A vitória de Donald ‘Tramp’

9 NOVEMBRO, 2016 -

Donald Trump faz jus ao seu apelido. “Tramp” em inglês ou, num jargão muito nosso, “trampa”. Quando todos julgavam que Charlie Chaplin seria o único comediante a envergar um apelido parecido, eis que Trump ascende à presidência da (ainda) mais influente força mundial. No momento inicial, a sua candidatura parecia ser mais “smoke and mirrors” do que propriamente algo de vulto. Um rasgo de comédia ao nível do “Charlot”. No entanto, e enquanto o tempo foi dando razão ao lunatismo de Trump, a ameaça reforçou-se. Ideais de mil novecentos e carqueja que se consolidaram num profundo desdém pelas mulheres e por todos aqueles hispânicos e islâmicos.

Donald Trump conquistou a empatia dos mais idealistas revanchistas e chauvinistas. Foi ao conquistar o voto desta maioria norte-americana que rematou uma comédia que rapidamente se assumiu como uma tragédia. A tragicomédia decorreu durante todo o processo eleitoral, no qual as propostas ideológicas foram curtas e demasiado demarcadas pela troca de galhardetes. Foi curto e pouco exemplificativo daquilo que o mundo progrediu em termos educativos e sociais.

Quando são os Estados Unidos da América a refletir aquilo que o mundo é, é sintomático de que estamos muito mal. Todos nós. Não valem somente aqueles que repudiam todo o corpo de crenças e de princípios (ou o reumatismo deste). Valem sobretudo aqueles que se alimentam de um ressentimento cuja redenção está prometida. Toda a linhagem que nunca aceitou a passagem do tempo e a mudança feliz do paradigma. Atrasados no tempo, é este retrocesso que acaba por se ir arrastando nos dias de hoje.

Depois, importa salutar o Green Party e o Libertarian Party. Não contando com o impacto mediático do habitual bicefalismo, traz em si propostas pensadas e bem estruturadas, englobando as diversas necessidades sociais e nacionais. No desencanto da política perante uma atmosfera cada vez mais tóxica, ainda surgem os tais que, como uma lufada de ar fresco, se apresentam como caminhos de mudança.

Enfim, as palavras foram gastas para se expressar o azedume perante esta eleição. Muitos não compreendem e debitam se não há forma pela qual Trump possa ser aceitável. O lastro que deixou durante a campanha é sui generis, tal como aquilo que sempre defendeu. Um lastro regressivo e socialmente reumático, desprezando a diversidade e multiplicidade que renovou a identidade o país das “stars n’ stripes”. Um lastro que muitos recusam contestar por receio de represálias. Um lastro que prevalece numa campanha de medo.

O receio da mudança é uma constante em política. O eleitorado teme a mudança. O eleitorado prefere a contenção do que a revolução. Uma revolução silenciosa e ensinada a partir do que a História tem para contar e do que a sociedade exige de todos. Uma abertura progressiva e atenta às necessidades específicas e legítimas de cada um. O rumo seria apontado para se viver e não para se sobreviver.

Trump chegou, viu e venceu. Os americanos assentiram num misto de rancor e de temor. O retrato da sociedade tinge-se hoje de “Trampa”. A culpa não morre solteira e é partilhada por todos aqueles que escolhem a política oca e vazia que mora nas notas e nas diferenças. Eis um retrato de “Trampa” que se pintou nesta íngreme rampa na qual o mundo escolheu derrapar. A começar pelos americanos contaminados pelo “smoke and mirrors”.

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