‘Aromanticism’, de Moses Sumney, é um disco de busca pessoal e um exercício terapêutico de auto-análise

1 NOVEMBRO, 2017 -

É com uma perspectiva fria e talvez até ligeiramente desafiante relativamente ao amor que Moses Sumney se apresenta naquele que é o seu primeiro álbum de estúdio, Aromanticism. Mas não é de todo repentina a sua emergência no panorama musical. Tal como o seu contemporâneo Sampha – também ele autor de um dos mais complexos e cativantes álbuns soul do ano – Moses mostrou-se paciente, tendo tido envolvimento em várias actividades colaborativas (embora a uma menor escala que o anterior) antes de finalizar por completo o seu registo a solo. Ao lançamento de um par de consideravelmente promissores singles em 2014, juntaram-se trabalhos com os indie rockers Local Natives no seu álbum intitulado Sunlit Youth, ou ainda os colossais The Cinematic Orchestra: estas experiências – sem esquecer importantes aparições em festivais como o TransMusicales de Rennes ou o Primavera Sound 2016 – terão exercido um peso crucial no desenvolvimento do seu estilo artístico e, até certo ponto, do seu próprio estado emocional. “É um bocado assustador. Tudo aconteceu a um ritmo muito calmo durante 23 anos e, de repente, boom“, confidenciava já Moses numa entrevista concedida à Issue Magazine. É no último que o artista se foca mais durante a maior parte do disco, mas não necessariamente das maneiras mais expectáveis. 

“I used to say I love to stay alone / Now the lights are never bright when I get home / A soul cannot be whole if only rogue / Can a vagrant body be celestial?”, cantava Moses Sumney em 2014, no seu single de estreia “Man On The Moon”. O jovem artista, outrora reflectindo sobre a necessidade de sentir amor para viver plenamente, terá agora mudado ligeiramente a sua abordagem com Aromanticism. O mote cru e um tanto sombrio do seu primeiro disco de estúdio cria um perfeito contraste com a sua voz angelical: e se nem todos conseguirem construir um caminho que culmine no encontro com uma ‘alma gémea’?; e se, para muitos seres, a possibilidade de viver um profundo e encantador romance for inalcançável? Ao longo das 11 músicas que constituem o seu projecto, Moses dá aos ouvintes a conhecer a fragilidade de que se revestem os seus sentimentos e os medos com que mais frequentemente se debate, numa notável experiência musical que tem tanto de cativante e sedutor como de emocionalmente arrebatador. 

Nos seus melhores momentos, Aromanticism destaca-se pela sua capacidade de iludir o ouvinte, oscilando entre a sensualidade e intimidade evocada pelo impecável registo vocal de Moses e a intranquilidade que perpassa muitas das suas letras. Instrumentalmente, o álbum estabelece um diálogo recorrente com o jazz, cuja influência se mescla com a sonoridade enraizada no soul e nos pequenos toques de electrónica que caracterizam o cantautor. Reservado e pensativo, as suas faixas desenvolvem-se e desmontam-se sem grandes pressas ou exuberância, privilegiando a criação de uma encapsulante atmosfera na qual assumem papel de maior e merecido relevo a meticulosa produção e o seu excelente desempenho. 

Os acordes melancólicos e melodiosos que iniciam a bela “Don’t Bother Calling” complementam e fortalecem a sua voz, inicialmente escondida por detrás do vocoder mas que logo se desinibe e salta para a frente. Esta faixa assumidamente dreamy, palco perfeito para colocar em grande plano os seus atributos, dita aquele que é o tom geral do disco, co-habitando de um modo perfeitamente natural com a música seguinte “Plastic”. Esta, conduzida tanto pela voz doce e macia de Moses como pela simplicidade da serena guitarra jazzy da qual se faz acompanhar, encontra-o no seu estado mais exposto e vulnerável. Recorrendo à deliciosamente devastadora construção imagética que monta com as suas letras (“I know what it’s like to behold and not be held / Funny how a stomach unfed seems satisfied ‘cause it’s swell and swollen”), dispensam-se grandes crescendos para se manifestar a força emocional que Moses tem como objectivo veicular: a frágil e despojada urgência da sua voz consegue-o quase por si só.

A calculada simplicidade é um dos aspectos a ter em conta durante o decorrer do álbum. Várias músicas constroem-se a partir de apenas um ou dois motifs fundamentais, querendo ser preservada a sua essência, e nem sempre elas procuram um clímax (a rítmica e magnífica “Lonely World” talvez será a maior excepção), reunindo em si forças igualmente poderosas numa repetição de ideias consciente e deliberada que raramente se entrega à monotonia ou redundância. Por vezes, Moses parece desinteressado das convenções de composição ditas tradicionais, o que ajuda a conferir a Aromanticism o seu estilo singular. “Make Out In The Car” é um bom exemplo dessa mesma repetição, na qual Moses – apoiado por um instrumental evocativo, influenciado pelo jazz e colorido com uma flauta vibrante na sua parte final – dança à volta da letra “I don’t want to go to bed with you / I just want to make out in the car”. Ao mesmo tempo que, com o seu tom etéreo, exibe um carácter sensual que lhe é intrínseco, o artista preocupa-se com o valor superficial e vazio que um romance pode assumir. 

Mas o cantautor também sabe quando introduzir um sentido de variedade à experiência que está a criar, e que testemunho mais poderoso disso mesmo que “Quarrel”? A natureza quase cinemática desta faixa, possivelmente um dos mais fortes e fundamentais pilares do projecto – e na qual Moses revela um leque variado de influências, desde o soul íntimo de Seal à icónica Nina Simone e até o expressionismo de Thom Yorke – alia-se ao seu elevado registo no desenvolvimento de uma poderosa sonoridade, amplificada pelas guitarras chamativas e os subtis pormenores de sintetizadores e violinos. O interlúdio “Stoicism” é igualmente essencial à construção temática do disco, não só pela forma como antecipa o início da já mencionada “Lonely World” mas também porque oferece algum contexto que melhor permite entender as reluctâncias do artista que estão na base desta obra. “My mom would drop me off in our family’s second-hand Mitsubishi caravan / And I would glance back, before my descent, to mutter, ‘I love you.’ / In turn, she’d nod her head and turn to the road ahead, and sigh ‘…Thank you.'”, ele declama. “Stoicism” abre uma janela para o passado de Moses, onde a falta de expressões de amor no próprio seio familiar terá tido um peso na espécie de indecisão psicológica com que agora se confronta. 

“All my old lovers have found others”, pode ouvir-se em “Indulge Me”, com o acompanhamento de uma guitarra expressiva e minimalista. Moses Sumney não tem as respostas para todas as problemáticas sobre as quais discorre. Será ele incapaz de se relacionar amorosamente? Sentir-se-ia confortável assim? Talvez não o saiba dizer por completo: Aromanticism surge, então, como um disco de busca pessoal, um exercício terapêutico de auto-análise. E, acima de tudo, mostra um artista revestido de um promissor potencial, cujos horizontes só se podem alargar depois de assegurada esta conquista. A promessa deixada pelos seus primeiros singles finalmente se materializa num álbum de estúdio de estreia que transpira criatividade e assenta numa sonoridade distintiva e cuidadosamente montada, enaltecida por uma enorme qualidade de composição.  

Artigo escrito por Daniel Dias 

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS