André Breton, o surrealista

15 JUNHO, 2016 -

Muitos identificam a corrente artística do surrealismo como a criação do pintor Salvador Dalí. No entanto, o autor inicial desta página da história da arte foi o francês André Breton. Escritor, poeta e colecionador de arte, foi ele o autor do Manifeste du surréalisme (podes comprar o livro aqui), onde desenhou textualmente os contornos deste movimento e no que este realmente consistia. Para além desta atividade escrita, o gaulês contactou tanto com figuras artísticas como políticas, tais como Diego Rivera ou Leon Trotsky. Foi muito o que advogou e o que teorizou, dando o mote para que o surrealismo tomasse proporções… surreais ao nível de notoriedade. Esta é, nos dias de hoje, uma das correntes mais proeminentes no que toca à arte, tratando-se Breton de uma figura chave na preponderância assumida da mesma na atualidade.

André Breton nasceu no norte de França a 19 de fevereiro de 1896, mais concretamente na Normandia, na vila de Tinchebray. Filho de pais de modestas posses mas com preceitos católicos rigorosos, o jovem estudou medicina e psiquiatria (formação que viria a influenciar acentuadamente as suas conceções) nos tempos antecedentes à Primeira Guerra Mundial. Aquando do despoletar desta, o francês trabalhou na ala neurológica de tratamento dos feridos, apesar de também ter operado na artilharia do exército do seu país. A sua educação nunca foi alheia à literatura e à filosofia, sendo-lhe incutido, pelos seus professores, o apreço pelas obras de Charles Baudelaire e o contraste entre o positivismo progressista científico e o idealismo hegeliano, assente na libertação da consciência. A poesia tornou-se num canal de expressão subtil e natural na sua vida, com a qual Breton entrou em contacto com nomes da camada intelectual da sociedade de então, como Paul Valéry, Guillaume Apollinaire ou Alfred Jarry. Ainda em contexto bélico, o gaulês contacta com indivíduos que acabam por sucumbir a problemas mentais, vendo ele nessa loucura um estado a partir do qual se materializaria a arte, assim como a aventura e o sonho. Todos os nomes com os quais contactou então sustentaram uma postura de desdém com as tendências (quase dadaísta) e que se repercutiu nos anos vindouros. Com os amigos Louis Aragon e Philippe Soupault, produziu um livro de crítica literária denominada Littérature (1919). Casando-se em 1921 com Simone Kahn e movendo-se para a capital francesa em 1922, o seu apartamento na rua Fontaine tornou-se num autêntico armazém repleto de objetos culturais, entre eles pinturas, desenhos, esculturas, livros, fotografias, manuscritos, etc. O número destes superava as cinco mil unidades.

Com os seus supramencionados parceiros, Breton inventou o método de escrita automática na produção de Les Champs Magnétiques (1920), em que o objetivo passava pela criação de algo totalmente novo. Foi esta postura inicial, que eventualmente teria ramificações nas obras futuras, que apresentou os primeiros passos de uma forma de escrita em que o pendor se dirigia para a riqueza linguística do texto. Esta escrita automática era feita através do conceito fulcral do surrealismo, que passava pela orientação subconsciente da criação do texto e/ou da imagem e que, por ser tão livre e espontânea, se revelava automatizada. Duas posteriores obras da sua autoria viriam a consolidar a postura surrealista, sendo estas o Manifeste du surrealisme (1924 e 1929) e a revista La Révolution surrealiste (1924-29). A primeira viria a definir o que se tratava o surrealismo, sendo este “o automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, tanto verbalmente tanto pela escrita tanto por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. A orientação é dada somente por este, enquanto o controlo exercido pela razão se revela ausente e as preocupações morais e estéticas se tornam inexistentes.”. Neste par de manifestos, é ainda atribuído o destaque ao sonho e ao resultado da criação como a justaposição deste com a realidade em que o artista se insere, acabando por ser o metafísico a ditar as regras. A segunda exprimia essas linhas de pensamento em relação à sociedade, pelo que os contornos tomados pelas perspetivas dos autores se revelavam polémicas e incendiárias.

Não é o medo da loucura que nos forçará a largar a bandeira da imaginação.

