Artistas e felinos, o que têm em comum?

11 ABRIL, 2017 -

Ao falarmos de arte, refletimos inevitavelmente no que a inspira. Se Jeanne Duval se imortalizou na obra poética do modernista Charles Baudelaire e na pintura de Édouard Manet; Anna Karina influenciou profundamente a biografia e cinematografia de Jean-Luc Godard; e Edie Sedgwick cravou-se na alma e na arte de Andy Warhol. Assim, o mundo feminino pode inspirar e libertar a voz daquele que se entrega à arte, a quem tendemos a associar conceitos como “desconformado”, “desajustado”, “estranho” e “misterioso”.

Porém, e ainda que as musas femininas arrecadem um lugar medular na biografia e obra dos artistas, falaremos sobre um outro ser que influencia, instiga e até espelha a alma e a criação artística: o gato. Não só extravasam independência, mas também calcorreiam de forma solitária e intrigante, como que retendo a resposta para um importante enigma. São territoriais, são presas e predadores. Agradar não consta no seu dicionário e experienciam essencialmente no período noturno, assumindo-se como autênticos notívagos.

Torna-se inevitável estabelecer algumas pontes entre os felinos e aqueles que se entregam à arte. Em 2010, os investigadores do Departamento de Psicologia, da Universidade do Texas, conduziram um estudo que envolveu mais de 4,000 voluntários. Entre eles, constavam indivíduos que atribuíam preferência a gatos, a cães, a ambos ou a nenhum deles. Através de uma avaliação, que analisou essencialmente a recetividade, a perceção, a extroversão e a neurotização dos indivíduos, os investigadores concluíram que os amantes dos felinos são mais neuróticos, mais introvertidos, menos recetivos do que aqueles que preferem cães.

No entanto, este fascínio pelos gatos não é recente. Demonizados ou idolatrados, os felinos apoderaram-se de um lugar assaz particular em várias culturas, ao longo dos tempos. Se foram venerados pela civilização egípcia, os romanos admiravam a independência destes animais, enviando-os para o campo de batalha a fim de protegerem o abastecimento alimentar dos roedores. Por sua vez, os gregos elegeram os leões ou as chitas – também da família dos felídeos -, que espelhavam riqueza, poder e status, atribuindo-lhes primazia nas representações na cerâmica. Eventualmente, ao longo da Idade Média, este deslumbramento esvaiu-se e os felinos passaram a ser associados ao paganismo e à feitiçaria. Atualmente, mais do que animais de estimação, os gatos encravam-se no âmago de vários artistas e também na sua arte.

Claude Cahun

Sobrinha do simbolista Marcel Schwob, Claude Cahun (1894-1954) foi uma artista, fotógrafa e escritora francesa, que se agregou ao movimento surrealista. Rejeitou rótulos, desconstruiu as conceções de género e reinventou o conceito de self, recorrendo a uma mescla do universo feminino e masculino, de perucas e maquilhagem para se apresentar. Enquanto amante dos felinos, serviu-se deles para questionar as noções de identidade, criando, no final da década de 40, Le Chemin des Chats.

Patti Smith

Patti Smith (1946) é uma cantora, compositora, poeta e artista norte-americana, tendo arrecadado um lugar medular no panorama punk rock nova-iorquino nas décadas de 60 e 70. Experienciou a intensidade do amor e a potência artística junto de Robert Mapplethorpe e associou-se inevitavelmente à marginalidade literária, aliando-se a nomes como William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Gregory Corso. Afirmou inúmeras vezes o seu fascínio pelos felinos, realçando a proteção e a segurança que lhe concedem, tendo acompanhado Patti na criação artística e nos momentos de penúria.

William S. Burroughs

Um dos vultos da Beat Generation, William S. Burroughs (1914-1997) foi um escritor norte-americano, cuja obra engloba romances, novelas, contos e ensaios. Apaixonou-se pelos pequenos felinos no final da década de 80, quando se mudou para Lawrence, Kansas. Burroughs adota vários gatos abandonados, que vêm ofuscar a sua misantropia. Entre os inúmeros animais, destaca-se Fletch, um pequeno gato preto, que elegeu como o seu predileto. Numa das últimas entrevistas, o escritor norte-americano afirmou “I’ve learned immeasurably. I’ve learned compassion; I’ve learned all sort of things from my cats, ‘cos cats reflect you, they really do”.

Edward Weston

Edward Weston (1886-1958) é considerado um dos mais proeminentes fotógrafos do século XX. Seguindo a estética modernista, dedicou-se à exploração durante a década de 20, balançando-se entre vários ângulos e close-ups. Captou desde naturezas mortas, à paisagem californiana e ao corpo nu e sensual. Nos últimos anos de vida, instalou-se, na propriedade Wildcat Hill, em Carmel Highlands, onde se encontravam inúmeros gatos. Os felinos, porém, não surgem somente nas imediações da sua residência, mas na própria obra do artista. Em 1947, publica com a sua esposa, Charis, o livro The Cats of Wildcat Hill.

Florence Henri

Ingressou na Bauhaus, tendo estudado com Wassily Kandinsky; porém Florence Henri (1893-1982) afasta-se da pintura para se lançar à fotografia. Uma autêntica vanguardista, que se alia à elite artística parisiense e aos futuristas de Roma. Na sua arte, recorre a espelhos e a objetos que desconstroem e afetam o sentido de realidade. Apaixonou-se, ainda, pelo universo dos felinos, expondo-os nos seus autorretratos.

Henri Matisse

Henri Matisse (1869-1954) derrubou os padrões artísticos de então e contribuiu para que a modernidade se erguesse e se estabelecesse. Amante da independência e da intensidade propagada pelos felinos, pintou Marguerite, la jeune fille au chat noir – uma das suas mais icónicas criações. O pintor francês, que adotou vários gatos, criava na companhia dos felinos. Destaquemos Coussi, um grande gato listrado; Puce, uma felina esguia e preta; e Minouche, que oscilava entre o branco e o cinza.

Henri Matisse (1869-1954) derrubou os padrões artísticos de então e contribuiu para que a modernidade se erguesse e se estabelecesse. Amante da independência e da intensidade propagada pelos felinos, pintou Marguerite, la jeune fille au chat noir – uma das suas mais célebres criações. O pintor francês, que adotou vários gatos, criava na companhia dos felinos. Destaquemos Coussi, um grande gato listrado; Puce, uma felina esguia e preta; e Minouche, que oscilava entre o branco e o cinza.

Na obra Artists and their Cats, da autora, jornalista, editora e artista Alison Nastasi, publicado pela Chronicle Books, em 2015, colidimos com muitas outras aventuras e amizades entre artistas e gatos: desde Salvador Dalí, a Pablo Picasso, a Frida Kahlo ou a Veruschka. Como Nastasi afirmou: “Many artists buck notions of a stereotypical temperament, but researchers have long speculated that creative individuals share common attributes—which mirror those of cats.” Assim, esta urdidura ultrapassa as fronteiras do mito para se estabelecer no plano do real. E, mais do que desvendar a profunda relação existente entre os artistas e os pequenos felinos, Nastasi presenteia-nos com um livro detentor de uma paleta cromática vivida e um aglomerado de fotografias fascinantes.

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