As nossas escolhas literárias no “Dia Mundial do Livro”

23 ABRIL, 2016 -

Cícero escreveu que «Uma casa sem livros é como um corpo sem alma». Não necessitamos de recorrer à Lógica para testar a veracidade desta premissa. A alma de uma casa reside nos livros que esta alberga e nas inúmeras histórias e mundos que estes em si guardam. Hoje, Dia Mundial do Livro, decidimos reunir uma lista com alguns dos livros que nos marcaram, de uma forma ou de outra; sugestões de leitura e de deleite, mas sobretudo um imenso amor em plena essência.

Escolhas de João Horta:

«Loucura» – Mário de Sá-Carneiro

Uma história de amor e loucura. O livro leva-nos por dentro de Raúl, um turbilhão de sensações. O seu amor incondicional por Marcela… amor ou loucura? Nesta obra carregada de melancolia, Mário de Sá Carneiro prova que a barreira que divide o amor da loucura é, de facto, muito ténue.

«Na pele de uma Jihadista» –  Anna Erelle

Uma reportagem que virou livro. A jornalista francesa deixou-se envolver numa relação virtual com um perigoso jihadista residente na Síria. Em cada palavra de Anna Erelle é possível sentir-lhe os ritmos cardíacos, o medo, os receios e as hesitações. Uma recomendável leitura para os curiosos daquele que é o grupo terrorista mais perigoso do mundo.

«Portugal, Hoje – O Medo de Existir» – José Gil

O filósofo português faz uma análise crítica ao Portugal actual. A ocupação do espaço público através dos média, o Portugal mesquinho, a política, a religião e a “revolução” dos cravos. Estes são alguns dos temas abordados por José Gil, remetendo-nos para uma profunda reflexão sobre aquilo que é Portugal hoje.

Escolhas de Joana de Sousa:

«Poesia» – Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Sophia tudo é pureza. As palavras são corais no fundo das águas cristalinas do mar numa manhã de céu azul. O livro faz suma justiça ao seu título. Poesia… pura, singular. É com este livro que Sophia inicia esta viagem tão sua, tão única, pela poesia.

«Aparição» – Vergílio Ferreira

Uma reflexão existencialista de Vergílio Ferreira que nos leva numa procura da revelação de si a si mesmo. O livro é uma brilhante reflexão sobre a existência e invoca conceitos filosóficos como os de que a existência precede a essência do ser, numa exploração ontológica do ser na primeira pessoa.

«O Segundo Sexo» – Simone de Beauvoir

Uma suma reflexão de uma mente singular sobre o papel da Mulher na Sociedade. O pensamento existencialista de Simone de Beauvoir está aqui presente quando a autora defende que não nascemos Mulheres, mas antes, a vivência nos torna Mulheres, isto é, a nossa existência precede a nossa essência. Uma análise sublime de um Ser que se tornou essência revolucionária.

Escolha de Linda Formiga:

«Sangue do meu Sangue» – Michael Cunningham

A história é banal, três gerações de uma família com todos os dramas e frustrações inerentes. Mas o segundo romance de Michael Cunningham (autor de As Horas e distinguido com um prémio Pulitzer) é muito mais do que isso, é a nossa vida retratada de uma forma tão simples e tão honesta que nos prende desde o primeiro momento.

«Cem anos de Solidão» – Gabriel Garcia Marquez

A obra maior do escritor colombiano desaparecido em 2014, Cem anos de Solidão retrata também a história de várias gerações da família Buendía. São gerações de solitários marcadas por conflitos e tragédias, milagres e fantasias. Inserindo-se no estilo que alguns designam de realismo mágico, esta obra é uma das principais da literatura mundial e obrigatória, digo eu.

«O Cemitério de Raparigas» – Miguel Esteves Cardoso

Um livro de amor. De certa forma, também é um livro de solidão, ou melhor, é um livro de solidão e angústia com algumas intermitências para se falar de todos os tipos de amores, o amor obsessivo, o amor carnal, o amor platónico, o amor, apenas. É triste e é divertido, é amargo e cruel, como deverá ser, imaginamos nós, o quotidiano de alguém cuja mulher mata todas as namoradas que teve.

