‘As Raparigas’, na sombra de Charles Manson

6 JUNHO, 2017 -

Charles Manson inscreveu-se na realidade e no imaginário norte-americano com o sangue das suas vítimas. Os assassinatos de Sharon Tate, grávida de oito meses, e seus amigos foram os mais impactantes e brutais. Mas antes outras vítimas foram feitas. Sem facadas nem tiros. A primeira destruição foi a da personalidade das pessoas que o rodeavam. A individualidade de cada um dos elementos foi aniquilada pelo grupo, viciado em drogas, e pelas ideias do líder.

Os principais elementos da “Família Manson” eram Charles “Tex” Waxton, Bobby Beausoleil, Paul Watkins, Clem Grogan, Bruce Davis e as raparigas Susan Atkins, Linda Kasabian, Patricia Krenwinkel, Leslie Van Houten, Ruth Ann Moorehouse, Lynette “Squeaky” Fromme e Mary Brunner.

As características destes membros fundamentaram a criação das personagens de “As Raparigas” (Porto Editora). É um livro de ficção com fortes ligações a um acontecimento hediondo e real. No entanto, Emma Cline (Califórnia, 1989)  não procura ser fidedigna aos factos. As variações introduzidas mostram o objectivo da autora em compreender as fundações de um problema.
A necessidade de pertença expõe o indivíduo à manipulação e subversão pelo poder. Neste caso, pelo carisma dos personagens Russell (baseado em Charles Manson)  e Suzanne (possível projecção de Susan Atkins).
A narradora Evie Boyd, agora adulta, recorda esses acontecimentos devido ao inesperado encontro com Julian, filho de um amigo, e da sua namorada Sasha. A curiosidade de Julian e a identificação com Sasha motivam-na a recordar a convivência com o gangue de Russell.

Os flashbacks até 1969, ano dos assassinatos, intercalam a narração das conversas com os dois e, posteriormente, com Zav (amigo de Julian e Sasha).
Em 1969, Evie tem catorze anos e sente-se insegura com o seu corpo, inadaptada com a sociedade e sem perspectivas de futuro.  Não tem apoio na sua mãe.
Destroçada pelo casamento falhado, a mãe também se sente perdida. Em consequência, não acompanha o crescimento da filha.
O aparecimento de Suzanne, descomprometida com as normas sociais, é a ignição que faz explodir a inquietação de Evie:

” [Suzanne] falou comigo num tom brusco, como se eu estivesse numa salgalhada igual à da bicicleta e precisasse de um bom arranjo”

A narradora é uma vítima desejosa de ser vítima. Como confessa mais tarde, os sinais de degradação estavam todos lá, mas ninguém os queria ver. Ela precisava e tinha vontade de amar tudo. As drogas, a liberdade e a bebida obscureciam os sinais de decadência tanto no comportamento dos membros da família como no rancho em que viviam. É um caso de dissonância cognitiva seguido da respectiva restauração. Evie não podia acreditar que algo estava mal A dissonância incomodava-a. Em consequência, reinterpretou as situações de forma a minimizar a discrepância entre interpretação e realidade. Só mais tarde, já na idade adulta, Evie consegue – como se vê no diálogo com Julian, Sasha e Zav- analisar os traços dos elementos mais importantes, do líder Russell e os seus próprios.


Os períodos de dissociação, despersonalização e negação da realidade aconteceram devido à necessidade de identificação com o agressor. Neste caso, agressora. Suzanne teve um impacto ainda mais forte do que Russell. Evie adaptou-se de forma a corresponder às expectativas de Suzanne, de Russell e do grupo. Criou um falso “self”. Este “continuum dissociativo” estendeu-se até aos massacres. A relação entre Evie e Suzanne sugere que tenha sido accionado um mecanismo de compensação entre uma pessoa introvertida (Evie, que confessa ter “ponto de referência limitado de homens” e uma só amiga) e pessoas extrovertidas como Suzanne e Russell, que pareciam não ter problemas que os limitassem. O sedentarismo e conservadorismo da sociedade em que Evie estava inserida era, segundo ela própria, desmascarada pelas ideias, aventuras e nomadismo do gangue de Russell. Evie acabou por se subjugar a Suzanne em troca de aceitação. Assim como Suzanne havia-se submetido ao líder Russell:

