As gerações mais novas podem mudar o mundo?

29 MAIO, 2017 -

O primeiro dia das Conferências do Estoril foi dedicado às gerações mais novas. Fareeda Khalaf, Bernard Kouchner e Ramos-Horta foram algumas das personalidades presentes.

O dia foi dedicado aos mais novos, aqueles que, em breve, irão ocupar papéis de relevo na nossa sociedade, assumindo responsabilidades políticas, económicas, sociais. Por isso, parte das palestras que preencheram ontem o primeiro dia das Conferências do Estoril foram dirigidas às gerações mais novas e aos desafios que estas irão enfrentar no futuro.

Questões relacionadas com emprego, ambiente, conflitos internacionais e direitos humanos foram abordadas por algumas das figuras mais prestigiadas das diferentes áreas. Desde o comissário europeu Carlos Moedas até ao vencedor do Prémio Nobel da Paz, Bernard Kouchner, passando pela jovem yazidi Fareed Khalaf e o cientista Rajendra Pachauri, todos deixaram uma mensagem aos mais novos: estes é que têm o poder para mudar o mundo. Seja através da palavra, das ações humanitárias, dos alertas, do voto.

“Os conselhos dos nossos pais são sempre muito maus”

O comissário europeu Carlos Moedas, responsável pela pasta da Investigação, Ciência e Inovação, quis deixar uma mensagem clara aos mais novos que se preparam para entrar no mercado de trabalho e para enfrentar os desafios da vida adulta: “Sigam a vossa paixão”.

Questionado por uma jovem estudante sobre os problemas de desemprego, os argumentos usados para não contratar os mais novos e a dúvida sobre se valerá a pena continuar a investir na educação e no futuro quando as entidades empregadoras continuam a preferir “pessoas mais velhas e com experiência”, o comissário europeu deu uma resposta inesperada: “Quando temos 17 ou 18 anos, seguimos o que as pessoas nos dizem. Os conselhos que os nossos pais nos dão são sempre muito maus, porque têm muito medo do risco e pedem-nos sempre para seguirmos a via mais segura. Nunca seguimos o que sentimos, a nossa paixão. O vosso trabalho é seguir essa paixão e para isso é preciso ter autoconfiança”, disse Carlos Moedas, defendendo que os sistemas educativos devem incutir este espírito nos alunos europeus.

“Vocês têm poder para pressionar os políticos”

Rajendra Pachauri, fundador do projeto Protect our Planet Movement e vencedor do Nobel da Paz em 2007, em nome do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, não acredita que os governos consigam, por si só, resolver estes problemas. “O Acordo de Paris foi um passo dado em frente, mas temos de dar mais. No entanto, este acordo já nos dá a oportunidade de chamar a atenção de todas as nações do mundo, com o objetivo de avançarmos em conjunto… Talvez até com os Estados Unidos da América”, afirmou o cientista, fazendo referência ao facto de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter ameaçado desvincular o país do Acordo de Paris, prometendo para a “próxima semana” uma decisão final sobre o assunto.

Perante uma plateia cheia de jovens, o cientista indiano referiu dois dos fatores que mais prejudicam o ambiente: o desperdício e o consumo excessivo. “Se vão de carro para a escola ou faculdade, pensem nas consequências dessa ação, vejam se não existem alternativas. Também têm de fazer alterações no vosso dia-a-dia. Pensem na quantidade de roupa que compram. Eu não deito fora peças de roupa que têm 40 anos. E a verdade é que muitas destas peças poderão voltar a estar na moda em breve. Outro apelo: comam menos carne. Fará bem à vossa saúde e à saúde do planeta”, aconselhou.

O cientista fez ainda um apelo aos mais novos, em particular aos jovens portugueses: “Vocês têm o poder de pressionar o poder político (…). A juventude tem de tomar as rédeas da situação. E aqui incluo a juventude portuguesa. Este é um país muito bonito, mas também muito vulnerável às alterações climáticas: vocês têm uma costa muito grande e, por isso, muitas pessoas enfrentam os perigos provocados pela subida do nível do mar”, alertou.

“As pessoas são boas, mas são influenciadas pelo ambiente que as rodeia”

Apesar de ter sofrido de uma forma que poucos seres humanos conseguem imaginar, Fareeda Khalaf, a jovem yazidi que conseguiu fugir do Estado Islâmico, deixou uma mensagem de esperança ao público mais novo que assistiu ao seu testemunho, reforçando a ideia de que “as pessoas são boas, mas são influenciadas pelo ambiente que as rodeia”.

“Veja-se o exemplo de dois meninos yazidis, que eram crianças inocentes, normais, iguais a todas as outras crianças, não sabiam nada sobre terrorismo ou radicalismo. Num vídeo divulgado no mês passado, vê-se as duas crianças a cometerem um ataque suicida contra o exército iraquiano. Eles foram vítimas de uma lavagem cerebral. As pessoas são boas, mas são influenciadas pelo ambiente que as rodeia, isso é que faz com que acabem por se tornar terroristas”, afirmou esta mulher que, em 2014, foi raptada pelo Estado Islâmico, tornando-se uma escrava sexual do grupo terrorista.

“Já se passaram três anos desde que a minha aldeia foi atacada pelo Estado Islâmico. A escola onde costumava estudar e onde ganhei vontade de ser professora foi onde o grupo terrorista cometeu os seus ataques mais atrozes. A mesma escola tornou-se um sítio aterrador para mim. Neste sítio, em vez de vislumbrar aquilo que tinha idealizado para o meu futuro, vi os ossos do meu pai e do meu irmão”, contou, entre soluços, a jovem yazidi. “Quero que imaginem o seguinte: pensem que uma das mulheres que continua mantida em cativeiro é a vossa mulher, mãe, irmã ou filha, e está a ser usada como escrava sexual. O que fariam numa situação dessas?”, questionou.

“O prémio nobel é como a lotaria”

O primeiro dia das Conferências do Estoril não teve apenas palestras dedicadas aos mais novos. A que mais se destacou foi a que reuniu quatro vencedores do Prémio Nobel da Paz: Bernard Kouchner, co-fundador dos Médicos Sem Fronteiras, José Ramos-Horta, porta-voz da resistência timorense e antigo Presidente da República daquele país, Rajendra Pachauri, antigo presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, e Jody Williams, ativista distinguida pela campanha internacional pela proibição das minas terrestres.

Uma das intervenções que mais deu que falar foi a de Ramos-Horta, que defendeu que a conquista do Prémio Nobel se deve ao trabalho de equipa. “Nenhum de nós trabalha sozinho. Há muitos aqui na sala e espalhados pelo mundo que trabalham tanto ou mais que eu e os restantes laureados na busca pela paz. O prémio Nobel é dado anualmente a uma ou duas pessoas, é impossível dar a toda a gente. É quase como se fosse uma espécie de lotaria”, afirmou.

O dia de hoje fica marcado pelos testemunhos do antigo agente da CIA Edward Snowden, do líder britânico Nigel Farage e pela conferências que junta os ‘super juízes’ Carlos Alexandre, Baltasar Gárzon, Sérgio Moro e Antonio Di Pietro.

Artigo escrito por Joana Marques Alves, publicado no nosso parceiro Jornal SOL
Fotografia de João Porfírio

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