Agora até na morte competimos

30 DEZEMBRO, 2016 -

Morreram os jogadores da Chapecoense e – bem – houve manifestações de pesar um pouco por todo o Mundo porque uma tragédia é uma tragédia. Não tem nacionalidade e muito menos fronteiras.

Há poucos dias um naufrágio de um barco matou uma equipa do Uganda juntamente com os seus adeptos e depressa se levantaram vozes. Por incrível que pareça essas vozes fizeram-se ouvir não por luto, ou por pesar, mas sim por ninguém falar desta equipa em oposição à situação da Chapecoense.

Há ainda menos dias faleceu Carrie Fisher, nome conhecido do cinema que se eternizou como a Princesa Leia de Star Wars. Entretanto, um dia após esta morte (2016 não dá descanso), faleceu a sua mãe, enquanto tinha de lidar com o funeral da filha. Debbie Reynolds, actriz, cantora, uma artista icónica que ficará para a história, entre outras presenças, por ter protagonizado ‘Singing in the Rain‘. Entre os habituais “posts” de luto encontro, aqui e no estrangeiro algo como “então, e da mãe ninguém fala? Só falam da filha?” ou “Eu conhecia a mãe, era bem mais importante”. Agora até na morte competimos do estilo “eu falo sobre as duas de igual forma, vocês não” enquanto se aponta um dedo.

Esta semana, numa crónica absolutamente certeira para o jornal Observador, Ana Markl, aquando da morte do cantor George Michael, comenta este “novo” fenómeno da seguinte forma: «É que, tal como há pessoas acham que pensar na fome em África é a solução para qualquer depressão, também há quem dite que não se pode chorar mais a morte de Prince do que a das crianças em Aleppo.» Nem mais. Cada um chorará por aquilo que bem entender. E mesmo que não fosse fã do músico sobre o qual acaba de postar uma música no seu mural, isso só a essa pessoa dirá respeito. Não é melhor que ela, nem menos egoísta, quem comentar contra esse acto única e exclusivamente para demonstrar uma qualquer superioridade moral (a não confundir com “mural”).

Em ano negro que significou também a morte de vários artistas musicais de relevo, ao mesmo ritmo das habituais postagens de vídeos musicais em forma de homenagem póstuma levanta, levantam-se frases de indignação sobre os mesmos: “Então, agora já toda a gente conhece/gosta do músico/a X/Y?”

Seria fácil, como sempre, culpar as redes sociais, fomentadoras deste tipo de situações. Mas a natureza competitiva não está nessas redes sociais mas sim em nós. Talvez seja aqui que os nossos instintos ficam mais primários por estarmos a contactar através de um ecrã. Somos nós que nos munimos do nosso ar mais julgador e sobre um post de luto a uma morte em concreto (ou colectiva, como as já mencionadas), se lembra de perguntar “então e as crianças em Alepo?”, “e as pessoas que morreram este ano no país X?”. Tristes atitudes, não há mortes que valham mais que as outras em plano abstracto, mas certamente que há mortes que nos custam mais ultrapassar; há mortes que nos marcam mais que outras. É normal, chama-se afinidade. Exigir igualdade de tratamento (até nisto!?) é absurdo. Muito mais absurdo é querermos demonstrar que até nisto somos melhores que outros.

O luto só a quem o pratica diz respeito, ponto. E é por isso que este apontar de dedo é triste, desnecessário e curriqueiro. Ninguém devia competir quando o assunto é a morte. É uma competição idiota onde já se sabe que quem chega primeiro perde.

A imagem de artigo é da autoria de @christhebarker / Twitter

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