‘Apanhados pela Revolução’, uma nova leitura de acontecimentos que ajudaram a moldar a História do séc. XX

30 MAIO, 2017 -

O livro de Helen Rappaport não é, certamente, único e, por certo, não será o último de uma lista, sem surpresa, longa. Mas  traz algo mais à enorme torrente de bibliografia sobre as revoluções de 1917 de Fevereiro e Outubro. Para se perceber de que forma o estudo desta historiadora pode trazer um contributo valioso e singular, basta percorrer as oito páginas ocupadas pelo «Glossário de Testemunhas Oculares». Entre jornalistas, estudiosos, activistas e diplomatas, há, nesse elenco, profissionais de saúde, aristocratas, artistas, mas também cidadãos sobre os quais pouco ou nada é possível saber. Todos eles, no entanto, têm algo em comum: estavam em Petrogrado antes, durante e/ou depois das revoluções de 17. E deixaram marcas e testemunhos, escritos ou relatos por interposta entidade. Vislumbres que permitem ao leitor, à distância de um século exacto, acesso à impressão recolhida in loco.

A cidade que se chamou São Petersburgo, recebeu o nome de Petrogrado para sacudir qualquer proximidade toponímica com a Alemanha inimiga – e ainda viria a chamar-se Leninegrado, durante o período soviético, para voltar a ser São Petersburgo, em resultado de um plebiscito, após a queda do Muro de Berlim. Trata-se de um espaço de sedução para o literato e o nostálgico, por trazer à memória as páginas de Gógol ou Dostoievski. Lugares onde se prepararam e decorreram alguns dos principais episódios deste drama serão familiares: a Avenida Nevski, que dá nome a um dos «Contos de Petersburgo» de Gógol, ou a Fortaleza de Pedro e Paulo, onde Dostoievski esteve preso antes da deportação siberiana, e escreveu «O Pequeno Herói». Cosmopolita e complexa, vária e dura, fustigada pelo frio e pela neve, com a esquiva do sol ao longo de quase todo o ano, a cidade de São Petersburgo é tudo menos uma geografia indiferente. E a autora sabe dar-lhe o realce necessário. Seria trivial afirmar que a vasta urbe é uma das personagens na teia de acontecimentos e conflitos em torno das duas revoluções; mas a verdade é que São Petersburgo, enquanto tecido vivo e vibrante, desempenha um papel fundamental nas várias tramas habilmente entrelaçadas por Helen Rappaport.

Lenin em Petrogrado, Março de 1917. Fotografia: Getty Images

A estudiosa tomou uma decisão clara. Em vez de projectar os conteúdos do seu estudo através de um espectro abrangente mas neutro, optou por uma focalização mais precisa, de maior minúcia. Sob esta focagem, a leitura vai sendo, por definição, sucessivamente subjectiva. HR adopta a perspectiva dos estrangeiros que faziam então da grande cidade russa a sua casa. Esse conjunto de visões idiossincráticas forma, no entanto, um quadro geral de surpreendente alcance e harmonia. Páginas de diário, cartas, documentos de vária índole, desde o jornalístico até ao oficial, além da solidíssima coluna bibliográfica convocada pela autora, formam um edifício de construção admirável. O papel da Helen Rappaport é, em grande medida, o de mediadora entre fontes diversas, no seu alcance e no tratamento que delas é possível fazer. Nem tudo está, naturalmente, ao mesmo nível; escalonamento e disposição são princípios fundamentais. Dotada da capacidade de composição e arranjo de uma verdadeira escritora, Helen Rappaport faz muito mais do que reunir e amalgamar. Pelo contrário, o resultado é inesperadamente atraente. O diabo do pormenor é um dos componentes que fornecem ao texto a sua agilidade e que o dotam de um dinamismo de tal forma perceptível.