Lançadas as bases nas quais o surrealismo se sustentaria e com um prestígio granjeado pelo trabalho efetuado, André Breton associa-se ao partido comunista francês, seduzido pelos ditames de Karl Marx e pelas ideias arrojadas do escritor Arthur Rimbaud. As viagens efetuadas pelo colecionador de peças de arte, subsistindo às custas das vendas que realizava com as mesmas, multiplicaram-se, destacando-se a realizada ao México em 1940. Aí, pode privar com Leon Trotsky, ilustre rosto da revolução bolchevique que o inspirou a seguir a causa socialista, e com o casal de pintores Frida Kahlo-Diego Rivera. Com este, o europeu compôs um novo manifesto designado Pour un art révolutionnaire independent, apelando à completa liberdade da criação artística e ao fim dos preconceitos que as diversas perspetivas artísticas perpetuavam. Para além disso, reforçou o papel revolucionário que um produtor poderia deter através do seu trabalho e o caráter diferenciador no que toca a desnudar as vicissitudes sociais e humanas.

No alvorecer da Segunda Guerra Mundial, o teórico alistou-se no corpo médico do exército gaulês mas viu-se forçado a emigrar para os Estados Unidos da América em tempos de anexação do país por parte das forças alemãs. Nesse período, redigiu um romance intitulado Arcane 17 (1944), em que o casamento das crenças políticas, dos hábitos surrealistas, dos interesses místicos e sobrenaturais e do pendor reflexivo da sua transata produção literária se dá numa cerimónia bastante subvalorizada, com muita simbologia à mistura. Dá-se a mescla de diversos estilos literários, com o lirismo poético e com a formalidade estrutural a estarem implícitas num trabalho onde se discorre sobre o amor, a guerra, o oculto e até o feminismo. Quanto a este último ponto, o autor profetiza uma sociedade igualitária no que toca ao género e exorta para a necessidade de esta se concretizar. No regresso, e já com a sua terceira esposa, não deixou de deter uma postura cívica ativa, colocando as visões que partilhava sobre o país e o mundo no papel. Foi também no pós-Segunda Guerra Mundial que se viu próximo do anarquismo, estabelecendo pontos de convergência entre este e o seu surrealismo. Foi nesta permanente adaptação sem nunca fugir ao surreal que viveu até ao dia da sua morte, 28 de setembro de 1966.

Uma palavra e tudo está salvo / Uma palavra e tudo está perdido.

Foi a reconquista da vida verdadeira que moveu a vida e obra de André Breton, tanto na formatura de intervenção surrealista como de poesia. No sonho, via as soluções que a consciência não lhe conseguia providenciar. No amor, identificava o reencontro do ser humano com as suas forças mais profundas e viscerais, estas que naturalmente se afirmariam numa quase materialização do sonho. Uma das problemáticas do seu raciocínio passa por responder assertivamente à crença na telepatia, na premonição e no acaso. O autor suga a perspetiva mística que lhe poderia estar subjacente e delimita este rol de conceitos ao materialismo e ao poder decifrador do homem. Numa vertente discursiva, o humor negro é um detalhe recorrente na prática surrealista, evidenciando os paradoxos do mundo e da sociedade e denunciando as antíteses que tanto lhe apoquentavam de forma sarcástica e corrosiva. Neste ponto, enquadra-se a preocupação de Breton com a assunção dos conceitos idealistas e dualistas pela parte do ser humano, de forma a que o mesmo se consiga reconciliar com o mundo e para que atenue a densidade de contradições.Pela sombra do surreal caminha André Breton, o seu principal teórico e caraterizador. Tal como a história possui o historiador e como a ciência possui o cientista, o surrealismo possui o surreal. Enquanto que as raízes do conceito de historiador e de cientista remontam ao desconhecido, as de surreal residem neste teórico francês. Fez das estrofes sonhos e dos manifestos as insurreições dos mesmos. Sem André Breton, não existiria uma das correntes artísticas mais relevantes no século XX. Sem André Breton, o sonho estaria ainda adormecido e perduraria ainda o velho paradigma em que o rigor e a certeza prevaleciam. Sem André Breton, poucas vias encontraríamos para dar um saltinho ao que há de surreal em nós. Na forma do amor mais puro e rarefeito e do sonho mais inocente e aventureiro se produziu a obra do subconsciente e o tubo de escape a uma realidade sempre exposta a ajustes e críticas. De forma surreal mas com muito de real, André Breton surgiu como o homem ideal para da arte fazer ponto cardeal.

Passarei a minha vida a provocar as confidências dos loucos. São pessoas de uma honestidade escrupulosa e cuja inocência só encontra um igual em mim.

Fotografia do artigo: Henri Cartier-Bresson

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