Afonso Cruz de A a Z

8 OUTUBRO, 2017 -

São as letras todas do alfabeto para um breve dicionário que serve de horizonte a partir do qual se pode conhecer um pouco melhor um dos escritores portugueses que mais se impôs neste início de século

     de Alentejo. Afonso Cruz (n. Figueira da Foz, 1971), um dos nomes mais conceituados da nova literatura portuguesa, trocou a avenida Almirante Reis, em Lisboa, por um monte alentejano, inscrito na reserva agrícola nacional. Aqui produz, além da cerveja que bebe, ficções para Portugal e para o mundo. E aqui cultiva uma horta e um estilo de uma singularidade inequívoca. O Cultivo de Flores de Plástico(Alfaguara, 2013), a sua primeira incursão no domínio do teatro, tem lugar em meio urbano, na desolação de uma paisagem onde sopra o vento do abandono.

B      de banda. Além de escritor e ilustrador – com variadíssimos trabalhos em volumes para crianças (de José Jorge Letria, António Manuel Couto Viana, Alice Vieira), em revistas e em publicidade –, é membro de uma banda de blues, The Soaked Lamb, para a qual compõe. E onde canta, toca guitarra, harmónica e banjo.

C      de cinema. Trabalhou em cinema de animação, área que entretanto cedeu o passo à escrita literária. Entre filmes e séries, tanto de publicidade como de autor, destaque-se a realização da curta-metragem Dois Diários e um Azulejo, que ganhou duas menções honrosas (Cinanima e Famafest), e «O Desalmado», episódio da série Histórias de Molero, uma adaptação do livro de Dinis Machado, O Que Diz Molero. No domínio da publicidade assinale-se a campanha Intermarché, no âmbito da qual realizou mais de duzentos filmes durante os anos de 2006 e 2007.

D      de Deus. A Carne de Deus foi o seu livro de estreia (Bertrand, 2008). «Thriller satírico e psicadélico» que convoca organizações secretas, tem como subtítulo Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites, personagens de uma louca e estonteante galeria que logo fez sobressair o gosto da metáfora (no caso, a do segredo), a capacidade efabulativa e o poder da imaginação de Afonso Cruz, mas também o virtuosismo do seu humor. Atente-se, por ex., na união entre Rigaut e a mulher, «umas verdadeiras bodas alquímicas, um casamento entre o espírito e a matéria: ela com espírito de sacrifício e ele com matéria gorda».

E      de enciclopédia. Enciclopédia da Estória Universal, a mais “afonsina” das obras que produziu, recolhe ideias, histórias, mitos, pensamentos, definições, curiosidades, citações, parábolas de autores reais ou imaginários, atravessando diferentes tempos históricos e amalgamando realidade e ficção. O tom oscila entre a solenidade e a ironia. Em pequenas entradas, de A a Z, vai o autor expandindo um universo literário devedor do projecto de Borges. A Enciclopédia conta já três volumes.

     de filosofia, a essência da sua escrita. E de Facebook, claro. Afonso Cruz tem página no Facebook. Entre o seu grupo de amigos não figuram as verdades construídas pela lógica social, os dogmas e as crenças – ignorados –nem os maniqueísmos. Os seus leitores mais constantes decerto não se surpreenderiam se o escritor, por absurdo cronológico, enviasse um pedido da amizade a Nicolau de Cusa.

G   de guarda-chuvas, objecto que toda a gente perde e não mais encontra. Para Onde Vão os Guarda-Chuvas (Alfaguara, 2013) é o título do seu mais recente romance, a rodar justamente em torno da figura da perda – e da pacificação, em equilíbrio instável. Uma oração à tolerância e ao poder redentor da literatura.

Afonso Cruz vezes três ou três em um seria uma forma fácil de o definir: inicia com uma História de Natal para crianças que já não acreditam no Natal (25 páginas admiravelmente ilustradas), transita para um romance propriamente dito, e fecha com uma recolha de Fragmentos Persas, compilados por Teóphile Morel, nome familiar dos leitores da Enciclopédia.

H      de humor. Muitas vezes faz-se acompanhar do sentido do trágico que dá grandeza ao Humano e pode instalar-se em espaços onde, à partida, não teria lugar assegurado. A paleta, que vai dos tons benévolos da ironia ao sarcasmo cruel, é variada e manifesta-se também na crónica que mensalmente assina no Jornal de Letras sob o título «Paralaxe».

Em Afonso Cruz, o humor parece não conhecer interdição, tudo podendo tornar-se objecto de (sor)riso: a vida e a morte, o belo e o feio, o grave e o fútil, o sagrado e o profano, o ignaro e o sábio: «Antigamente os sábios acreditavam que o seu pior inimigo estava dentro deles. Tinham razão, toda a razão, mas agora temos antibióticos. E nos casos mais complicados, cirurgias.»

     de ideias, imaginação, invenção. A sua imaginação, habitualmente qualificada como exuberante, parece não conhecer limites. Afonso Cruz tem uma atracção irreprimível pelo território das ideias e todos os pretextos servem para evocar pensadores de outros séculos. Ora recorre à sabedoria que a Humanidade acumulou ao longo dos séculos, ora (re)cria, do aforismo à parábola. E o que não há Afonso Cruz inventa, dos dias que faltam ao mês de Fevereiro à ‘máquina de chilrear’.

     de JesusJesus Cristo Bebia Cerveja, um romance que transporta, com desenvoltura narrativa, Jerusalém para uma pequena aldeia do Alentejo, abordando questões tão sensíveis como a morte, a velhice, a religião ou a ciência. O título, não isento de provocação, bem podia servir de legenda lógica ao quadro irónico que no livro recria a Última Ceia.

