Antevisão do FEST com o produtor Fernando Vasquez

14 JUNHO, 2017 -

Centenas de participantes de vários pontos do mundo, dezenas de profissionais da indústria cinematográfica e uma seleção de filmes de quarenta países diferentes juntam-se de 19 a 26 de Junho, em Espinho, para a 13.ª edição do FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema. A uma semana do início do evento, o programa preliminar já é conhecido e a CCA falou com Fernando Vasquez, produtor, acerca das particularidades do festival e desta décima terceira edição. O novo prazo para a compra de passes termina dia 15 de Junho.

Há 13 anos atrás, o festival surgiu com o único objetivo de promover cineastas e as suas obras, limitando-se à produção nacional: “Aos poucos foi-se internacionalizando e, à medida que a organização foi amadurecendo, o evento também”. Passou a ser ”uma plataforma pedagógica e de financiamento de novos talentos” e em poucos anos tornou-se “um dos maiores eventos do género”. Fernando Vasquez diz que o salto aconteceu com a criação do Training Ground, a “secção dedicada à troca de experiências entre alguns dos maiores profissionais da indústria cinematográfica internacional e centenas de participantes vindos de todo o mundo.

O FEST é um festival informal e aberto. Destina-se aos que querem “consumir cinema e aprender como se faz” e esforça-se por criar “as condições ideais para o networking à grande escala”. Em 2016 quebrou-se um record há muito ambicionado, com a presença de quinhentos participantes. Tudo indica que este ano irão ultrapassar esse número que faz do Training Ground, provavelmente, o maior fórum de cinema a nível mundial.” De salientar que o festival é extremamente internacional, com “cerca de 70%” de participantes estrangeiros, o que permite “uma experiência diferente para a audiência local, que encontra no FEST um ambiente invulgar” dentro dos eventos nacionais.

Fernando Vasquez diz que a dimensão internacional que o festival adquiriu é fruto da promoção feita através de redes como a Nisi Masa – Rede Europeia de Cinema Jovem, da realização de eventos como a Festa do Cinema Português no Festival Internacional de Berlim, mas principalmente da satisfação de quem passa pelo FEST, “que frequentemente sugere o evento a outros profissionais.” O impacto é surpreendente: “Passamos bastante tempo a visitar outros eventos lá fora e reparamos constantemente que a nossa marca já tem raízes fortes, principalmente no contexto Europeu. Jornalistas e programadores seguem a nossa seleção com muita atenção todos os anos e utilizam-na como barómetro para perceber quais serão os grandes novos nomes do cinema. A nível das nossas secções de formação, são poucas as organizações capazes de apresentar um programa como o nosso, e talvez o elemento que mais se destaca como prova do sucesso e capacidade de atracão é o facto de grandes profissionais se proporem como formadores. O nosso problema hoje em dia é arranjar maneira de responder a todas as propostas que nos chegam.

O principal critério de seleção dos formadores não é a ressonância dos nomes mas as experiências relevantes que podem transmitir – “Não basta contar meia dúzia de histórias sobre como foi trabalhar com determinada estrela.” O segredo da qualidade do painel que apresentam e das formações dadas, diz o produtor, “está no relacionamento e discussão” que estabelecem com os convidados ao longo do ano.

Este ano, o Training Ground inclui masterclasses e workshops com cerca de 25 profissionais da indústria cinematográfica. Fernando Vasquez destaca “Edward Lachman, diretor de fotografia de filmes como As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola” e I’m Not There (2007) de Todd Haynes; Allan Starski, conceituado designer de produção de quase 45 filmes, “como A Lista de Schindler (pelo qual ganhou um Óscar)” e O Pianista (que lhe garantiu um César); e Ian Smith, produtor de Mad Max: Fury Road e vencedor de um Bafta. Ainda Melissa Leo, “vencedora de um Óscar para melhor atriz secundária por The Fighter“, e Gareth Willey, “um dos homens responsáveis pela vinda de Woody Allen para a Europa”.

Fernando Vasquez refere-se ao Training Ground como um “complemento ao trabalho das academias”, pela oferta formativa em áreas normalmente não abordadas nas escolas de cinema portuguesas. Somam-se as sessões de orientação do FEST – Pitching Fórum, que chega agora à 6.ª edição, onde “jovens cineastas podem procurar apoios para projetos futuros. A preparação de três dias, que se divide em grupos, possibilita a reescrita do argumento com o apoio de especialistas, culminando nas apresentações dos dias 23 e 24 de Junho, na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho. Os participantes expõem os seus projetos – na categoria de longa-metragem, curta-metragem ou documentário – a um painel de profissionais experientes em produção e distribuição, e habilitam-se a um de três prémios. O Fórum, por onde passaram mais de 100 projetos e que já resultou na produção de pelo menos cinco filmes, tem acesso limitado e está esgotado para esta edição.

