António Tavares: “Não escrevi até aos 52 anos porque não ia acrescentar nada”

29 JUNHO, 2017 -

“Todos os Dias Morrem Deuses” passa-se no ano de 1953. Um jornalista português escreve, à sua maneira, o ano em que Estaline morreu e os Rosenberg foram executados nos EUA.

Abandonou a sua casa no Lobito no início de uma refeição. Perante a queda dos morteiros, o pai tomou a avisada decisão: “Não acabamos a feijoada e vamo-nos embora.” Veio com a família para Portugal durante o PREC. Maoista na sua juventude, é hoje vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz, pelo PS. Escreveu 20 peças de teatro, abalançou-se aos livros depois dos 50 anos. O seu novo romance começa pelo mistério de uma fotografia: quem era Malenkov?

Foi jornalista onde?

Eu tive um jornal na Figueira [da Foz] chamado “Linha do Oeste”, que se aguentou durante sete anos. Era um jornalzinho de cidade em que o diretor é proprietário e jornalista.

Um faz-tudo?

Sim, um factótum.

Tinha outra experiência jornalística?

Tinha colaborado num jornal nos anos 80 e em vários regionais, das Beiras e o “Diário de Coimbra”. Mas a fabricá-lo todo, foi essa experiência. Claro que não o fazia totalmente sozinho, mas fiquei foi com as dívidas todas. Mas havia muita gente a colaborar.

Como lhe surgiu esta ideia de um romance nos anos 50 a partir da pele de um jornalista?

A ideia deste romance surge porque eu me apercebo, não me recordo como, que havia um dirigente que tinha sucedido a Estaline, com o nome de [Georgy] Malenkov, que era completamente desconhecido da maioria das pessoas. Fui vendo e perguntei a uma série de gente se sabiam quem era o Malenkov, e ninguém sabia.

Provavelmente sabiam que nesse período houve uma liderança partilhada com Beria e Khrushchov, mas não se lembravam de Malenkov. 

As pessoas associam a sucessão do Estaline ao Khrushchov, e não conhecem Malenkov. Depois fui verificar nos manuais de história do ensino secundário e não há uma única referência ao Malenkov. Fiz pesquisas na internet e ele quase não aparece.

Isso não pode ser devido à normal ignorância histórica? Por exemplo, as pessoas não sabem que Estaline não sucedeu imediatamente a Lenine, houve uma altura de liderança partilhada que incluía, em disputa, Kamenev, Zinoviev e Trotski. Provavelmente, hoje, poucas pessoas conhecem o papel histórico dos dois primeiros. 

O personagem é um jornalista especialista em política internacional. Todo o noticiário de internacional tinha um grande destaque nos anos 50, uma importância que se manteve até ao 25 de Abril de 74. Os jornais, na época, abriam com as notícias de internacional. O personagem é despertado para a situação por causa daquela chamada “conspiração das batas brancas” [nome por que ficou conhecida a perseguição a um conjunto de médicos judeus que foram acusados, no final do período de Estaline, de estarem envolvidos na morte de líderes soviéticos]. Ele é atraído para o caso pela existência de duas mulheres: uma que denuncia os médicos e outra que é a única que até ao fim nega a acusação. Um dos motivos que me levaram a escrever foi esta ideia de como um país fechado que era Portugal [durante a ditadura] noticiava outro país fechado que era a União Soviética, em que se fazia um grande controlo da informação.

No entanto, o peso da ditadura no seu romance nota-se apenas episodicamente: quando, na tasca, o taberneiro tem medo das conversas de política; quando, no jornal, censuram uma notícia do vinho do Porto; ou nas indicações da censura na notícia do caso Rosenberg [um casal de comunistas judeus executados na cadeira elétrica, acusados de terem passado segredos atómicos à União Soviética].

Há mais uma menção, às eleições legislativas.

“Ganharam os do costume.”

Exatamente. Mas eu quis que o país estivesse ausente. O peso da ditadura sente-se pelo silêncio. Não se fala do país. Há apenas algumas referências. Agora é preciso dizer que o noticiário de política internacional era muito menos visado pela censura. Os acontecimentos eram muito distantes e, desde que isso não pudesse trazer implicações ou conexões com a realidade nacional, as notícias passavam. Há um momento que ele é alertado pelo chefe de redação para que a notícia podia parecer uma analogia com a situação em Portugal. Mas desde que isso não acontecesse, a maioria das coisas não era censurada.

Muitos censores não deviam sequer perceber. É conhecido o facto de a “Seara Nova” passar artigos de Marx assinados por “Carlos Marques”. Uma coisa que é interessante é que, para colmatar o hiato entre as realidades desses dois países, o seu personagem inventa.

