vista antropólogo, o seu método investigativo olhou sempre para o coletivo, estudando o organismo a partir das suas partes constituintes. No entanto, e para abordar as culturas cujos níveis de literacia se aproximavam do nulo, foi necessário trabalho de campo, estando impedido de pegar em teorias sem bases empíricas e mais ou menos especulativas.

Na resposta à problemática da uniformidade dos tipos de hábitos e práticas de cada cultura, o francês indicou o fundamento desta nas necessidades de ordem social que todas partilham, apesar de se manifestarem de formas distintas. Opondo-se à visão individualista e desligada da estrutura científica, mostrou a inconsistência das justificações místicas ao apontar a superficialidade de mitos e boatos associados e rotulados em algumas culturas. No entanto, também apontou erros à funcionalidade organizacional, no sentido em que, não obstante as instituições serem as mesmas, as funções variam. Em algumas culturas tribais, estas são divididas em duas no modo comportamental e interpessoal, muito pelas diferenças que possuem e que não são descortinadas numa análise mais geral.

A história não está ligada ao homem, nem a qualquer objecto em particular. Consiste inteiramente no seu método; a experiência comprova que ele é indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer, humana ou não humana. Longe portanto de a pesquisa da inteligibilidade resultar na história como o seu ponto de chegada, é a história que serve de ponto de partida para toda a busca de inteligibilidade. Assim como se diz de certas carreiras, a história leva a tudo, mas contanto que se saia dela.

Claude Lévi-Strauss, in “La Pensée Sauvage (1962)

Os métodos

Muitos dos métodos assumidos e postos em prática por Lévi-Strauss passam pela linguística, que acima foi mencionada, para além da fonologia, da matemática, da cibernética e até da teoria do caos. Apesar da ampla gama de áreas envolvidas, importava apresentar análises reais e que, na sua simplicidade e pragmatismo, fossem suficientemente explanatórias do que está em estudo. Nesta procura de ser explanatório, os dados recolhidos em campo por parte do pensador eram organizados de forma escrupulosa, mesmo que fossem importados de outros investigadores. Tudo para comparar padrões e para atestar as estruturas funcionais que havia propondo, essencialmente no seio das culturas sul-americanas.

Por sua vez, na abordagem àquilo que é a composição familiar e as relações entre os membros constituintes, o francês notou alguns padrões que, apesar de serem tendências, não são constantes em todos os casos. Entre eles, está a proximidade da figura paternal e maternal que não trabalha e que cuida do(s) filho(s) com este(s). Não obstante estas repetições, que também podem ser inferidas pela idade e pela intimidade que esta pressupõe, não são predicados suficientes para se entender a estrutura como um todo. Neste sentido, até o seu pensamento é de cariz estrutural, e dão lugar a uma sociedade da casa, onde a unidade doméstica é a que orienta a formação de uma família, tanto a partir dos seus ascendentes como dos seus descendentes. Esta baseia-se, sobretudo, nas relações de parentesco, sendo influenciadas também pelas classes sociais onde se posicionam.

A explicação estruturalista leva o investigador a organizar os dados da forma mais simples e eficaz possível. A ciência torna-se, segundo o francês, ou estruturalista ou reducionista, se bem que as ciências sociais só podem operar com relevância a partir das estruturas do pensamento humano, onde os dados se dispõem logicamente. Este tipo de explicações, no entanto, pode ser colocado em teste e até ser refutado, alcançado a controvérsia até pela autoria do próprio Lévi-Strauss, em especial no estudo das sociedades e das culturas mais primitivas.

Neste tipo de estudos, o seu comportamento torna-se mais filosófico, abordando até as questões do mito e questionando outras escolas de pensamento e de análise social. Contudo, no seio destes contextos, os mitos incorporam aquilo que são as circunstâncias históricas vividas por cada um, e levam-nos a reformular-se, renovando a sua estrutura sociocultural. Com base nestes estudos, o gaulês associa a vida humana a duas linhas temporais, sendo uma a circunstancial e a outra aquela que é composta pelos padrões fundamentais dos mitos de cada comunidade. Porém, o seu trabalho procura esclarecer aquilo que estas têm no seu inconsciente coletivo, interessando-se pelo que são os aspetos formais dos mitos. No entanto, isso não o impediu de aflorar aquilo que lhe está subjacente, isto é, as suas estruturas de significado.

