A última grande entrevista de Sigmund Freud

4 MAIO, 2016 -

A entrevista que vos trazemos foi conduzida por George Sylvester Viereck, e foi publicada no seu livro: “Glimpses of the Great”, em 1930.

“Setenta anos de idade ensinaram-me a aceitar a vida com alegre humildade.”

Esta frase é de Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma. Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo o nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise. Freud confrontou a Esfinge sem receio. Como Édipo, decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano como Freud.

“Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristóvão Colombo do inconsciente. Freud abriu novas perspectivas, explora novas profundezas e alterou todas as relações na vida, decifrou o sentido oculto das regras do inconsciente. Conversámos na casa de de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos, onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise, estava na sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam a minha última visita desta de agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram a sua palidez académica. O seu rosto estava abatido, sofrido. A mente estava activa, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas uma leve problema de fala preocupou-me, parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala. Na verdade, não há diferença entre o uso desse aparelho ou o de óculos. No entanto, o aparelho deixa Freud mais constrangido do que os visitantes. Depois de conversarmos algum tempo com ele, o aparelho quase que se torna imperceptível. Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas para Freud, o equipamento é causa de constante irritação.”

Sigmund Freud — detesto o meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma  força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda  prefiro viver a morrer. Talvez os deuses sejam generosos connosco, tornando a  vida mais desagradável à medida que envelhecemos. No final, a morte parece  mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar.

(Freud recus-se a admitir que o destino tenha sido rancoroso com ele.)

Sigmund Freud — Por que devia esperar por algum tipo de privilégio? A idade, com os seus  visíveis desconfortos, chega para todos. Ela atinge um homem aqui, outro lá.  O seu golpe atinge sempre uma parte vital.

Sigmund Freud — Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta  anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas — do companheirismo da  minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na  primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão de um amigo. Uma ou duas  vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais posso querer?

George Sylvester Viereck — O senhor é famoso. O seu trabalho influencia a literatura pelo mundo inteiro. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa. E, há pouco tempo, quando o senhor fez 70 anos, o mundo uniu-se para o homenagear — com exceção da sua própria universidade!

Sigmund Freud — Se a Universidade de Viena me aceitasse, eu iria sentir-me muito  constrangido. Não há razão para eles me aceitarem ou à minha doutrina porque  eu estou com 70 anos. Não dou nenhuma importância ilógica aos números. A fama  só chega quando já estamos mortos, e, para ser franco, o que acontece depois  da morte não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. A minha modéstia não  é nenhuma virtude.

George Sylvester Viereck — O facto do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?

Sigmund Freud — Absolutamente nada, mesmo que ele seja realmente lembrado, o que não é  certo. Eu estou mais interessado no destino dos meus filhos. Espero que a  vida deles não seja tão difícil. Não posso torná-las muito mais fácil. A  guerra praticamente acabou com a minha modesta fortuna, as economias de uma  vida inteira. Entretanto, felizmente, a idade não pesa tanto para mim. Eu  ainda sou capaz de seguir em frente! O meu trabalho ainda me dá prazer.

Sigmund Freud — Estou muito mais interessado nestas flores do que no que possa acontecer comigo depois de morrer.

George Sylvester Viereck — Então, no fundo, o senhor é um pessimista?

Sigmund Freud — Não, não sou. Só que eu não permito que nenhuma reflexão filosófica me  tire a alegria das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck — O senhor acredita na continuidade do ser após a morte, seja lá de que maneira for?

Sigmund Freud — Eu não penso nesse assunto. Tudo o que nasce, um dia morre. Por que é que  eu não haveria de morrer?

George Sylvester Viereck — O senhor gostaria de retornar à vida, assumindo uma nova forma? Em outras palavras, o senhor não gostaria de ser imortal?

Sigmund Freud — Para ser franco, não. Quem identifica as razões egoístas que se escondem  sob o comportamento humano não tem a menor vontade de voltar. A vida,  movendo-se em círculos, ainda seria a mesma. Além disso, mesmo que o eterno  retorno de todas as coisas, como disse Nietzsche, nos vestisse com novas  roupas, que utilidade isso poderia ter sem a memória? Não haveria ligação  entre o passado e o futuro. No que me diz respeito, estou muito satisfeito em  saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. A nossa vida resume-se  a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e o seu ambiente. O  desejo de um prolongamento excessivo da vida parece-me absurdo.

George Sylvester Viereck — O senhor não aprova as tentativas do seu colega Steinach de prolongar o ciclo da existência humana?

Sigmund Freud — Steinach não faz nenhuma tentativa para prolongar a vida. Ele  simplesmente luta contra a velhice. Ao aumentar a reserva de forças que temos  dentro de nós, ele ajuda o corpo a resistir à doença. A operação de Steinach  às vezes detém os acidentes biológicos, como o cancro, nos seus primeiros  estágios. Ela toma a vida mais tolerável. Mas não a torna mais feliz. Não há  razão para que o homem queira viver mais. Mas temos todas as razões para  querer viver com o mínimo de desconforto possível. Sou bastante feliz, porque  não sinto dores e sou grato aos pequenos prazeres da vida, aos meus filhos e  às minhas flores!