Quando não se sabe, inventa-se. Mas ele também o faz porque se apercebe de que grande parte das notícias que se publicam no Ocidente, sobre a URSS, são notícias especulativas. São mais especulações que factos. Ele percebe que há uma margem de manobra que pode ser ficcionada. É isso que ele começa a fazer.

Ele cria verdadeiras histórias melhores que a realidade: quando uma das mulheres que foi presa foi libertada, ele faz uma notícia em que ela apanha o comboio para perdoar à sua denunciante. Como foi a investigação sobre esse período histórico na URSS?

Eu não fiz praticamente pesquisa sobre isso. Concentrei-me naquilo que os jornais portugueses escreveram, na época, sobre a URSS. Li, por exemplo, todas as notícias que foram publicadas no “Diário de Lisboa” do ano de 1953. O que eu queria era perceber como os jornais tratavam essa realidade, independentemente de saber que muitos dos factos não eram narrados como tinham acontecido. Eram escritos com o conhecimento concreto que na altura se tinha das coisas. Depois veio a saber-se coisas muito diferentes: nomeadamente, que o Beria tinha sido logo preso e fuzilado. Não andou desaparecido. Nem em Espanha nem, como ele inventa, veio cair na Nazaré.

Simultaneamente, há uma espécie de educação sentimental. O jornalista, que só tinha estado com duas prostitutas, começa-se a relacionar-se com outras mulheres. Há a figura de três mulheres e da mãe. 

A mãe representa, no livro, o mundo rural. Ele é um urbano que vem do mundo rural e tem alguma nostalgia da ruralidade. A mãe significa essa reminiscência e nostalgia, essa inocência e proximidade da infância. Ele é um tipo em crescimento e daí essa educação sentimental.

Agora, a chamada pergunta Baptista-Bastos: tinha que idade no 25 de Abril?

Tinha 14 anos (risos).

Para si, escrever sobre os anos 50 é como abordar outro planeta.

Sim. Eu nunca vivi no meio rural, mas o meu romance anterior a este, que foi Prémio Leya, passa-se numa aldeia da Beira Interior. Essa capacidade de mergulhar onde nós não estivemos é também um desafio. Eu tento perceber os pequenos pormenores, entrar, perceber os cheiros. No fundo, é uma viagem quer no espaço, quer no tempo. A ruralidade é toda muito oferecida pela própria ambiência da paisagem.

Voltando ao 25 de Abril, você agora é vereador do PS na Figueira da Foz. Provavelmente, aos 14 anos não era socialista…

Era ultrarradical, era maoista. Não tinha nenhuma organização particular. Mas o meu pensamento ideológico era virado para o maoismo.

E de que se lembra desses tempos?

74/75? Eu venho de Angola em 1975, de modo que vivi-os de uma forma diferente de cá. Eu vivia no Lobito. Aquilo a que assisto é ao regresso dos guerrilheiros da mata para as cidades, a tentativa de conciliar as diferentes fações, já com um clima de tensão muito forte. E, depois, o início da guerra civil. Ainda apanho as primeiras escaramuças e já a guerra a sério.

Aquilo era uma zona com muita presença da UNITA?

Era uma zona da UNITA, mas o partido de Savimbi perde a primeira batalha pelo controlo da cidade do Lobito. A UNITA e a FNLA são ambas expulsas da cidade. Eu tinha o azar de morar num bairro onde a UNITA tinha um quartel. Fomos altamente fustigados por morteiros e bazucas durante duas semanas.

E foi nessa altura que a família decidiu sair.

Um dia estávamos a almoçar uma feijoada e o meu pai disse: “Já não comemos a feijoada, vamo-nos embora.” E assim foi, fugimos debaixo de fogo. E deixámos os pratos, que quando voltámos estavam cheios de bolor. Ficámos duas semanas refugiados. Felizmente fomos viver para casa de uma pessoa que tinha barcos de pesca. Não tínhamos nada que comer, mas felizmente descobrimos uma arca frigorífica carregada de lagostas e sapateiras. Durante duas semanas, foi isso que comi.

Não enjoou da lagosta?

Enjoei. Eu e outros miúdos que lá estavam dizíamos: “Não, outra vez sapateira. Outra vez lagosta, que chatice.” Depois vim pela ponte aérea e quando cheguei cá encontrei um país em polvorosa.

Normalmente, os chamados “retornados” chegavam a Portugal com posições muito de direita, como reação pendular a terem sido obrigados a sair dos países onde até então tinham vivido.

Não foi o meu caso. Quando cheguei cá, vim viver para Gaia. Lia umas coisas. Tive um professor de História que me influenciou bastante. Era um homem de esquerda e tinha um carisma muito forte. Construiu uma turma de maoistas.

Maoista, e fica em Gaia até quando?