O FEST é “uma plataforma privilegiada para o lançamento de novas carreiras” relevante no nosso panorama. A produção do festival continua a apostar na exibição de obras produzidas internamente, com a inclusão de “vários filmes portugueses na competição internacional” e “uma competição exclusivamente nacional”. Este ano, sete curtas-metragens competem no Grande Prémio Nacional, incluindo Balada de um Batráquio, de Leonor Teles, vencedora de um Urso de Ouro em Berlinale.

As secções de competição incluem ainda NEXXT, com 48 curtas-metragens selecionadas para a competição internacional de escolas; FESTinha, uma seleção de filmes infantojuvenis com 3 prémios do público, dividido por faixas etárias entre os 3 e os 17 anos; o Lince de Prata, secção dedicada às curtas-metragens de jovens realizadores; e o Lince de Ouro que integra primeiras e segundas obras. Este ano o FEST recebeu mais de 2500 filmes, “um número enorme e que requer um trabalho intensivo de programação”.

Fernando Vasquez garante um programa “com muito peso e muito provocador” e faz destaques de entre os selecionados para o Lince de Ouro. As you are, “de Miles Joris-Peyrafitte (vencedor do Prémio do Júri em Sundance), um filme que retrata os anos 90 como nenhum outro”. 8:30, uma obra experimental de Laura Naysmith, recheada de “um trabalho técnico absolutamente fenomenal”. Needle Boy, de Alexander Bak Sagmo, “provavelmente o mais provocador dos filmes que apresentamos este ano”. The Road Movie, de Dmitrii Kalashnikov, um documentário com grande sucesso no circuito festivaleiro internacional, “disfarçado de compilação youtube, que através de uma edição brilhante nos apresenta uma visão do verdadeiro carácter do povo Russo na era de Putin.” Park, de Sofia Exarchou, um filme na linha do famoso Kids de Larry Clark, que nos expõe a realidade desconhecida de um grupo de jovens a crescer nas ruínas da aldeia olímpica em Atenas”, premiado pelo Festival de San Sebastian. E The Invisible Hand, do espanhol David Macián, “uma alegoria sobre as relações laborais neste período de crise financeira”.

Park, Invisible Hand e também Caina, do italiano Stefano Amatucci, são parte do projeto Off the Wall Expanded: Across the lines, que chega a Portugal através da secção temática não-competitiva Be Kind Rewind. O projeto, que em 2014 uniu jovens realizadores em torno da reflexão sobre o passado e a nova Europa após a queda do muro de Berlim, contempla agora as mais recentes crises europeias, em obras difundidas por seis países (Estónia, Espanha, Áustria, Itália, Portugal e França). Cinema alegórico, de análise e debate social.

Ainda nas secções não-competitivas, Flavours of the World leva-nos a conhecer a nova cinematografia da Grécia e do Irão, “dois países que não param de lançar novas figuras para a cena internacional”.

É inevitável destacar o “regresso estrondoso” de Dome Karukoski ao FEST, depois de ganhar o prémio para melhor longa-metragem em 2009, com Home of the Dark Butterflies. Tom of Finland, a segunda longa do realizador, é o filme de abertura desta 13.ª edição. O filme tem vindo a acumular prémios desde a sua estreia no Festival de Gotemburgo. “Para o encerramento temos uma comédia hilariante, vinda de Espanha, que retrata  a confusão criada pela crise e austeridade, The One Eyed King, de Marc Crehuet, um filme ‘obrigatório’ e uma história que podia perfeitamente passar-se em Portugal.”

Os bilhetes para as sessões podem ser adquiridos no próprio dia, com a antecedência mínima de 10 minutos, no Centro Multimeios de Espinho.

A edição deste ano apresenta novidades. Por um lado, o FEST associa-se à competição Espinho Surf Destination na coorganização do FEST Surf, uma secção de “sessões de cinema ao ar livre, na praia, com vários filmes sobre surf”. Por outro, em conjunto com a Câmara Municipal de Espinho, a FESTival Village “transformará o centro de Espinho num núcleo de diversão e aprendizagem para crianças e adultos”, com uma série de atividades relacionadas ao cinema.

Preparar um evento como o FEST equivale a um ano de trabalho, por vezes mais: “temos já planeadas atividades para 2018”, diz Vasquez. A equipa base de 6 elementos multiplica-se à medida que o festival se aproxima. “Durante o evento teremos cerca de 80 elementos, entre equipa, colaboradores e voluntários.

O financiamento e estabilidade são garantidos pelo desenvolvimento de atividades que se estendem por todo o ano e pelos apoios do ICA, da Câmara Municipal de Espinho e do Casino Solverde, entre outras organizações.

Artigo escrito por: Inês Lebreaud

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