Escolhas de Miguel Fernandes Duarte:

«Os Irmãos Karamázov» – Fiódor Dostoiévski

Obra final do romancista Russo, publicada em 1880, é provavelmente a sua obra mais aclamada, ao lado de Crime e Castigo. A tentativa de descoberta de qual dos irmãos terá sido culpado pela morte do seu próprio pai, é pouco mais que o pano de fundo para o embate de três diferentes visões do mundo, personificadas por cada um dos três irmãos: Dmitri, o mais velho, mais emotivo e impulsivo; Ivan, racional e ateu; e Alyosha, noviço num mosteiro Ortodoxo. Ficará para sempre nas nossas mentes a fabulosa cena do “Grande Inquisidor”, na qual este diz a Cristo que a igreja não mais precisa dele, criticando-o pelo que fez, e a sua discussão posterior entre Ivan e Alyosha.
Conhecido pela extravagância das suas personagens, quer em diálogos, quer em actos, Dostoiévski alcança neste romance a essência do comportamento humano, o porquê das nossas acções e a influência que a nossa educação e o nosso sangue têm, ou não, naquilo que nos tornamos. Aquele que Freud apelidou como “o mais magnífico romance alguma vez escrito”

«Campânula de Vidro» – Sylvia Plath

Principalmente conhecida como poetisa, Sylvia Plath conta, neste The Bell Jar, a história de Esther Greenwood, uma rapariga que vai fazer um estágio de verão a uma revista de Nova Iorque. Não se sentido integrada e entusiasmada por essa vida e, com a ajuda de uma série de percalços, incluindo rejeições a programas de escrita, Esther começa a entrar em depressão, sendo o livro a narração dessa mesma descida, cada vez mais grave, cada vez mais negra, com tentativas de suicídio povoando o mesmo. Reminiscente da experiência de vida da própria Sylvia Plath, o livro é frequentemente tido como autobiográfico. A própria Plath, um mês depois da publicação do livro, suicida-se ao colocar a sua cabeça no forno da própria casa, enquanto os seus dois filhos brincavam noutra divisão.

«Cidade Aberta» – Teju Cole

Um jovem psiquiatra nigeriano, emigrado nos Estados Unidos da América, vagueia pelas ruas da cidade de Nova Iorque, primeiro, mas também pelas de Bruxelas e Lagos (a Nigeriana, não a portuguesa), enquanto reflecte sobre o espaço, físico e mental, que o rodeia, desde os pássaros que observa, à história dos locais onde se encontra e às pessoas que conhece pelo caminho. Teju Cole leva-nos, através de Julius, numa exploração das construções humanas: as físicas, como edifícios; as mentais, como as que usamos para interpretar o mundo; ou até as que misturam ambos os domínios, como a arte. As várias camadas sobrepõem-se num dos mais perfeitos e subtis exemplos de como a realidade daquilo que somos pode ser, afinal, uma ficção por nós construída e mantida.

Escolhas de Luke Brandão

«Laranja Mecânica» –  Anthony Burgess

Uma distopia celebrizada pela sua transposição para o grande ecrã. Um retrato impressionante e alternativo das profundezas do ser humano, neste caso do jovem Alex DeLarge. Uma autêntica viagem por um percurso irreverente e despojado de quaisquer preconceitos. A transparência e a intensidade transmitidas, para além do vocabulário preenchido com neologismos e com um discurso único, fazem desta obra uma indispensável companhia para algo diferente e até exigente.

«O Processo» – Franz Kafka

Uma obra que representa claramente tudo aquilo que carateriza a literatura do checo. O absurdo assume uma nova forma, desta feita representada pela rendilhada teia que carateriza o caminho judicial. O protagonista é vítima deste ciclo quase infindável e o processo acaba por sumarizar a sátira efetuada ao processo jurídico. Um livro que, não obstante ser escrito há décadas atrás, acaba por possibilitar um interessante paralelismo à nossa atualidade.

«O Ano da Morte de Ricardo Reis» – José Saramago

O prolongamento do relato da vida de um dos mais curiosos pseudónimos do saudoso autor Fernando Pessoa e que José Saramago trata de abordar. Célebre por ter sido o único a não ter sido morto pelo ortónimo, Ricardo Reis retorna do Brasil e retoma aos poucos o seu quotidiano na capital portuguesa. No meio de muitas aventuras e desventuras, destaca-se o estilo sui generis de Saramago que trabalha e que mergulha neste imaginário onde granjeia aproximá-lo da realidade. Imperdível obra em que se fundem dois dos maiores nomes da cultura portuguesa e que se assume como um património para a razão e para a alma.

