As desconstruções sociais nos filmes de Yorgos Lanthimos

22 MAIO, 2017 -

Se há algo a louvar no cinema do grego Yorgos Lanthimos é a sua incessante necessidade de desconstrução da sociedade. As suas criações distópicas, utópicas e antinaturais revelam a genialidade não só da sua técnica fílmica, mas também da sua extraordinária capacidade criativa enquanto escritor e criador.

Yorgos Lanthimos é um dos realizadores europeus do momento, sendo o seu novo filme “The Killing of a Sacred Deer” um dos mais aguardados da edição de 2017 do Festival de Cinema de Cannes. Grego de nascimento, orwelliano de natureza, Lanthimos descobriu o cinema bastante cedo quando em 1995 lança a sua primeira curta-metragem “O viasmos tis Hlois” com apenas 22 anos. Contudo, a marca identitária do realizador surge apenas em 2005 com a sua primeira longa metragem a solo, intitulada de “Kinetta”.

Em “Kinetta” começam a surgir os traços de desconstrução da lógica que o realizador explorou até aos dias de hoje. O tom dramático com toques cómicos torna a mensagem por vezes algo confusa, embora sempre interessante. “Kinetta” é, possivelmente, o trabalho mais fraco do realizador, mas ilustra claramente uma visão à frente do seu tempo e uma grande curiosidade sobre a imprevisibilidade das relações humanas e da sociedade estereotipada e previsível em que vivemos. Como seria trocar todas as lógicas racionais? Nomes, acções, estilos de vida, etc? Yorgos Lanthimos explorou esta temática no seu filme seguinte, “Dogtooth”.

“Dogtooth” explora as diferentes perspectivas de realidade que três irmãos têm ao viverem isolados na mesma casa, sem nunca terem saído dela, porque os seus pais dizem que só poderão sair quando o seu dente canino cair. Os jovens vivem numa realidade distorcida da que se vive lá fora (e da nossa), desconhecendo em absoluto o que são coisas tão simples como um gato, liberdade ou vagina. Esta exploração incrível de uma micro-distopia familiar serve de mote para a elevação de Lanthimos como criador máximo de realidades sociais alternativas. Não existem, no cinema moderno, muitos exemplos do género, principalmente no que toca a cineastas europeus não hispânicos nem russos.

A actuação de cada actor nesta orquestra delirante criada pelo maestro Lanthimos é arrepiante, chegando quase a convencer-nos de que estamos perante um documentário e não de um filme. Apesar de tudo, “Dogtooth” deixa um pouco a desejar na realização. Existem demasiados planos aleatórios, sem uma ordem definida e que por vezes se tornam confusos na montagem utilizada. Pedia-se, possivelmente, uma maior clareza técnica para um filme que prima pela desconstrução de detalhes sociais que sendo aliados à componente técnica poderiam trazer muito mais poder à sua mensagem.

Chegamos a 2011 e ao seu próximo filme, “Alpes”, onde Lanthimos continua a parceria com o argumentista Efthymis Filippou, conhecido por ter escrito o incrível “Chevalier”.

“Alpes” continua a temática de desconstrução da sociedade, mas adiciona-lhe uma realização superior, uma fotografia belíssima conduzida por Christos Voudouris.

A sinopse não podia ser menos fantasiosa: Um grupo de pessoas inicia um negócio onde personificam os falecidos de forma a ajudarem os seus clientes durante o processo de luto. Se a ideia parece descabida, a execução é memorável. O que impressiona no cinema de Lanthimos é a forma como nos consegue convencer do mais absurdo, do mais ridículo, de novas formas sociais que nunca nos passaram pela cabeça e que nos seus filmes são retratadas de forma tão crua e real.

Como vários realizadores europeus independentes foi preciso introduzir actores estrangeiros para que o sucesso comercial se começasse a criar. Em 2015 Lanthimos traz-nos “Lobster”, aquela que é possivelmente a sua obra prima.

Novamente numa sociedade distópica, Lanthimos explora a forma como a nossa vida amorosa define quem somos, o que fazemos, ou para onde vamos. Num determinado Hotel, cada pessoa que esteja solteira está obrigada a encontrar um parceiro em 45 dias, ou então serão transformados em animais e soltos na Floresta. Lanthimos alcança o estatuto de mestre com as metáforas que conseguiu criar para cada um dos espaços físicos, a começar no Hotel, passando pela Cidade e terminando na Floresta. Cada detalhe visual é suportado por linhas de diálogo extremamente cuidadas e uma das mais belas fotografias que tivemos oportunidade de ver no cinema nos últimos anos, muito graças ao incrível Thimios Bakatakis, com quem Lanthimos já tinha trabalhado em “Kinetta” e “Dogtooth”.

As interpretações são convincentes, sem serem muito exuberantes, algo que faz parte do universo de Lanthimos. Um reparo à banda sonora clássica que cria um ambiente negro e meio enigmático durante todas as sequências.

O cinema de Yorgos Lanthimos é fresco, desafia as regras e delicia-nos com inúmeros aspectos técnicos, criando universos paralelos arrepiantes. Tudo isto não seria possível sem os fantásticos directores de fotografia com que tem trabalhado e claro o magnifico argumentista Efthymis Filippou. Há um novo Olimpo a nascer na Grécia e neste os deuses somos nós próprios.

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