Estou lá até ir para a Faculdade de Direito de Coimbra, em 1979. Apanho a universidade numa fase muito interessante, que é a do fim do luto académico e o renascer das tradições académicas. Na cidade ainda há muita resistência e contestação, por parte das repúblicas e das comunas estudantis, em relação à retoma da praxe e à institucionalização do fado de Coimbra. Houve até manifestações com confrontos com a polícia de choque. Ainda apanho dois anos dessa fase de transição. Os estudantes chegam a ocupar a universidade durante dois dias.

Chega a exercer como advogado?

Sim, acabo e faço o estágio para a advocacia. Mas depois não me dei bem, descobri que não tinha jeito para ganhar dinheiro como advogado. E acabei de ir para o ensino. Era professor de Economia e Direito. Depois fui para os Açores e lá estive sete anos. Regresso em 1993.

A escrita começa nos Açores?

Eu já escrevinhava umas coisas nos tempos de Coimbra. Começo a colaborar com a imprensa ainda durante a faculdade. É também ainda a estudar que escrevo a primeira peça de teatro. Tenho cerca de 20 e tal peças escritas. Durante muitos anos escrevi fundamentalmente para teatro. Nunca me abalancei para escrever um romance porque achava que não ia acrescentar grande coisa ao que já havia. Precisava de alguma maturidade, de maturar a escrita, mas precisava sobretudo de vida. Depois, devido a insistência de amigos, em 2013, durante duas semanas de férias coloquei no papel algumas coisas que tinha na cabeça. Depois pensei que tinha 52 anos, não podia andar de editora em editora a tentar que me publicassem o livro, e decidi mandar para o Prémio Leya, pensando que com um bocadinho de sorte me editavam o livro. O valor do prémio era apetecível. Fui finalista em 2013 e em 2015 ganhei o prémio. Este romance, “Todos os Dias Morrem Deuses”, foi escrito entre o primeiro, “As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia” e o último, “O Coro dos Defuntos”, mas só o publiquei agora.

Escreveu em quanto tempo, este?

Já demorou uns meses. O outro estava todo pensado. Foi só passá-lo para o papel. Agora demoro mais tempo.

É o peso da responsabilidade (risos). Correrem bem os primeiros torna mais difícil o que se segue.

Exatamente. Tenho receio de cometer alguma leviandade.

Ser vereador e vice-presidente da câmara não lhe mata a escrita?

Mata. A vereação mata porque é bastante exigente. Eu assino todos os dias vários baús de documentos. E, embora seja um trabalho mecânico, é absorvente. Tenho um problema: depois de maturar qualquer coisa na cabeça, preciso de passar urgentemente à escrita, senão isso absorve-me demasiadamente.

Não escreve diariamente, faz por empreitada?

Eu vou escrevendo diariamente, mas depois preciso de uma empreitada para acabar o que comecei. Há um momento em que tenho de finalizar. N’“O Coro dos Defuntos” sabia que tinha um prazo e adotei um sistema em que me levantava às tantas e escrevia até ir trabalhar. Este livro, escrevi-o todo à noite. Depois de sair da câmara, às 23 horas, meia-noite, ainda ia escrever.

A propósito de “Todos os Dias Morrem Deuses”, em que se tocam três realidades: o fim do estalinismo, os Estados Unidos na Guerra Fria e a ditadura portuguesa, que balanço faz dessa época?

Eu acho que o livro mostra que, em muitos aspetos, os regimes dos EUA e da União Soviética tinham comportamentos similares e não respeitavam os direitos humanos. O que se pretende mostrar ali é essa tensão crispada provocada e que provoca a delação. Esse clima de tensão e de insegurança permanente vivia–se tanto num lado como no outro, embora os EUA fossem uma sociedade mais aberta.

É possível analisar Estaline para além da propaganda e da demonização?

Ele interessa-me sobretudo como personagem literária, essa ideia de Estaline como um homem frio e um homem de aço [Estaline é um nome de guerra que quer dizer homem de ferro], do tipo que era extremamente duro com os outros. O que se vê naquele filme da Fanny Ardant, “O Divã de Estaline”, leva as coisas à caricatura e vê-se até que há determinadas coisas que não poderiam ser assim. Ninguém vive assim. A mim interessa-me perceber que ele era também um homem frágil, há momentos em que isso é muito notório: o defeito físico que ele tinha, o ser baixo e atarracado, uma enorme insegurança. Julgo que, muitas vezes, ele procurava colmatar essa fragilidade com a dureza do regime. Embora seja notório que o regime só se conseguia aguentar perante as condições existentes e a hostilidade internacional se tivesse muita dureza.

Está a escrever um outro livro?

Eu tenho um romance escrito que tem de ser trabalhado, que é sobre o pintor modernista Mário Eloy, que esteve internado no manicómio [Casa de Saúde] do Telhal entre 1945 e 1951.