K    de KoKoschka, pintor. A Boneca de KoKoschka (Quetzal, 2010) é outro romance muito apreciado. A boneca como metáfora é a chave da leitura.

L     de ludismo. Vários jogos têm lugar nos livros de Afonso Cruz, dos jogos semânticos, onde avulta todo o virtuosismo linguístico da sua escrita, ao jogo que vai estabelecendo com o conhecimento, tido como arrumação global e definitiva, e com a própria Literatura.

M     de morte. A morte, esse processo sempre em curso, percorre-lhe a escritaseja a dos livros nas estantes, seja a morte humana.

«A dentadura dentro do copo de água mostra o trabalho da morte, como ele é contínuo e não algo que acontece de repente» ou «Não lhe adiantaram de nada as artes de Esculápio, as artes médicas, pois a morte foi um larápio mais célere: e desta vez, desta derradeira vez, não lhe foi dada opção. Não há melhor ladrão do que a morte.»

     de Nicolau de Cusa (n. Cusa, actual Alemanha, 1401-1464). Filósofo e teólogo renascentista muito citado pelo autor. Dedicou a sua vida e a sua obra à compreensão do inefável. A Douta Ignorância é a sua principal obra, organizada em três livros.

O      de Obra. A que tem vindo a construir, com lucidez, consistência e coesão, tem já uma marca própria que resulta de elementos diversos que se fundem num todo inequivocamente pessoal. A tónica vai para um olhar incisivo sobre o mundo, uma acumulação de visões parciais que se sobrepõem numa escrita labiríntica, feita de ecos, reverberações, desdobramentos, perspectivas que se multiplicam.

     de prémios, no plural e vindos dos mais diversos quadrantes. Em 2009, o tomo I da Enciclopédia da Estória Universal, foi galardoado com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (2011, Caminho) receberam o Prémio Literário Maria Rosa Colaço e A Contradição Humana (Caminho) o Prémio Autores SPA/RTP. Em 2012, foi o autor português distinguido com o Prémio da União Europeia para a Literatura pelo livro A Boneca de KokoschkaJesus Cristo Bebia Cerveja foi considerado o Livro Português do Ano pela revista Time Out Lisboa e o Melhor Livro do Ano, segundo os leitores do jornal Público. O autor foi eleito, pelo jornal Expresso, como um dos 40 talentos que vão dar que falar no futuro.

Q     de quebrar: regras, limites, convenções, padrões de civilidade, modelos narrativos. «As leis são como as rotundas, são para contornar», lê-se logo no primeiro livro que publicou. Os livros de Afonso Cruz lavam olhos habituados e, por isso, podem colidir com algumas susceptibilidades, mais adeptas das belles lettrestradicionais.

R      de reflexão. Afonso Cruz é um escritor para ler de lápis na mão. São muitas as vezes em que hesitamos entre sublinhar, suspendendo a leitura, e avançar para a página seguinte, que nos espera ansiosamente. Os livros apelam à participação activa do leitor e à sua capacidade de fazer reverter o humor em prudente reflexão.

S      de SPA. A Sociedade Portuguesa de Autores atribui-lhe, no passado dia de 8 de Maio, o Prémio SPA – AUTORES, pelo seu livro Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas, na categoria de melhor livro de ficção narrativa.

T      de título. Há livros cujos títulos são pistas falsas, dando por vezes origem a erros de catalogação. E a equívocos. É o caso de O Livro do Ano (Alfaguara, 2013), um pequeno álbum poético ilustrado sobre o dia-a-dia de uma jovem; é destinado aos mais novos, mas susceptível de interessar leitores de todas as idades. Se este livro não deve ser procurado nos escaparates luminosos, entre os best sellers, também a Enciclopédia da Estória Universalnão se encontra nas prateleiras da secção de História. Ou não deveria encontra-se.

U     de umbrellas, o m. q. guarda-chuvas.

V      de viagens. Afonso Cruz declara-se também um viajante do mundo. Prefere a viagem à asfixia e ao empalhado dos museus e já viajou por mais de 60 países, destacando, no mapa das suas preferências, o Brasil, a Síria, o Nepal, a Republica de Benim e a República do Gana.

Xi !, quase ficava de fora o currículo escolar do autor. Afonso Cruz fez estudos na Escola António Arroio, em Lisboa, na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira.

Z      de zarpar. Um verbo que não se encontra no horizonte de Afonso Cruz.

Artigo escrito por Teresa Carvalho / Parceria jornal i

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

"Flores", o romance de Afonso Cruz, venceu por unanimidade o Prémio Liter