Andy Warhol: Um toque de Pop que mudou o mundo

22 FEVEREIRO, 2017 -

Passam hoje 30 anos depois do desaparecimento de um dos artistas mais influentes da segunda metade do século XX, um dos primeiros a implementar um estilo artístico que visava pontapear com a crise na pintura, utilizando novas técnicas e materiais como forma de expressar a arte. Andy Warhol é um nome que simboliza aquilo que é a Pop Art pela seu trabalho desenvolvido e por ser um dos grandes artistas que do mesmo modo a simbolizou. Os quadros feitos através de serigrafia, uma das técnicas promovidas e utilizadas nos quadros desta corrente artística, de figuras como Marilyn Monroe em diferentes tonalidades assim como os de Mick Jagger ou até de Lenine e Mao Tsé-Tung, os “clones” de Elvis Presley com revólveres, os auto-retratos que lhe deram ainda mais visibilidade, as embalagens de sabonete Brillo e de ketchup Heinz, os dólares americanos e os cifrões, as latas de diferentes sabores de sopa Campbell e as garrafas de Coca-Cola que sofrem uma constante multiplicação celular bem como os cartazes publicitários adaptados são exemplos de alguns dos quadros que imortalizam Andy Warhol. A arte tem que se adaptar muitas vezes aos tempos que correm, às mudanças sociais e não é fácil tornar a arte de fácil acesso para que todos aqueles que a contemplam a possam apreciar. Tornar uma arte de acordo com os padrões e os factores que têm influência directa na sociedade é um trabalho exímio e de difícil execução onde muito poucos o conseguem fazer, pois são inúmeras as maneiras diferentes em que a arte pode ser expressada.

Falar de Andy Warhol, passados 30 anos da sua morte, é muito mais do que falar apenas e só na Pop Art. É falar de alguém que através de diferentes modos conseguiu propagar a sua própria arte de maneira a que várias vertentes fossem assim influenciadas, adaptando-a a uma sociedade cada vez mais dominada pelo consumo e cujas exigências para com a arte, devido à intensificação da cultura de massas, eram cada vez maiores. Provavelmente, este é o grande fundamento que alicerça a Pop Art e que a mantém viva ainda hoje. O termo Pop é, como o próprio indica, referente àquilo que é à cultura popular, ao modo como em termos gerais a actual civilização se comporta, a todo um conjunto de movimentos culturais de uma era. Nos anos 50 e 60, reinventar uma arte que se adaptasse e seguisse as correntes da época parecia algo bastante complexo, até que artistas como Andy Warhol começaram a criar arte através de objectos banais, como embalagens, imagens publicitárias, excertos de slogans, etc.

Todo um misto daquilo que eram apenas detalhes de um mundo cheio de pormenores bem visíveis, um conjunto de pequenos fragmentos de um quotidiano submerso no imperialismo do consumo que se fora intensificando ao longo dos anos. Foi graças a estes detalhes que a Pop Art conseguiu ter um sucesso tremendo e através dos artistas que a levaram a bom porto, tornando-se num dos mais independentes estilos artísticos e movimentos culturais. A arte, tal como a ciência, por exemplo, requer que haja evolução de técnicas e procedimentos de modo a promovê-la. Se os recursos forem de fácil acesso, melhor ainda. Materiais como gesso, tintas acrílicas, poliésteres, e outros materiais simples provenientes da indústria foram muito utilizados nos tempos primordiais em que esta arte se começava desenvolver. É assim que a Pop Art teve e continua a ter o sucesso que tem, e grande parte do mérito deve-se ao ilustre Andy Wahrol.

Campbell’s Soup Cans (1962) – Os 32 diferentes tipos de sopa da Campbell em tinta polimérica sob tela

