‘All Eyez On Me’: o Cristo do rap desce à terra dos mortais

22 JUNHO, 2017 -

Profeta, ativista, rapper e líder espiritual dos afro-americanos, ou galã e mafioso? “All Eyez On Me” olha para o lado negro da “thug life” e explora-o numa história com tiros, sexo, maços de notas e alguma poesia.

Há uma cena de “All Eyez On Me”, antes do assassinato a tiro, em que, depois de uma rixa, hesita entre o recato junto da namorada, Kidada Jones – filha do lendário produtor Quincy Jones, braço direito de Michael Jackson no histórico “Thriller” – e voltar para a noite com o segurança pessoal e o gangue da Death Row, editora liderada pelo empresário Suge Knight, que o resgatou depois de uma pena de 11 meses numa prisão de alta segurança por violação, sempre contestada. “É só uma hora”, promete. “E depois volto. Põe aquele vestido vermelho”, pica. E sai pela porta ansioso, a duvidar de si próprio. Do lado de dentro, a companheira suspeita dos planos de Tupac para os 60 minutos seguintes. Não mais voltará a vê-lo.

Nessa indecisão entre o amor e a revolta, o Tupac do cinema escolhe a segunda hipótese. Tal como “All Eyez On Me” segue a linha da “thug life” tatuada sobre os abdominais. E, aos 25 anos, morre como um gangster.

O filme tem um quarto de século para se inspirar, mas é na criminalidade que está a ação. Em tão pouco tempo, Tupac conquistou um lugar no panteão dos imortais. Nasceu no seio de ativistas dos Panteras Negras, cresceu a ler quando os outros meninos iam jogar basquetebol, ganhou sem esforço um papel como Hamlet na escola, foi saltimbanco entre Nova Iorque, Baltimore e a Califórnia de todos os sonhos e conflitos, entrou para agitar os Digital Underground, emancipou-se, vendeu milhões, conquistou platinas, sobreviveu a um baleamento, esteve preso, renasceu das cinzas, fundou uma editora e acabou assassinado.

Nem todos os manos são manos”, defendia Tupac que, depois de nos anos formativos ter assistido a ataques da polícia à mãe, ao padrasto e aos vizinhos de bairro em Nova Iorque, Baltimore e Los Angeles, experimentou o lado mau da fama quando uma discussão provocada por invejas territoriais sobre a carreira em ascensão enquanto rapper motivou um tiroteio. Uma das balas perdidas na multidão atingiu uma criança. O bebé morreu nos braços da mãe. Esse episódio ficou para sempre cravado na memória.

Na dúvida, “All Eyez On Me” abre fogo. Tupac foi o mais próximo que um rapper esteve de ser Cristo. E o mais distante que um homem está de ser santo.

As relações com figuras decisivas para a democratização do rap, como o produtor (e rapper) Dr. Dre e Snoop Dogg, são secundarizadas. A rivalidade com Notorious B.I.G. serve de rastilho para a exploração da guerra entre costa Oeste e costa Este. E se Tupac nasceu em Nova Iorque, foi na Califórnia que encontrou o amor. Ao ouvir “Who Shot Ya?”, de Notorious B.I.G., assume que o rapper de quem fora amigo e chegara a convidar para concertos já sabia da tentativa de assassinato. Quando se junta à Death Row de Suge Knight, o antigo segurança de Dr. Dre e empresário com ligações perigosas, declara guerra a Biggie Smalls e à Bad Boy, editora de Puff Daddy quando este ainda não tinha descoberto a mina do negócio dos perfumes.

Na cena a caminho da noite com Suge Knight, antes de ser alvejado, Tupac troca a cassete dos Outlawz, uma das bandas assinadas pela Death Row, e põe a tocar uma canção de “gospel do gueto”, uma outra forma de chamar ao r&b. “O que é isto? Tira esta porcaria”, reage Suge Knight. Tupac diz-lhe para abrir a cabeça a música exterior ao rap. Os dois riem–se mas, num pormenor de conversa, Shakur está a dizer-nos por que razão a sua obra foi tão aglutinadora e uniu comunidades.

Foi o lado de Messias, profético e mártir, voz de um povo mudo e megafone das ruas dos Estados (des)Unidos da América que precedeu o ícone. O poeta, ativista, rapper, visionário musical e ator ouve-se menos do que se vê.

O filme é também um espelho da afirmação do rap enquanto música mais influente para as novas gerações. Tupac ainda teve tempo para gozar os privilégios da fama, mas o êxito não veio sem uma fatura. A mais alta.

A narrativa linear condensa a vida desde o berço, quando a mãe, Afeni, esteve presa devido a ligações aos Panteras Negras, e, grávida, venceu a justiça em tribunal, até à morte do corpo. Obras recentes como “Straight Outta Compton” ou a série “The Get Down”, do Netflix, partem da música para explicar fundações sociais em momento oportuno. Nunca como hoje o hip hop foi uma cultura tão democrática. Nunca como agora o rap foi uma música tão ouvida, das ruas aos clubes e nas plataformas digitais.

“All Eyez On Me” opta pelo lado negro da fama e explora tudo aquilo que rodeou Tupac no período de ascensão ao estrelato, desde os tiroteios em que se envolveu, as rixas entre gangues, as mulheres com quem andou, as drogas, a noite, os egos e a luta pelo trono. Quando do julgamento por acusação de violação a uma rapariga que conhecera num clube, Tupac acusa o juiz de nunca o ter olhado nos olhos e, em vez disso, ter julgado as tatuagens e o conteúdo dos versos escritos e decorados pelos adolescentes de bairros, ruas e cidades.

A biografia visual de Benny Boom, um realizador de vídeos da cultura MTV para rappers como Diddy e 50 Cent, também prefere Hollywood a Marin City, comunidade situada na Bay Area, para onde se mudou vindo de Baltimore.

Foi o rapper a legitimar o ícone e a assegurar-lhe a vida para além da morte, mas “All Eyez On Me” é sobre a “thug life” do galã e mafioso. E o mito tira a vida ao ser humano.

Crítica escrita por Davide Pinheiro, publicada no nosso parceiro jornal i

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