«Desta vez, eram muito “amáveis”, até divertidos; pareciam estar ansiosos por se render ao estado de espírito do povo, e tiravam os chapéus e “acenavam com eles à multidão”, enquanto a obrigavam a avançar. Aconteceu que muitos dos cossacos eram reservistas, cuja relutância em obrigar as pessoas a recuarem era agravada pela dificuldade que muitos tinham em dominar os seus cavalos, que não estavam habituados a multidões. Enquanto se limitassem a pedir pão, disseram os cossacos aos manifestantes, não seriam alvos do tiroteio.» (p.57)

Descrevem-se os momentos que antecedem o deflagrar da revolução que, escassas duas páginas depois, é descrita com semelhante rigor e com uma orquestração de fontes que volta a ser assinalável. O equilíbrio entre recursos escritos, paráfrases e intervenções autónomas da autora é semelhante ao do ficcionista que equilibrasse discurso directo e indirecto, intervenções da voz narradora e digressões rumo a outros sentidos. Repuxando fios que se começavam a urdir anteriormente, a partir deste momento o livro de Helen Rappaport promove um contraste permanente entre a placidez da cidade – enquanto organismo vivo e arreigado aos seus ritmos e costumes – e a agitação dos seus habitantes em revolta. O Czar, por exemplo, não se encontrava em Petrogrado, e não rumaria à capital tão cedo, e todas as actividades de lazer e ostentação permaneciam na sua rota algo tonta. Banquetes, montras recheadas de iguarias ao alcance de multidões famélicas e revoltadas, espectáculos a cumprir um vão calendário. Como anotava uma actriz, nas páginas do seu diário: «“Era absurdo representar uma comédia num momento como aquele”».

Helen Rappaport já pusera em claro contraste os revoltosos de 1905, «“exultantes e místicos”» (p.62), e os «realistas» (id.) revoltados de 1917 – endurecidos pelos rigores da Primeira Grande Guerra, as condições de crescente miséria e injustiça que estrangulavam Petrogrado. Quando chega o tempo de analisar as duas revoluções, a dissonância não é menor. Se a primeira poderia ser representada na «moderação» de uma figura como Kerenski, a derradeira vê-se simbolizada por dois elementos irmanados: a palavra «bolchevique» e a pessoa de Lenine. Focando a sua atenção nos acontecimentos políticos que se seguiram à revolução de Fevereiro, a historiadora formula a seguinte descrição:

«Todos os membros do Governo Provisório, excepto o socialista Kerenski, pertenciam às antigas classes dos industriais ou dos proprietários fundiários, um facto que Kerenski tivera dificuldade em coadunar com os seus princípios políticos. Em breve se tornou evidente que, em virtude das suas inclinações esquerdistas, Kerenski era o único membro do Governo Provisório com possibilidade de ter algum peso junto do Soviete (de cujo Comité Executivo foi nomeado também vice-presidente). Com efeito, Kerenski – que aderira ao Partido Socialista Revolucionário em 1905 e fora eleito para a Duma em 1912 – trabalhava arduamente para manter um pé nos dois campos.» (p.155)

De modo significativo, dir-se-ia mesmo simbólico, a apresentação de Lenine é marcadamente diferente. Ao passo que Kerenski é apresentado como alguém que surge no seio da antiga Rússia, reconhecível, compreensível, Vladimir Ilyich Ulyanov surge como uma presença totalmente diversa, quase alienígena – «“Caramba, está ali um tipo fantástico do outro lado da Ponte Troitski”, disse um residente inglês entusiasmado a Negley Farson, num dia do início de Abril.» (p.180) Aliás, como assevera Rappaport:

«A comunidade estrangeira de Petrogrado estivera pouco exposta às ideias de Lenine e era também incapaz de compreender a sua verdadeira cor política como bolchevique. Com efeito, era tal a confusão geral em relação a ele que amiúde era descrito tanto pelos residentes como pelos jornalistas como um “anarquista”, um termo que aplicavam sem mais nem menos a uma ampla gama de activistas políticos”. Para Sir George Buchanan, Lenine era apenas mais um “de um lote recente de anarquistas do estrangeiro” a chegar recentemente à cidade. Muitos suspeitavam de uma ligação aos Alemães: “Aquele horrível agente alemão, Lenine”, escreveu Lady Georgina para o seu país natal, convencida de que Lenine trazia com ele o perigo das “intrigas alemãs”. Os americanos também não sabiam bem como o interpretar: “Um socialista extremista chamado Lenine tem andado a dizer muitas coisas loucas e aconselhou os seus ouvintes a matarem todos aqueles que têm bens imóveis e se recusam a dividi-los”, anotou o embaixador Francis, que já estava preocupado com a possibilidade de Kerenski não ter a força necessária para lidar com ele.» (p.182)