Escolhas de João Esteves:

«O Vermelho e o Negro» – Stendhal

“O Vermelho e o Negro” é a obra mais conhecida de Stendhal e um dos maiores romances de todos os tempos. Elogiado por grandes nomes da literatura e da filosofia, como o seu contemporâneo Balzac, o filósofo alemão Nietzsche ou o poeta argentino José Luís Borges, este romance é um dos livros com maior abrangência temporal, porque retracta a vontade de um jovem em vencer na vida, atingir os seus objectivos e realizar-se enquanto homem. No entanto, para isso conta contra ele com as imposições e constrangimentos sociais e económicos, dialéctica intemporal que tanto se passa no século XIX, época sobre a qual o livro se debruça, como também se passa hoje. Por isso, este romance marca uma viragem e uma ruptura com o romantismo, sendo considerado por muitos autores, como o primeiro romance realista. A história é sobre o percurso psicológico e social do jovem Soriel, que provém de uma origem humilde, mas que tem a vontade de mudar a sociedade e combater as injustiças. Dotado de capacidades intelectuais acima da média e de uma boa aparência, ele consegue todos os seus objectivos sociais e afectivos, tornando-se noivo da mulher de quem ama e atingindo uma posição elevada na sociedade. No entanto, apercebendo-se do meio que o rodeia, ele fá-lo à custa da hipocrisia. Por outras palavras, utiliza a arma do inimigo para atingir o topo e, depois de lá estar, poder mudar o «status quo». Só que não consegue, pois o seu passado é revelado e o casamento é impedido pelo pai da sua noiva. É, por isso, um romance que desvela os segredos, os silêncios, os cinismos e as hipocrisias da sociedade.

«O Jogador» – Fiódor Dostoiévski

“O Jogador” é uma das maiores obras de Dostoiévski e um dos melhores romances psicológicos da História. Relata o percurso de um preceptor de uma família aristocrata russa, que se envolve em «jogos de azar», devido ao facto de revelar algum jeito para lidar com a pressão do jogo e por imposição da família a quem servia. Com o tempo, passa de uma obrigação para um prazer, e de um prazer para um vício. Ele desenvolve uma relação com uma mulher pertencente a essa família aristocrata, portanto, socialmente mais bem colocada do que ele. Por servir essa mulher e sua família ele, ao revelar o seu amor por ela, nunca vê correspondido essa seu desejo. Ela sempre o trata como um seu empregado. O vício acaba por lhe arruinar a sua profissão e a concretização do seu amor, pois, no final do livro é revelado que ela gostava dele e que estava disposta a casar com ele, desde que ele deixasse o «jogo». Para surpresa de todos, o protagonista da história opta pelo vício em detrimento do seu amor.

«Os Silogismos da Amargura» – Emil Cioran

“Os Silogismos da Amargura” são, talvez, a obra aforística mais conhecida do filósofo romeno Emil Cioran. Em boa parte, eles têm «um quê» de Nietzschiano, apesar de serem, pela sua natureza mais intricada e recente, também mais condensadores e mais fustigantes da sociedade em geral. Emil Cioran representa uma «filosofia contra-filosófica», isto é, ele, tanto neste livro, como ao longo da sua obra, põe em causa todos os dogmas existentes, inclusive dentro da própria filosofia (“não há maior prazer do que acreditar ter sido filósofo e deixar de o ser”). É, por isso, considerado um «autor maldito», cujas correntes que segue, desde logo o pessimismo, o cinismo, o niilismo e o cepticismo, fazem dele um autor muito difícil de ser lido. Deixa-nos, no entanto, um legado precioso do que é saber pensar, apesar da obra dele ser dominada por um enorme hiato entre o que escreve e o que é na vida real, intervalo esse irresolúvel e chave nunca encontrada por ele, nem pela Filosofia actual. Daí, ele ser um «filósofo de fim de linha», que nas palavras do seu colega contemporâneo Peter Sloterdjik, se tornou “o último verdadeiro grande cínico da nossa época.” Como o próprio diz, “preferi ser um parasita a ter uma profissão.”, parasitismo o qual é admitido pelo próprio, quando afirma que era típico dos pensadores parisienses da altura refugiarem-se no sustento material de suas mulheres.

