Alice Cooper descobriu obra de Andy Warhol enrolada num tubo

25 JULHO, 2017 -

Em 1974, a modelo Cindy Lang comprou a Andy Warhol um exemplar em vermelho de “Little Electric Chari” para oferecer ao namorado, Alice Cooper, que durante 40 anos se esqueceu daquela obra, para só agora a reencontrar. O exemplar a atingir um valor mais alto foi vendido em leilão por 11,6 milhões de dólares.

Há coisas que se esquecem. Uma obra de Andy Warhol, por exemplo, pode bem passar 40 anos a ganhar teias de aranha, sobretudo nas mãos de Alice Cooper, que encontrou recentemente uma impressão de “Little Electric Chair”, enrolada num tubo, num armazém usado para guardar materiais das digressões da banda. Instrumentos, a cadeira elétrica que levava para os concertos no início da década de 1970, eletrocussões fingidas a que chegou a assistir Andy Warhol numa cadeira parecida com a que reproduziu nestas impressões integradas na série “Death and Disaster”, inspirada numa fotografia publicada nos jornais, em 1953, da cadeira da prisão de Sing Sing, em Nova Iorque, onde Julius e Ethel Rosenberg foram executados, acusados de conspiração pró-soviética.

Segundo contou agora Shep Gordon, manager de Alice Cooper, foi por essa altura que o músico se tornou amigo de Warhol, no icónico Max’s Kansas City de Nova Iorque. “Foi em 1972, o Alice tinha acabado de se mudar para Nova Iorque com a sua namorada, Cindy Lang”, contou ao “Guardian”, para acrescentar que foi uma dessas amizades quase predeterminadas. “O Andy era groupie, o Alice também, adoravam pessoas famosas. Então começaram a dar-se e adoravam sair juntos.

Terá sido contudo ideia de Cindy Lang comprar uma das telas impressas por Warhol em 1964. “Se bem me lembro, a Cindy pagou 2500 dólares pela obra”, contou ainda Gordon, a quem Mike Myers dedicou o documentário “Supermensch: The Legend of Shep Gordon” (2014). Ofereceu-a depois a Alice Cooper, que a guardou no mesmo local onde era guardado o material das digressões para não mais se lembrar dela. Até agora, quando há quatro anos, num jantar, a negociadora de arte Ruth Bloom lhe falou no valor que tinha atingido num leilão uma obra de Warhol, para Gordon se lembrar do presente de Cindy Lang de há 40 anos, ao qual tinham perdido o rasto. “Naquela altura, o Alice fazia dois discos por ano e no tempo que sobrava andava em digressões. Era o tempo do rock’n’roll, nenhum de nós pensava em mais nada. No fim disto, ele acaba internado por causa do álcool e troca Nova Iorque por Los Angeles.

Uma obra por assinar

O Alice diz que se lembra de ter uma conversa com o Warhol sobre a imagem e acha que a conversa foi real, mas não pode jurar que foi”, recordou ainda Gordon. Não se lembrava ele, lembrava-se a mãe. Não da conversa, da obra, que tinha ideia de ter ficado guardada entre o material das digressões. Pois estava mesmo, e o mais provável é que a conversa tenha existido mesmo. Gordon sugeriu então ao amigo que ficasse com a peça, que Alice Cooper voltou a guardar por, segundo conta, não querer ter uma obra de valor tão elevado em casa – apesar de entretanto ter reequacionado e tencionar expô-la na sua casa no regresso da digressão que está a terminar.

O exemplar de “Little Electric Chair” a atingir um valor mais alto até agora é uma versão em verde, também de 1964 (o ano em que Warhol começou a fazer esta série), que integra o “Warhol Catalogue Raisonné”, vendida por 11,6 milhões de dólares na Christie’s em novembro de 2015. Já a impressão em questão dificilmente atingirá valores tão elevados, visto não estar assinada, e a Andy Warhol Foundation ter interrompido os processos de autenticação em 2011, depois de uma disputa legal relacionada com um autorretrato pertencente à coleção do britânico Joe Simon, que perdeu o valor depois de ver o pedido de autenticação recusado.

Entretanto, Shep Gordon já pediu a Richard Polsky, especialista na obra de Andy Warhol, autor da adenda recentemente publicada ao catálogo raisonné oficial, que analisasse a peça, e Polsky acredita que se trate de uma impressão de 1964 ou 1965. Ouvido pelo mesmo jornal, o especialista diz estar certo de que se trata de um verdadeiro Andy Warhol. “Parece verdadeiro e a história faz todo o sentido. É difícil acreditar que uma obra do Warhol valesse tão pouco naquele tempo, mas 2500 [dólares] era o preço normal. Porque é que o Andy Warhol lhe teria dado uma impressão falsa? Ele tinha muitas e não eram fáceis de vender. Não eram decorativas no sentido convencional. É uma imagem brutal”, disse ainda Polsky, para Gordon completar que “a verdade é que, na altura, ninguém achava que aquilo tivesse grande valor”.

Artigo escrito por Cláudia Sobral, publicado no nosso parceiro jornal i

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