A afirmação plena do espírito mais radicalmente revolucionário – e, sobretudo, da sua acção – ditaria, a breve trecho, uma mudança de paradigma, no plano da diplomacia, tal como os dignitários pré-revolução a conheciam. E a que os leitores deste livro podem aceder. Como lembra, com a precisão habitual, Helen Rappaport, citando o jornalista americano Arno Dosch Fleurot, «Lenine trouxera consigo a única coisa que, até então, a revolução não tivera: “proporcionara violência com uma doutrina”» (p.200). Ou, no floreado palavroso de Charles de Chambrun, diplomata e escritor americano:

«Adeus a todo aquele garbo, ao brilho das condecorações douradas, aos ardis da diplomacia, aos pratos sumptuosos, à libré tricolor, aos criados de mesa de cabeleira empoada e meias brancas. Adeus, belles lettres, aqueles telegramas “inteligentes” e frases pomposas e melodiosas! A simplicidade voltou para o nosso seio.» (id.)

Conforme lembra a historiadora, quase se poderia dizer que a preparação e os estágios intermédios, como os «Dias de Julho», foram mais intensos e, realisticamente falando, mais épicos do que a revolução de Outubro, propriamente dita. Na fórmula exacta e elegantemente concisa de Helen Rappaport:

«Após meses de alertas e predições, o esperado golpe bolchevique em Petrogrado, quando surgiu, não foi o ajuste de contas dos heróicos operários descrito pela historiografia soviética, mas mais uma capitulação exausta do Governo moribundo e virtualmente sem defesa de Kerenski.» (p.317)

No electrizante clima da tomada de poder pelos bolcheviques, o corpo diplomático, como a globalidade da comunidade estrangeira de Petrogrado, ficou numa situação especialmente volátil. Sir George Buchanan, que fora um dos nomes essenciais da diplomacia da cidade, era ameaçado e vilipendiado na imprensa bolchevique, apodado de «czar de Petrogrado» (p.341). O crepúsculo que cai sobre a diplomacia vinda do mundo anterior à realidade da revolução, chega sem garbo, previsivelmente. As últimas palavras resgatadas por H. Rappaport – antes de vistoriar o destino pós-revolucionário de personagens como Sir George Buchanan – são ominosas. Assinadas por Leighton Rogers, funcionário do National Bank americano em Petrogrado, elas sintetizam o sentimento comum àqueles cidadãos ocidentais em vias de se despedirem de um país que também fora seu, mas que já não existia, e de uma realidade cuja complexidade os transcendia:

«É terrível pensar no futuro da Rússia. Não só está fora da guerra como está fora do nosso mundo durante muitos anos vindouros. Talvez fosse melhor que nos convencêssemos disso e nos concentrássemos no nosso próprio combate.»

A realidade havia de se fechar sobre o novo país que se construiria, daí para a frente. O cenário de hostilidade e bloqueio já se adivinhava nestes últimos tempos russos, em que a diplomacia e a comunidade estrangeira foram forçadas a escolher novo destino. Entre o grande império dos czares – durante quase quatro séculos sob o domínio da dinastia Romanov – e a futura URSS cava-se um fosso. Diferentes noções de país e de relação com o poder as separam. Quanto aos que tinham uma relação circunstancial com aquele território – diplomatas, artistas, jornalistas, profissionais de vária índole – tornaram-se um dos elos mais fracos da vasta cadeia de acontecimentos. Tornaram-se, ao menos, um dos menos fáceis de sustentar e enquadrar. É este corpo complexo, com os seus códigos e práticas muito dependentes de um status quo que ruiria, que este livro estuda com afinco e desvelo. Apanhados pela Revolução constitui, pela abordagem que elege, um testemunho de enorme riqueza para uma nova leitura de um conjunto de acontecimentos que ajudaram a moldar a História do século XX. E a que não é alheio o tempo que vivemos.

Fotografia de artigo: Murdo MacLeod / the Guardian

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