A figura de Andy Warhol só por si transmite logo à partida aquilo que de facto é a Pop Art: o cabelo em forma de vassoura, os óculos grandes e redondos que por vezes usava, o seu próprio vestuário ou mesmo até a sua maneira estar mostram o artista e arte num só. O estilo artístico estava tão presente em Warhol como Warhol estava tão presente neste movimento artístico. Nascido com o nome Andrej Varhola a 6 de Agosto de 1928 (embora existem incertezas sobre esta data), numa família de classe operária oriunda da Eslováquia, em 1945 entrou no Instituto de Tecnologia de Carnegie, onde se formou em design. Começou por profissionalmente se iniciar na ilustração comercial e logo desde muito cedo ser visto como um artista controverso. Trabalhando grande parte do tempo no seu estúdio no quinto andar do 231 East 47th Street, em Midtown, Manhattan, ao qual chamou The Factory, foi neste espaço onde deu vida às suas obras. Esta foi então a fábrica onde Andy Warhol projectou, executou e por conseguinte manufaturou a sua própria arte que não se resume apenas e só a pintura. Durante os anos 50 começou por desenvolver novas técnicas de pintura de modo a criar as suas próprias obras artísticas com métodos que nunca antes tinham sido usados, como a serigrafia. É graças a esta técnica que os quadros de Warhol ganham uma identidade única. Através de fotografias, pintou os famosos quadros das figuras que até já tinham algum Pop dentro de si. O caso mais conhecido são as famosas serigrafias de Marilyn Monroe, um dos maiores ícones de Hollywood de sempre. Daí, os anos 60 foram anos de grande projecção do seu trabalho e da própria expansão da Pop Art que, para Andy Warhol, não se resume só a pincéis e a telas. Para além de pintor, foi também fotógrafo e cineasta, o que faz com que seja um artista multifacetado, tendo também sido uma espécie de líder espiritual da banda Velvet Underground. O artista auxiliou, assim, a ilustre banda de Lou Reed, da qual tinha uma posição semelhante à de manager, tendo desenhado na capa do primeiro álbum da banda – “The Velvet Underground & Nico“- uma simples banana num plano branco, dando assim identidade a este trabalho que completará 50 anos neste ano.

Warhol tem também um vasto trabalho cinematográfico experimental, onde constam filmagens de curta e de longa duração. Chelsea Girls (1966) com Nico no papel principal, esta modelo e cantora cujo nome foi dado pelo próprio Andy Warhol (um anagrama da palavra Icon). Antes já tinha realizado Sleep (1963), onde filma o sono de seis horas do poeta John Giorno, e Empire (1964), que consiste num sequência de fotografias projectadas durante oito horas, exemplificando a filmografia experimental que Andy Warhol produziu. Entre 1966 e 1967, organizou uma sequência de eventos que acabaram por se tornar numa sequência de festivais da Pop Art, de nome Exploding Plastic Inevitable. Esta contou com a exposição dos seus trabalhos artísticos, fotografias e longas-metragens e, claro, com a actuação dos Velvet Underground juntamente com Nico, num espetáculo todo ele saído da fábrica (The Factory) por onde também vários artistas passaram e se inspiraram na magia da Pop Art.

Marilyn Diptych (1962) – Pintado semanas depois da morte de Marilyn Monroe em Agosto do mesmo ano

Mas afinal, qual terá sido o verdadeiro dom de Andy Warhol, um artista cujas obras mais célebres são pinturas das latas de sopa de diversos sabores e retratos de célebres figuras do nosso quotidiano? À primeira vista, parece algo absolutamente banal, mas, na verdade, o dom de Andy Warhol está em tornar os objectos e figuras mais banais à face da terra em objectos pop. Pegar em Marilyn Monroe ou em Elvis Presley e torná-los Pop à primeira vista é um tarefa bastante exequível porque são entidades que já apresentam um lado Pop. Mas pegar em meras latas de sopa que facilmente se encontram em qualquer supermercado ou mercearia em objectos Pop ou num líder político totalitário como Mao Tsé-Tung, cuja figura não é propriamente a mais elegante, numa figura Pop, é um dom que nem todos os artistas têm. A verdade é que, mais do que ser uma vertente artística, a Pop Art consegue transformar símbolos ou objectos que não sejam Pop. Para além disto, Warhol foi responsável por inspirar uma banda de Rock ao dar-lhes a veia artística necessária e por manter o seu estilo na história, projectando-o para o presente com vários artistas que o seguiram, sendo o principal Jean-Michel Basquiat, o artista que ganhou fama na utilização de sprays e na promoção da arte urbana. Só um grande artista consegue fazer tudo isto com o mesmo engenho.

30 anos depois de Andy Warhol nos ter deixado, a 22 de Fevereiro de 1987 devido a complicações após uma cirurgia, a sua arte continua bem presente na pintura, na música e no cinema. O consumo acabou por se render em parte à Pop Art, pois hoje temos um bocadinho desta em tudo, incluindo nos anúncios que forram os transportes públicos, nas capas de livros e de álbuns de música, nos cartazes dos festivais de Verão, nos ícones do ambiente de trabalho dos nossos computadores, nas simples imagens que vão passando nos ecrãs, nos emojis que enviamos por mensagem, nos graffitis que decoram as paredes dos prédios em ruínas, entre muitas outras. Se Andy Warhol estivesse hoje entre nós, teria muito mais material para retratar e inclusive se inspirar (n)um mundo que é cada vez mais dominado por uma ideia consumista, podendo dar asas e, com isto, abrir novos horizontes. A arte tornou-se assim mais simples e de fácil acesso. Tudo graças a um mero toque de alquimia saído das mãos e do espírito artístico de Andy Warhol.

 

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