Al Berto e o medo

11 JANEIRO, 2017 -

Há 20 anos que Al Berto nos deixou nesta encruzilhada sem fim, mas com o legado da sua prosa e poesia. Al Berto foi um dos escritores que teve mais influência na literatura e cultura portuguesa na segunda metade do século XX. Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra em 1948, apesar de ter passado parte da sua infância e adolescência em Sines.

Vindo de uma família da alta burguesia inglesa, extremamente conservadora, cedo se destacou pela sua atitude divergente e sofisticada, provocando controvérsias dentro do seio familiar.

O artista mostrou precocemente uma grande sensibilidade artística, tanto na pintura como na escultura, frequentando a escola artística António Arroio em Lisboa.

Al Berto sempre foi muito mais ligado à parte plástica da imagem, na pintura, mas a paixão pela literatura cedo se entreabriu na sua mente e no seu coração. Sendo que, em 1974, ainda em Bruxelas, escreve o seu primeiro texto em português, “Epopeia antes da queda”. Até então expressava-se em francês, mas foi no português que mais se descobriu e revelou a criação de uma linguagem própria, lexical, metafórica e discursiva. 

Foi também aqui que usou pela primeira vez o seu pseudónimo Al Berto, estritamente relacionado com a divisão e transição entre o Alberto pintor e o Al Berto poeta, da morte para o (re)nascimento.

“(…) Senti necessidade de abrir a brecha com uma coisa que era muito minha e abri o nome ao meio, uma cisão num determinado percurso. Foi a maneira de não esquecer esse abismo (…)”

“Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.

eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose,

água, fúria, lucidez, cinzas. (…)” Excerto do poema “Atrium”

Al Berto segue algumas correntes literárias que marcaram também alguns dos seus textos, referências internacionais como Rimbaud, Baudelaire, ou mesmo William Burroughs. A literatura portuguesa também influencia as viagens de Al Berto pelas palavras e frases da sua poesia, inspirado em Camões, no tema do mar e da terra, em Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), na multiplicidade de seres e sentimentos, e por último em Cesário Verde, no dialogo sobre a cidade e sobre o que o rodeava. Não só de literatura vivia Al Berto, também trazia para os seus poemas a influência das artes plásticas e da música.

A poesia de Al Berto ganha bastante destaque pela ênfase de temas humanos que implicam o diário emocional de um homem à beira do medo: “Escrevo para não me deixar invadir pelo medo”.

O artista português tem diversos livros dedicados ao medo, medo este que se encontra por toda a parte do mundo e do humano. Dedica-se à desfragmentação de si mesmo em varias personagens excêntricas, metafóricas, que aplicam ao mundo uma noção dilacerante e perturbadora, como um jovem rebelde à beira do abismo.

Al Berto permanece no mistério da noite, do urbano e na inquietação de um pensamento que aflige, que tormenta e que não sai. Medo de ficar, medo de partir, medo de perder, medo do tempo, e assim partiu o poeta há 20 anos…

Hoje, num dia em que a memória volta, a solidão invade-nos lentamente, nesta permanência eterna, rodeada de  medos  em forma de poesia, narrada pela subtileza de uma voz que fica por aqui.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Em Março de 1997, o editor Manuel Hermínio Monteiro entrevistou o poeta Al Berto, a

“Al berto, as mãos nunca mentem” é este o nome oficial do primeiro filme sob

O realizador Vicente Alves do Ó inicia hoje a rodagem de '