Uma visão estruturalista do mito

O francês, de início, deteta um paradoxo no estudo do mito, vendo as histórias que o constituem como fantásticas e imprevisíveis, mas muito próximas entre si, não obstante a diferença de culturas que está na sua base. Para o explicar, o antropólogo sugeriu a existência de leis universais no pensamento mítico, sendo cada mito uma partícula numa jurisdição que é posta em atividade pela arbitrariedade humana.

Definindo estruturalmente um mito, Lévi-Straus classifica-o como um grupo de elementos que se contradizem entre si, e de outros que acabam por mediar e resolver esses conflitos. Exemplificando com os “tricksters” – figuras humanas e/ou antropomórficas que costumam destacar-se pela rebeldia e por serem traiçoeiras – das tribos norte-americanas, o gaulês aponta que estes possuem sempre uma personalidade instável e pouco estável, e assumem sempre a figura de um corvo ou de um coiote. Estas figuras, no âmago desses mitos, funcionam como os gestores dessa oposição entre vida e morte, podendo esta associar-se à da agricultura – produção de vida – com a da caça – produção de morte, assim como o confronto entre os herbívoros (ligados à Natureza e aos verdes) e aos carnívoros (ligados à carne e à matéria). No fundo, existe sempre um elemento capaz de mediar as oposições relacionadas com a formulação e consolidação dos mitos.

Na união do corvo e do coiote, assiste-se a essa mediação da relação entre os instintos predadores e os herbívoros. O “trickster” surge, então, como a concentração de uma dualidade capaz de traduzir e de materializar a essência do mito, sendo esta respeitante a uma personalidade própria e, como o termo indica, “tricky”. Esta análise universal do francês ajudou-o, também, a estruturar o mundo e o pensamento humano como regidos por leis universais nas diversas áreas do saber e do pensar, tanto na mitologia como no resto. São essas leis que permitem que, na inspiração espontânea e na criação aparentemente irracional, existam padrões de composição similares entre as várias demonstrações resultantes destas. Isto acaba por se verificar na mitologia, como produto das diferentes culturas em que é gerada.

Os tipos de pensamento

Para conceber melhor as diferentes formas de pensamento humano, no sentido da sobrevivência e da própria vivência, o gaulês estabeleceu a comparação entre dois termos cunhados a partir do vocabulário francês. São estes “bricoleur”, derivado do verbo “bricoler”, que designa, hoje, uma posição autónoma na construção e reparação de objetos ou coisas, a partir das ferramentas à mão. Este conceito abarca também, por força das circunstâncias, uma versatilidade operativa, para além de potenciar objetos pré-existentes e de os modificar contextualmente, posicionando-os de novas formas, e adaptando o projeto em mãos aos materiais presentes.

Quanto ao “engineer”, perto daquilo que é a mente civilizada, é aquele que desenvolve o seu de início ao fim, preocupando-se com a angariação das ferramentas precisas para a construção daquilo que é idealizado e projetado. Enquanto que, no primeiro, presencia-se a uma aproximação da “savage mind” (estando no cerne da obra “La Pensée Sauvage“, de 1962), enquanto o “engineer” se aproxima da mente científica dos nossos dias. Outras diferenças são o universo fechado em que o “bricoleur” vive, estando obrigado a trabalhar com aquilo que tem à mão; enquanto o outro está disponível para criar ferramentas diferentes. Apesar disso, ambos estão remetidos numa realidade na qual existe um conhecimento teórico-prático que sustenta toda a atividade, não os levando para vias criativas demasiado denotadas.

Claude Lévi-Strauss apresentou, em grande parte das suas dez décadas de vida, um importante contributo para o estudo sociológico e antropológico. Desde os mitos até às formações comunitárias, é com minúcia e curiosidade que o francês apresenta a estrutura que as define e as concretiza, edificando-se através dos seus elementos constituintes. As suas investigações viajam até às tribos e às comunidades menos conhecidas, procurando comprovar certos padrões de ocorrência e de existência. No fundo, um expedito rumo para uma construção académica de valor, que permanece como preponderante no entendimento daquilo que define uma comunidade e, estando a esta subjacente, a própria cultura.

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