Escolhas de Gabriel Margarido Pais:

«Siddhartha» – Herman Hesse

Recontando de forma liberta e original a história de Siddartha Gautama (o Buda), o livro do Prémio Nóbel da Literatura conta a história do jovem que recusa a vida luxuosa de filho de brâmane indiano para se dedicar a uma aventura de obtenção de conhecimentos e paz de espírito, no fundo por uma vida de significado. Acompanhamos em ‘Siddartha’ a história de um homem que recusou tudo o que tinha de material, passando a ter nada, e que depois ganha tudo o que há para ganhar em termos espirituais e intelectuais, atingindo assim o Nirvana. Um livro inspiracional e altamente motivante, que nos ensina que uma vida de busca pelo conhecimento é a melhor que podemos levar.

«Walden» – Henry David Thoreau

Thoreau conta a sua própria história, a história de como desiludido com a sociedade se isola nas margens do lago Walden tentando provar que uma vida de reclusão é possível, e que as bujigangas e acessórios da vida em sociedade, de uma carreira e de uma busca infindável por dinheiro e bens materiais são a semente do mal no mundo. ‘Walden’ é um trabalho espiritual sobre o nosso mundo e nós mesmos, e a nossa dificuldade (ou impossibilidade) em unirmos os dois no meio em que vivemos.

«Call of the Wild» – Jack London

Desafio qualquer pessoa – homem, mulher ou criança – a não gostar de ‘Call of the Wild’. É a aventura mais excitante, a história de amor mais poderosa, e a meditação mais profunda sobre uma criatura e o seu espaço na natureza. Este livro é a confirmação da ideia de que nunca sabemos quanto nos preocupamos por uma pessoa (ou até que extremos estariamos dispostos a ir por ela) até essa pessoa não estar na nossa vida (e aprendemos essa lição de um cão!). Se no final do livro não te sentires emocionado, perdido e altamente desiludido com a raíz da natureza humana, ou és muito frio/a de coração, ou um amante de gatos!

Escolhas de João Vieira:

«A Sonata de Kreutzer» – Lev Tolstoi

Seria uma injustiça não tentar repor um equilíbrio na “Natureza” ao mencionar um livro de Lev Tolstoi quando já alguns de Dostoiévski o foram, inclusive O Jogador, a sua obra que mais me marcou (muito por culpa de ter sido a primeira). Seria igualmente desonesto da minha parte se omitisse uma menção a Turgueniev ou a Gogol, ou a contos como “A Sonolenta” de Tchekhov (raros são os que escrevem com tanta beleza e simplicidade), a “Dama de Espadas” de Pushkin ou “A Flor Pisada” de Leonid Andreev. A razão na escolha deste livro prende-se sobretudo por ter sido a obra de Tolstoi que me abriu os horizontes para as seguintes. Sendo um breve romance, lancei-me à sua leitura sem ter lido nada antes sobre o livro. Foi com surpresa que fui desbravando as páginas cobertas por uma escrita genial e hipnótica numa história em que através de um diálogo nos é dado conta de uma relação doente entre homem e mulher. O pessimismo, as traições, a descrença. Riqueza de conteúdo.

«Carta ao Pai» – Franz Kafka

Uma viagem guiada pela relação conturbada que Kafka tinha com o pai e que tanto o moldou nas obras que escreveu como o próprio admite. O seu psicológico interessantíssimo é aqui abordado nesta peça literária rica pela capacidade autocritica e análise ao seu modo de ser, formatado em grande parte pela mágoa que sempre transportou consigo desde cedo pela relação autoritária que o seu pai, de forte presença, sempre exerceu sobre ele. Um verdadeiro “desabafo” cheio de impacto numa obra cheia de mágoa e amargura pela forte presença paterna no seu desenvolvimento.

«Sem Penas» – Woody Allen

Livro de apontamentos, Sem Penas permitiu-me, como fã do humorista que se tornou num dos maiores cineastas de sempre, conhecer alguns dos seus apontamentos. Uns viriam a dar origem a algumas das suas obras cinematográficas que todos já tivemos oportunidade de ver por entretanto se terem tornado intemporais. Outros são meros rascunhos, apontamentos com humor mordaz, irónico e rico como Woody Allen sempre nos presenteou.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS