As reflexões em ‘Fragmentos’, de George Steiner

8 AGOSTO, 2016 -

Fragmentos, de George Steiner, é um conjunto de ensaios. Sob um pretexto algo estranho (e, quanto a mim, desnecessário), as reflexões derivam da leitura de um suposto pergaminho da Grécia Antiga, de origem desconhecida. O académico americano explora, em oito textos diferentes, temas como a amizade, o amor, a velhice, a religião, a música e o talento.

A tentativa de união dos mesmos feita através do tal pergaminho acaba por ser supérflua, por um lado porque a contextualização desse pergaminho não é particularmente bem-feita, não parecendo nunca algo melhor que uma desculpa para juntar os textos num só livro, por outro porque os textos conseguiriam sobreviver juntos numa coleção sem isso. É precisamente por os ensaios em si serem pertinentes e capazes de sobreviver sozinhos, que o pretexto do pergaminho acaba por soar tão desnecessário.

São particularmente interessantes os pontos que realça acerca da velhice e da morte, onde, decretando como única forma de liberdade das debilidades da velhice, quando as capacidades escasseiam e as doenças aumentam, o suicídio (nomeadamente através da eutanásia), Steiner põe a nu os seus próprios medos; também pertinente é a reflexão acerca da dualidade entre o amor e a amizade, afirmando o autor que, dadas as suas naturezas opostas, uma é “assassina” da outra, como quando o amor, momentâneo, se esgota e dá origem a uma relação de amizade, já depois de a paixão ter desaparecido.

Sempre muito referencial, demasiado até, Steiner aborda as questões num tom de pensador ancião, sendo provavelmente daí até, que se forma a sua ideia de envolver este conjunto de textos num contexto clássico, uma reflexão que, como as dos sábios gregos, insere o próprio nesta legião de pensadores do mundo. Nos outros textos, levantando pontos como o da música estar fundamentalmente associada a três diferentes mitos que a tornam envolta em violência e sangue, ou o de serem poucos aqueles que fazem avançar o mundo através do seu talento, com a grande maioria a ser apenas, nas palavras do autor, “ratos” (usando o estilo referencial do autor, posso acrescentar que provavelmente Tólstoi dele discordaria quanto a isto), o autor mostra-nos, acima de tudo, quais são as suas visões do mundo, sendo sobretudo isso que este livro nos trás, mais que qualquer valor estilístico ou prosaico.

Fragmentos, de George Steiner, está disponível em Portugal, editado pela Relógio D’Água.

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