A utilidade da arte é recorrente, mas será assim tão importante?

15 FEVEREIRO, 2017 -

A questão da utilidade da arte é recorrente. Encontro-me bastante longe de Portugal, numa das cidades mais isoladas do mundo considerado ocidental, e de menor densidade populacional. Traduzindo, é distante de tudo e todos, e os que por aqui vivem também se encontram dispersos uns dos outros. Não é por isso difícil sentir alguma desorientação, afastamento, e por muito que se goste, e adiantando que mais frequentemente do que se quer, uma pontada de saudades de casa. Casa que é a Europa e mais concretamente Portugal.

Ao deambular por esta terra deparei-me com uma parede. E nesta parede encontrei Portugal. Sim, Portugal, na parede mais improvável e mais esquecida, a cerca de 15040 km de distância da cidade a que chamo minha, encontrei Portugal. Eu sabia que o que via não era a Amália, apesar de facilmente confundível por entre as pequenas lascas e tijolos encardidos. Não, não era a Amália, mas era sem dúvida parte da minha pátria. Não conhecia mais ninguém que a erguesse assim.

A pontada de saudade agudizou-se. Sabia perfeitamente o que estava a ver e, talvez se estivesse mentalmente preparado para encontrar parte do meu país ali, podia ter reagido sem pêlos eriçados e impulsos eléctricos a atravessarem-me o corpo e o consequente share na rede social de eleição. A mente estava confusa pois não era de todo o que esperava encontrar tão longe de casa e a 8 fusos horários de distância.

Quem achei que fosse a Amália era afinal Dorothy Tangney, primeira mulher a fazer parte do senado australiano. E a arte que encontrei em Norfolk Hotel, 47 South Terrace em Fremantle, no estado mais Ocidental da Austrália, foi a de Vhils, que ao participar no Street Art Festival da cidade ergueu o mural. Vhils como tantos outros é um dos embaixadores do Portugal contemporâneo, o Portugal moderno, o país pós Eusébio e pós Amália. O país que expõe em Versailles, que enche palcos e arenas longe da península onde se encontra, e que se torna mais que fado e futebol.

Não tenho absolutamente nada contra fado ou contra futebol, mas admito que se torna maçador que a maioria das interacções, após informar que sou português, comecem com o interlocutor a nomear “Ronaldo”. O encontro com o mural permitiu-me encontrar uma faceta mais privada do meu país. Onde talvez ainda seja necessário um interlocutor também português para nomear Vhils e experienciar o que experienciei, Tenho contudo a certeza que mais cedo que tarde, após me apresentar português outros serão nomeados depois de “Ronaldo” e não farão necessariamente parte da selecção nacional.

A arte pode fazer isto à diáspora portuguesa por esse mundo fora. Encontros com as memórias levadas para esses lugares distantes. Memórias que retornam e são novamente vividas ao ver o país espelhado nas mais diversas formas artísticas, que se podem encontrar tão longe como a 15040km de casa. É este o poder emocional que a arte transporta e é nele que se revela a sua utilidade. Por isto já serviu parte do seu propósito.

Fotografia de: Rom Levy

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