As referências da vida e da obra de Bocage

16 SETEMBRO, 2017 -

Manuel Maria de Barbosa Du Bocage, setubalense de gema, é um dos grandes nomes da poesia portuguesa. Inspirado pela cultura antiga e com muitos traços da obra de Luís de Camões, o poeta teve uma vida atribulada que pode ser comparada às inúmeras convulsões sociais ocorridas no tempo em que viveu. Pontificando nos finais do século XVIII, e inícios do século XIX, o escritor é concebido como o elo de ligação entre o arcadismo iluminista e o romantismo, tão paradoxalmente reprimindo pelos “homens das luzes”, em Portugal.

Apesar de iniciar nos seus escritos com somente oito anos, Bocage fez parte da Marinha Real Portuguesa e moveu-se precocemente para a capital portuguesa, estreitando lá contactos com a literatura dominante então. Deixando-se encantar pelos grandes clássicos, o autor não se coibiu de estudar minuciosamente as métricas e as rimas inerentes às composições lidas. Na sua obra então, para além de uma estrutura cuidada e até racionalizada, notava-se uma espontaneidade temática longe de se encontrar associada às leis e regras que ditavam o funcionamento do mundo. Expunha, assim, que a escrita, especialmente a poesia, não se encontra nem nunca se encontrou limitada a certas abordagens e interpretações, tendo um caráter único e transcendental. No entanto, com tantas aventuras e desaventuras que se viriam a suceder no resto da sua vida, os seus poemas alteraram.

Com a emergência da Revolução Francesa e de uma maior flexibilização moral e cultural, Bocage estendeu o seu domínio de escrita e passou a gerar mais controvérsia pelo que redigia. Apesar de se deixar influenciar facilmente pelas circunstâncias das noites burlescas, o poeta nunca perdeu a sensibilidade idealista da qual dispunha, defendendo acerrimamente os valores em que acreditava. Esse traço da sua personalidade custou-lhe bastante sossego, acabando perseguido e encarcerado pela Inquisição por mais que uma ocasião. Após uma passagem por um hospício e por decididamente encarreirar a sua vida, Bocage viria a ser vítima de um aneurisma em plena fase de proficuidade profissional.

O setubalense corporiza o arcadismo na sua poesia quando recorre à mitologia, as referências à cultura greco-latina da Antiguidade Clássica e ao tom naturalista que toma nas suas expressões líricas. Já no campo do romantismo, Bocage divaga mais ao abordar temáticas como o dramatismo conjugal, as frequentes utopias, o platonismo do amor, etc. Num contexto de turbilhão cultural, é um tão boémio autor que consegue conciliar a passividade racional iluminista com a subjetividade intensa do romantismo.

Controverso, boémio e convicto, Manuel Maria du Barbosa Bocage deixou o seu cunho na cultura lusa pela diferenciação e pela produtiva vida literária que afortunadamente fruiu. Abordando tanto o já recorrente amor e discutindo as turbulências que protagonizavam aqueles tempos, o setubalense conseguia também satirizar e até “erotizar” as suas composições poéticas. Só com uma avultada bagagem intelectual e empírica é que algum homem pode dispor de um rácio quantidade-variedade-qualidade francamente positivo. Bocage, fiel a si mesmo, assim o conseguiu.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

“Autorretrato”

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