“Mais tarde, toda a gente acharia inacreditável que as pessoas ligas ao rancho tivessem aceitado permanecer naquela situação. Uma situação tão negativa. Mas Suzanne não tinha mais nada: entregara por completo a sua vida a Russell e, por essa altura, era como um objeto que ele podia manobrar com as suas mãos, virando-a e revirando-a vezes sem conta, avaliando o seu peso”

Russell sabia aproveitar as debilidades dos membros do seu grupo e implementar as suas filosofias. A sua personalidade egocêntrica viria a ser contrariada por um músico chamado Mitch.
Tal como na realidade, pois Manson viu as aspirações de gravar um disco contrariadas pelo seu amigo Dennis Wilson, membro dos Beach Boys.
A partir desse momento, o consumo de drogas aumentou e a alienação tornou-se mais aguda. Os “speeds” começaram a ser distribuídos com maior frequência. Os massacres vieram logo de seguida.
Os elementos do grupo habituaram-se a estímulos que os deveriam ter despertado. O alarme desligou-se devido a essa habituação. O leque de estímulos para reacções de fuga foi praticamente eliminado. O comportamento assimilou as situações de perigo como normais e deixou de reagir.

A relação com o medo, contextualizado pelo que a Psicologia chama de “Condicionamento Clássico”, foi redefinida por Russell. Retirando da equação o castigo, ou a penalização, o acto é de liberdade total. Não havia o condicionamento clássico imposto pela sociedade, que o grupo chamava de capitalista ou burguesa. Russell conseguiu condicionar o comportamento do grupo. Tudo o que faziam servia para lhe agradar. As múltiplas relações sexuais com as raparigas  eram sintoma de condicionamento instrumental. Os membros do gangue actuavam para merecer a aceitação/recompensa do seu líder, que era descrito como uma figura mística dotada de capacidades invulgares:

Donna disse que Russell era diferente de todos os outros seres humanos. Que era capaz de receber mensagens de animais. Que conseguia curar uma pessoa com as mãos, extrair todos os males que afectavam alguém de uma forma tão radical como um cirurgião extrai um tumor”

A capacidade de discurso de Russell influenciou a interpretação que o grupo tinha da sociedade. Ele aproveitou o incómodo existente em cada um. A linguagem foi o veículo transmissor dessa visão. Foi através do discurso que ele mudou radicalmente a interpretação da realidade. Ele era um profeta que iluminava o caminho. A partilha da percepção do grupo acrescentou factores de pressão sobre a individualidade. O “eu” quebrou perante esta “gestalt”. Junte-se as drogas. O grau de irrealidade foi exponencial até aos macabros massacres.

Os membros da “Família Manson” desenharam com sangue as palavras “Death to pigs” (morte aos porcos) e “Helter Skelter”, referência a uma música dos Beatles. Charles Manson referiu-se a “Helter Skelter” como uma guerra apocalíptica entre os brancos e os negros.  Em “As Raparigas”, a menção à guerra entre brancos e negros é inexistente. A questão racial não é abordada. Emma Cline resiste à tentação de contemplar demasiados assuntos no livro. O excesso de enredo iria afastar o leitor da análise das relações de poder entre manipulador e manipulado. As personagens de Emma Cline desenharam, a sangue, um coração. O massacre foi um acto de amor para com o líder do grupo. Russell manipulou as diferentes personalidades com o objectivo de serem as suas mãos armadas. Tal como Manson, Russell não matou ninguém; ele fez com que matassem. E é aqui que  Emma Cline concentra a sua atenção. Os mecanismos de poder são o principal interesse da autora.
A obediência sem espírito crítico resulta em perda de humanidade. É o que acontece com o gangue, devido ao carisma do seu líder. As vítimas do massacre foram desumanizadas. Em consequência, não houve sentimento de culpa pelos crimes. Eram objectos ou símbolos a serem eliminados. Não eram pessoas.
Evie chega a confessar que talvez tivesse tido o mesmo comportamento que os outros elementos do grupo. Não teve, mas não por escolha dela. Foi o grupo que a rejeitou. E, por isso, não teve papel activo no massacre. O seu grupo de referência, pelo qual regeu o seu comportamento, afastou-a. Ela foi obrigada a redefinir-se, novamente.

“As Raparigas” foi objecto de intensa disputa na Feira de Frankfurt. A Random House adquiriu os direitos por mais de dois milhões de dólares. Os direitos de tradução foram negociados para 25 países. Este primeiro livro de Emma Cline é editado, em Portugal, pela Porto Editora. É uma estreia portentosa de uma autora a seguir nos próximos anos.

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