A violência na linguagem de ‘Breve História de Sete Assassinatos’

26 JANEIRO, 2017 -

Breve História de Sete Assassinatos, de Marlon James, não é nem breve nem possui apenas sete assassinatos. Neste livro de quase 700 páginas recém-editado pela Relógio d’Água, há chacinas frequentes, há histórias de gangues, de música, de drogas, mas, acima de tudo, de personagens – inspiradas em pessoas reais – que cresceram em ambientes de extrema violência, nomeadamente na Jamaica da segunda metade do séc. XX. O ponto de partida é uma tentativa de assassinato a Bob Marley (quase sempre tratado como “O Cantor” ao longo da obra) quando este se preparava para protagonizar o concerto pela paz Smile Jamaica em 1975, mas a história avança bem além disso, até 1991.

Marlon James reflecte, com esta obra, acerca do papel que um artista pode ter na vida política e cívica de um país e sociedade; de que forma é possível, por trás de uma bandeira ganha com o poder da música, ter influência sobre quem manda, sejam eles políticos ou gangsters (ou ambos). Será isso possível ainda para mais com a oposição dos EUA que, provavelmente ainda mais que actualmente, estendiam a sua influência ao resto do mundo, muitas vezes sobre a forma de incentivo à violência.

West Kingston, nomeadamente os bairros de Copenhagen City e Eight Lanes, são os principais centros do conflicto, controlados por gangues opostos ligados a partidos políticos que são também oposição um do outro, um deles no governo e o outro interessado em tirá-lo de lá. É a ajudar estes últimos, da oposição, que a CIA se junta, com medo que o governo Jamaicano se aproximasse do regime cubano, dando origem ao escalar de conflitos entre ambas as forças. É fácil imaginar que, portanto, o livro abunda em violência. Esta, sendo real, é em grande medida extremamente representativa do período da história da Jamaica em questão. Fica é a sensação de que, ao mesmo tempo, talvez se torne demasiado avassaladora na medida em que acabamos enterrados em tanta violência que, como acontece em diversos casos, acabamos a normalizar um pouco a mesma. A verdade é que a questão passa também por aí, pela forma como, para todo um conjunto de gerações que cresceram no centro destas questões, a violência era algo do dia-a-dia, de normal. Da mesma forma que estas pessoas cresceram com isto, nós fazemos a travessia do livro também juntos com ela.

A travessia é feita pelas vozes de várias personagens, a abundância delas também violenta. Desde chefes de gangues a sicários, passando por um jornalista da Rolling Stone e uma mulher cujo sonho é seduzir o Cantor, chega-nos tudo através de vários pontos de vista. É provavelmente aqui que se encontra o principal ponto forte da obra, na forma como Marlon James consegue criar vozes, narrações, estilos diferentes para diferentes personagens e diferentes situações. Sempre na primeira pessoa, tal é desde logo patente no dialecto falado por cada um, reflectindo escolaridade, educação ou proveniência. E, à medida que avança o tempo e passam os anos, também se vão denotando certas diferenças no discurso de algumas personagens, e, com isso, evoluções das mesmas.

Há capítulos fortíssimos, desde logo o que culmina com Papa-Lo, o don de Copenhagen City, a ser mandado parar pela polícia; quanto mais vamos penetrando no mesmo, mais sentimos o ritmo alucinante de tudo aquilo que está a acontecer e em como tal se reflecte na psique do próprio. Também o da narração da morte de Bob Marley, onde tudo parece ser tão trivial na morte de uma estrela da dimensão d’O Cantor, vítima não de homicídio, mas de um cancro.

Noutras alturas do livro, sentimos que o alcance está demasiado limitado à narrativa e à acção, mais preocupado em fazê-la avançar do que em nos dar mais daquilo que nos alimenta durante a leitura desta obra, os retratos, a introspecção, a linguagem. É esta linguagem que faz com que um livro lançado em 2014 e vencedor do Man Brooker Prize só agora chegue a ter uma edição portuguesa. Tendo lido também uma parte do livro no original, como que para contrastar com o resultado português, é claro que, honroso e meritório o trabalho do tradutor José Miguel Silva, há ainda bastante que escapa. Desde logo as especificidades daquela espécie de dialecto jamaicano que nos soa como inglês mal falado. Essa transposição é feita para o português, pondo as personagens com menor “educação” a falar um mau português, mas, de qualquer das maneiras, parece ficar sempre a faltar um pouco daquela brusquidão da fala do gueto jamaicano, que está bem presente no original. Não é por isso, no entanto, que se deve deixar de ler a tradução, ainda para mais dada a dificuldade da própria leitura no original, muitas vezes com um calão que o próprio tradutor transpõe para o português com a devida nota de explicação acerca do seu contexto original. Ler a Breve História de Sete Assassinatos em português é imbuir o jamaicano de um pouco de lusofonia, e isso não tem necessariamente que ser mau.

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