António Reis: “Eu não voo, ando: quero que me oiçam”

12 JULHO, 2017 -

Meio século depois, a Tinta-da-China recupera uma das obras de culto da poesia contemporânea portuguesa. “Poemas Quotidianos”, do poeta e cineasta António Reis, faz regressar ao nosso convívio uma voz que precisou de apenas cem breves poemas para falar a essa altura em que todos podem ouvi-la claramente, mas que se fixa em nós como um segredo.

Os que gostam de poesia estão habituados a conhecer alguns nomes maiores desta língua por fotocópias. Era o caso de António Reis, como foi o de Manuel de Castro, e persiste sendo o de uns mais, como João Pedro Grabato Dias. Às vezes, algum antigo exemplar ainda dá à costa, mas exceptuando as miraculosas desatenções nas feiras de ocasião, os alfarrabistas estão avisados e os preços que lhes fazem deixam-nos ao alcance apenas dos coleccionistas. Acontece assim atravessarem em segredo décadas, trocados como senhas, até que alguma iniciativa editorial promova o resgate, ultrapasse as trapalhadas com herdeiros, vendo-se estes restituídos por uns tempos a um convívio mais geral.

Ultimamente, a cópia que mais circulava dos “Poemas Quotidianos” e nos chegou às mãos, resultou de uma digitalização do exemplar dedicado por António Reis a Miguel Torga, o “Mestre – com quem precisaria de conversar numa longa vida”. É da edição de 1967, publicada naquela que era, à época, a mais prestigiada colecção de poesia – “Colecção Poetas de Hoje”, da Portugália Editora. Coube agora à Tinta-da-China, na colecção coordenada por Pedro Mexia, a tão aguardada reedição, meio século depois, e mais de um quarto de século volvido sobre a morte do autor. Reis não chegou a viver uma longa vida, morrendo pouco depois de completar os 66 anos, mas a exemplaridade da sua breve obra, seja enquanto poeta, seja posteriormente no cinema, não tem deixado a sua “figura luminosa” apagar-se na noite que tão cedo se faz para quase todos os que apresentam ao carimbo final um passaporte português.

Ninguém contava com a morte dele, não houve notícia senão no dia seguinte, e muito breve, num só jornal. Muito poucas pessoas estavam assim junto a ele, no funeral. O crítico de cinema, admirador confesso e amigo, João Mário Grilo faria um desabafo a propósito desse dia perto do fim do verão de 1991: “Chocou-me ver como é que se morre tão sozinho. Foi a enterrar com os amigos, o que também é bonito, mas não sei… O Reis merecia mais, foi alguém de quem todos nós fomos testemunhas. Acho que o país lhe deve muito mais do que ontem lhe pagou. O mundo da cultura esteve um bocadinho ausente e não senti a presença dos órgãos de representação pública”.

Depois vieram as reações com o atraso próprio do desastre na intimidade de cada um, veio a consciência daquela perda, e logo ganharam mais razão àqueles tão simples e ecoantes versos de Reis: “Verás amor/ verás que/ o coração/ não morre/ que tanta comoção/ atrás dele/ corre”. Uma das mais tocantes despedidas chegou no sétimo dia da sua morte, escrita por Eugénio de Andrade, que trocava de rosa para deixar a Reis esta homenagem: (“Morte Quotidiana”) Recorto a tua morte no jornal;/ meto-a num livro teu/ já antigo; a desmesura do olhar/ junta-se agora ao silêncio/ para a derradeira memória/ de ti: poesia eriçada,/ irmã dos cardos, rasteira.”

Noutro poema, o mais breve de entre a justa centena desta reunião que agora nos é devolvida, o poeta assumia esse seu passo tão detido, ao rés dos dias, entre as coisas que, de serem propriamente nomeadas, respeitando o espaço de cada uma, tão rapidamente nos colocam perante um lugar e uma experiência. Dizia ele: “Eu não voo/ ando// quero que me oiçam.” E Jorge Listopad repetiu-lhe os primeiros dois versos, antes de despedir-se: “Adeus, anjo pedestre, anjo autodidacta.”

A edição que a Tinta-da-China agora nos traz, no que toca aos poemas de António Reis, nada adianta à edição da Portugália, presumindo-se assim que nada mais se encontrou no espólio do autor, nada senão os poemas escritos ao longo de uma década (1952-1962), no Porto. Havia a esperança de que uns poucos mais pudessem juntar-se-lhes, porque é sobretudo “quando o silêncio tem pó/ e é perfeito” que o anseio de outra palavra se torna mais forte.