Onde estiveram homens como o poeta António Gancho…

Estiveram poetas e artistas, até o Stuart Carvalhais. Como é óbvio, não se sabe como viveu Mário Eloy de 1945 a 51, ano em que vem a morrer. O romance fantasia isso através dos desenhos que lá fez. Ele tinha deixado de pintar, sofria de movimentos involuntários e não conseguia sustentar os braços, mas conseguia desenhar. E eu peguei nesses desenhos dele e procurei reconstituir o que seria a sua vida interior, sempre com flashbacks à sua vida passada.

Como foi a preparação para escrever este livro?

Li vários livros sobre ele, o seu trabalho, li teses de doutoramento sobre o tratamento psiquiátrico nessa altura, quais eram os tratamentos. Há no Telhal uma figura muito interessante, que eu depois lhe dou alguma preponderância, que é o dr. José Cebola, que foi diretor do manicómio de 1912 a 1950. As casas de saúde mental estavam nas mãos da Igreja.

No caso do Telhal, continua.

Sim, da Ordem Hospitaleira. Mas anteriormente estavam quase todas nas mãos da Igreja. E o Afonso Costa, depois da instauração da República, coloca a dirigir essas instituições republicanos de rija têmpera. E José Cebola é um desses homens. É um homem que, não sendo um académico, e por isso nunca foi muito aceite pela classe médica como psiquiatra, era uma pessoa muito viajada que conhecia todas as novidades do tratamento psiquiátrico no estrangeiro. E é um homem que vai adotar novas metodologias de tratamento: contrariando o uso dos químicos e tratamentos em desuso, tenta coisas como a terapia ocupacional. Tem algumas obras escritas que eu também li, uma delas chama-se “O Diário de Um Louco”. Toda a vida do Mário Eloy é uma autêntica tragédia e eu pego na sua estada no manicómio, na vida amorosa dele, que é muito interessante – ele teve uma grande paixão pela Beatriz Costa; aliás, fugiram os dois durante as filmagens d’“A Canção de Lisboa”, para Madrid. Aliás, a Beatriz refere isso no seu diário. Ele era um miserável e um “teso”, que é a expressão que ela utiliza, e era ela que lhe comprava os pincéis e as tintas para ele poder pintar. Há quadros que retratam esse amor, que ele pinta com base nela, em que se pode perceber até porque ela tinha um corte de cabelo muito peculiar.

O meu avô tinha dois quadros do Mário Eloy, mas eram retratos de uma mulher de cabelo claro, não era a Beatriz Costa. (risos)

Deviam ser da Dora, uma alemã que foi mulher dele. Ele foi para Alemanha, onde fez muito sucesso. Não fazia muito dinheiro, mas foi o único estrangeiro que foi admitido no círculo de artistas de Berlim, e casa com uma alemã. Quando a guerra está para começar, ele vem para Portugal e ela fica lá, mas com o nazismo ela foge de lá. Mas eles separam-se de tal maneira que ele só está com o filho deles quando ele é pequenino, e só o volta a ver quando ele tem 18 ou 19 anos, quando já está internado e muito doente. É uma vida muito trágica. Entretanto estou a escrever uma história que se passa durante o PREC [processo revolucionário em curso], que decorre entre março e abril de 1975 e vai até às eleições de 1976. Apanha sobretudo a parte do Verão Quente.

Não acaba, portanto, a 25 de Novembro?

Interessa-me fazer esse crescendo até ao 25 de Novembro, mas não sei ainda onde vou acabar o livro. A ideia que eu tenho é pegar num tipo que vem de África e que vem cá parar. Chega num momento que isto começa a aquecer. Vem fugido de uma guerra civil e acaba por cair num país que está à beira de outra guerra civil.

E esse personagem aparece no meio da grande confusão?

Ele vai trabalhar para um quilómetro de autoestrada, uma espécie de não lugar, num país que ainda está à procura da sua identidade, também é uma espécie de lugar que ainda não sabe onde vai estar.

As coisas chegam como eco?

Chegam como eco, mas também vão chegando, porque há sempre esses ativistas que lá estão ou passam.
E também não havia muitas autoestradas, de modo que não devia ser assim tão longe das coisas que se passavam.
Os primeiros ameaços de autoestrada começam a ser feitos nessa altura. Mas isso serve de metáfora do próprio país, um país que anda à procura do seu lugar no mundo e da sua própria identidade. Um sítio destes é um local onde há sempre pó e há sempre uma névoa constante. Depois é a tentativa de o personagem se encaixar e perceber onde está e onde se quer meter. É também uma visão distante e com humor da explosão da altura.

Entrevista de Nuno Ramos de Almeida, publicada no nosso parceiro jornal i
Fotografia de João Biscaia

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