De resto, no depoimento de Paulo Rocha vindo a lume no “Jornal de Letras”, o cineasta lembrava-se de ter pedido ajuda a Reis quando traduziu do japonês uma série de 50 haiku – publicados na Moraes em 1970 -, e de como essa colaboração reanimou o impulso para que retomasse os versos. “Pedi-lhe ajuda para ‘limpar’ o texto. Não sei escrever em português, caio sempre em literatices falsas. Foi um trabalho de meses, as melhores aulas que tive na minha vida. O António sentia o peso de cada palavra, de cada sílaba, fugia aos efeitos. Por influência dos haiku o António recomeçou a escrever poesia, lembro-me de ele me recitar um quase haiku belíssimo, uma cena de matança. Era sobre a neve a cair no prato, onde coalhava o sangue do porco. Onde estará este poema? Havia outro, misterioso, dedicado a um olmo. Perdido também? Começou a estudar chinês, apaixonou-se pelo Tufu, de quem eu lhe emprestei uma edição bilingue, comentada. Acabou por pôr o nome de Tufu a um grande mocho que vivia lá por casa em liberdade. O poeta chinês deve ter ficado encantado, lá no assento etéreo.”

Assinalam-se 90 anos desde o nascimento do poeta e cineasta no final do próximo mês, e é significativo como, para lá da sempre confitada imagem que se retira das notas biográficas, é pelos testemunhos dos amigos, nas evidências do companheirismo, as situações e episódios que se incrustaram na memória dos que com ele conviveram, que ainda hoje a figura de António Reis impõe a sua presença e também fascínio.

Para estancar a ausência, deve destacar-se o aparecimento há uns anos de um simples blogue, que mantém até hoje o maior dos despojamentos, e onde se reuniu um precioso arquivo, que inclui uma série de artigos e reportagens, entrevistas, críticas, depoimentos ou ensaios que, ao longo dos anos, foram dedicados a Reis e à sua obra. Com alguns dos seus poemas pelo meio e a chamada de atenção para as bóias atiradas para o meio deste naufrágio, a generosidade deste trabalho de António Nunes da Costa Neves foi o maior contributo para suprir a grave falha de memória que atirou Reis para a galeria dos nossos marginais que, afinal, até fizeram tudo para ser ouvidos.

O site foi servindo de rastilho para aqueles que chegaram tardiamente à obra e acolhido com alegria pelos admiradores a quem foi dada uma oportunidade de o recordar. Foi ali que pudemos descobrir o arrebatador depoimento de Manuel António Pina (MAP), publicado depois da morte de Reis nas páginas de uma dessas revistas que hoje não há, perdendo a realidade expressão, sobretudo no que nos é mais local, “consequência do lugar” e da parte do mundo que nos toca e afecta, perdendo a sua própria sensação, por já não poder enfrentar o seu reflexo nem ouvir ecos seus… A revista chamava-se “A Grande Ilusão”, dedicado ao cinema, à arte, dirigida por Regina Guimarães, publicada no Porto pelas Edições Afrontamento. MAP fala dos anos em que ele e outros tiveram em António Reis um poeta mais velho, coisa hoje tão rara, pois se ainda os há, ou estão retirados, ermitados, virados para si mesmos e a pentear os últimos cabelinhos das suas obras, ou então lixados com tudo isto, destratados, marginalizados para que uns medíocres encham alguma divisão lá na casa de prémios e troféus de caça.

Andávamos com os ‘Poemas Quotidianos’ no bolso e partilhávamo-los avaramente, nos cafés e nas longas noites solitárias da adolescência, como um fogo comum, um sinal que nos identificava uns aos outros como membros da mesma tribo errante; éramos todos jovens, ou julgávamos que éramos, e acreditávamos, naqueles tempos controversos, que nos havia sido dado o dom de, pela poesia, compreender e mudar o mundo e a vida. António Reis não o sabia, mas todas as palavras que então possuíamos eram as suas”, lembra MAP. E fica aqui só o incentivo, uma vez que o relato é todo ele uma delícia e os contornos que dele despertam são tão vivos que a evocação se torna contagiante.

Isto passou-se anos antes de Reis deixar o Porto pela capital, para dedicar-se profissionalmente ao cinema, acabando a dar aulas na Escola de Cinema do Conservatório Nacional. Foi ali que teve Joaquim Sapinho como aluno no final dos anos 80, e é seu o posfácio da nova edição dos “Poemas Quotidianos”. É nele que nos conta o momento de terrível consternação em que Reis se deu conta de que não voltariam a deixá-lo filmar.

Abrindo com um prefácio de Fernando J. B. Martinho, que faz um excelente trabalho no sentido de contextualizar o momento em que surgem os dois livros de António Reis – “Poemas Quotidianos”, em 1957, e “Novos Poemas Quotidianos”, em 1960, ambos “editados sob a égide de Notícias do Bloqueio, uma publicação do que habitualmente se considera uma segunda fase do neo-realismo” -, o depoimento de Sapinho com que o volume encerra dá-nos mais algumas peças, num intrigante puzzle em que se descortinam as dificuldades que impediram António Reis e a mulher, Margarida Cordeiro – com quem co-realizou as longas-metragens “Trás-os-Montes” (1976), “Ana” (1982) e “Rosa de Areia” (1989) – dessem seguimento a uma tão singular aventura no panorama do cinema português. Tida como “um exemplo contra a ditadura do cinema comercial”, António Cabrita citava José Bogalheiro, chefe de produção e também ele professor da Escola de Cinema, que notava como “[o] silêncio dos meios de comunicação sobre a morte do Reis é um sintoma das novas maiorias. Mesmo em termos de vazio que ele deixa na Escola é um lugar impreenchível. O Reis era um representante de um cinema minoritário e tinha uma poética que entre os alunos provocava adesões”.

Depois de ter-se estreado enquanto assistente de realização de Manoel de Oliveira (“Acto da Primavera”, 1962), e ter escrito diálogos para Paulo Rocha (“Mudar de Vida”, 1966) foi com a curta-metragem “Jaime” (1974) que Reis abriu uma brecha e tornou de imediato o ambiente mais respirável, retratando o caso de um pintor, dado como doente mental, mas que se revelava, afinal, um génio pela forma como, liberto dos habituais constrangimentos da lógica, se punha a recriar pictoricamente o universo. João César Monteiro viria a elegê-lo como “um dos mais belos filmes da história do cinema”.

Nascido em Valadares, uma pequena aldeia nos arredores de Vila Nova de Gaia, António Reis tinha a infância e adolescência metidas com a gente que perde a identidade para as exigências do quotidiano. Nunca pôde ou quis assumir a distância que lhe permitisse ter o “povo” como uma abstracção ao serviço de elegâncias retóricas, de provas de sensibilidade social no concurso dos modelos artísticos que mandavam aproveitar este ou aquele vento. Era ainda operário fabril quando os primeiros poemas lhe surgiram, e Paulo Rocha lembra como carregava os estigmas das existências à beira de não terem nada de seu, nada senão as horas dos dias indiferentes, exauridas. “Humilde, humilhado, secreto, vegetava nos escritórios da Vista Alegre, em Gaia. Odiava a arrogância de um patrão marialva e acompanhava de perto o fluir da vida comum. À primeira vista parecia um operário. Morava num apartamento em Gaia com vista para o rio. As paredes estavam cobertas com bonecos de pano de todas as cores, feitos pelos loucos de um asilo. Os bonecos eram monstros de várias cabeças e muitas pernas, e anunciavam já os desenhos de Jaime. Naquelas janelas que davam para o nevoeiro do rio havia uma energia irracional, um sopro vital à beira do abismo.

Só um poeta que atravessou a banalidade, não se recusou à sua vertigem e até horror, só um poeta que perdoou a vida e se reconciliou com ela, aprendeu a comover-se com as minudências, alguém que descobriu que o segredo passa por precisar de muito pouco para sentir a diferença… “Um espaço interior/ criei/ nestes poemas// onde estalam os móveis/ e os sentidos// onde as ideias/ a meia-luz/ respiram// e a vida/ as imagens/ não se reflectem/ só/ nos vidros”. Ou, então, este outro exemplo, com mais multidão dentro: “Hei-de entrar nas casas/ também/ como o luar// A ver as faltas de roupa interior/ e de cama// os rostos preocupados/ com os avisos da luz e da água// com a máquina de petróleo apagada/ jornais nas paredes/ e um pássaro na varanda/ a cantar/ ao lado de uma flor”.

Tão difícil uma ou duas palavras por verso ocuparem a vista inteira, e a memória afectiva, os lugares onde estivemos, e esses outros que, de tão comuns, nos esmagam. Em tudo o que Reis escreve há o sabor de últimos poemas, poemas desgraçados de amor e o resto.

Tinha havido já outros livros antes de “Poemas Quotidianos”, mas a diferença destes, a sua radical clareza, o prodígio da sua concisão, levou a que o poeta apagasse da sua bibliografia tudo o que estava para trás. Depois de 1962, o silêncio das décadas seguintes viria sublinhar o rigor daqueles versos. A edição que hoje nos devolve os cem poemas da tão redonda conta de Reis deixa pelo caminho um dos mais impressionantes e vigorosos ensaios que se escreveram sobre um poeta português. O volume da Portugália era antecedido pelo longo estudo de Eduardo Prado Coelho, que, de tão exaltante, talvez incorra no perigo de exigir demais dos leitores que se preparam para entrar num convívio com um poeta cujas subtilezas só com os anos, a vida, as visitas feitas de tempos a tempos poderão explicar como esta simplicidade se desdobra, como este era um poeta que tinha falado cada coisa depois de rodeá-la muitas horas calado.

Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinadamente repetidos, feito de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos”, referia Prado Coelho, acrescentando: “E cumpre-nos apontar a coragem de António Reis. Porque há coragem em suportar e assumir a ambiguidade da poesia quando tudo a torna impossível: poesia é sempre sinal de que há algo de supérfluo (e por isso é natural, é já natural uma palavra desviada da sua utilidade imediata) e sinal de que algo nos falta (e por isso não nos basta, ainda nos não basta a palavra essencial, reduzida ao seu valor prático). Ora a poesia a que estamos acostumados, reconhecendo embora a existência desta tensão inevitável, acaba sempre por escolher o pólo do supérfluo (mesmo que seja para declarar o seu remorso): é poesia feita de palavras escolhidas entre palavras, é poesia da fala humana e criadora.

Texto de Diogo Vaz Pinto, publicado nosso parceiro jornal i

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