George Sylvester Viereck — Bernard Shaw diz que vivemos muito pouco. Ele acha que, se quiser, o homem pode prolongar o tempo da vida humana, se a força de vontade superar as forças da evolução. A humanidade, segundo ele, pode recuperar a longevidade dos patriarcas.

Sigmund Freud — É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez  os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma  pessoa coexistem dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o  desejo ambivalente de morrer. Da mesma forma que um elástico tende a voltar  ao seu formato original, toda matéria viva, consciente ou inconscientemente,  anseia pela inércia completa e absoluta da existência inorgânica. Os desejos  de morrer e de viver convivem lado a lado dentro de nós. A Morte é a  companheira do Amor. Juntos governam o mundo. Essa é a mensagem do meu livro, além do princípio do prazer. No início, a psicanálise achava que o Amor era o  sentimento mais importante. Hoje, sabemos que a Morte tem a mesma  importância. Biologicamente, todo o ser humano, retirando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pela fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto o objectivo final da vida é a própria extinção!

George Sylvester Viereck — Essa é a filosofia da autodestruição, que justifica o auto-massacre. Levaria à conclusão lógica do suicídio mundial previsto por Eduard von Hartmann.

Sigmund Freud — A humanidade não escolhe o suicídio, porque as leis da sua natureza não  aceitam o caminho directo para a própria meta. A vida deve completar o seu  ciclo de existência. Em qualquer ser humano normal, o desejo de viver é o suficiente  para compensar o desejo de morrer, embora, no final, o desejo de morrer prove  ser mais forte. Nós podemos considerar a ideia de que a morte nos chega por  vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado  que ela tem dentro de nós mesmos. Nesse sentido, talvez seja certo dizer que  toda morte é um suicídio disfarçado.

George Sylvester Viereck — Actualmente está a trabalhar?

Sigmund Freud — Estou a escrever uma defesa da análise leiga, a psicanálise praticada por  leigos. Os médicos querem tornar ilegal a análise feita pelos que não são  médicos registados. A história, essa velha plagiadora, repete-se a cada nova descoberta. Os médicos, no inicio, combatem qualquer nova verdade. Depois tentam monopolizá-la.

George Sylvester Viereck — O senhor teve um grande apoio dos leigos?

Sigmund Freud — Alguns dos meus melhores alunos são leigos.

George Sylvester Viereck — O senhor pratica a psicanálise com muita frequência?

Sigmund Freud — Claro. Nesse exacto momento, eu estou a trabalhar num caso difícil, que  esclarece os conflitos psíquicos de mais um paciente interessante. A minha  filha também é uma psicanalista, como o senhor pode ver…

(Neste momento, a senhorita Anua Freud surgiu seguida do seu paciente, um rapaz de 11 anos, de feições obviamente anglo-saxónicas. O menino parecia muito feliz, esquecido do conflito da própria personalidade.)

George Sylvester Viereck — O senhor faz autoanálise?

Sigmund Freud — É claro. O psicanalista deve se autoanalisar com frequência. Ao nos analisarmos, tornamo-nos mais capazes de analisar outras pessoas. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. As pessoas colocam a culpa dos seus pecados nele. Ele deve exercer a sua arte com perfeição para se livrar do peso colocado sobre ele.

George Sylvester Viereck — Sempre me pareceu que a psicanálise desperta em todos aqueles que a praticam o espírito da caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não nos permita entender.

Sigmund Freud — Pelo contrário — (enfureceu-se Freud, as suas feições assumiram a severidade arrebatada de um profeta hebreu) — entender não é perdoar. A psicanálise não ensina apenas o que temos que suportar, ela também ensina o que temos que evitar. Ela diz-nos o que deve ser eliminado. A tolerância do mal não é, de maneira nenhuma, uma consequência do conhecimento.

(De repente entendi por que Freud discutia tão seriamente com os seguidores que o abandonaram, por que ele não consegue perdoar aqueles que se afastaram do caminho da psicanálise ortodoxa. O seu senso de integridade é uma herança dos seus ancestrais. Uma herança da qual ele se orgulha, assim como se orgulha da própria raça.)

Sigmund Freud — A minha língua é o alemão. A minha cultura, as minhas conquistas são alemãs. Considerei-me um alemão do ponto de vista intelectual, até que percebi o crescimento do antissemitismo na Alemanha e na Áustria alemã. Desde então, não me considero mais um alemão. Prefiro considerar-me um judeu.

George Sylvester Viereck — Estou feliz Professor, que o senhor também tenha os seus complexos, que o senhor também exponha a sua mortalidade.

Sigmund Freud — Os nossos complexos são a fonte da nossa fraqueza e, com frequência, também da nossa força.

George Sylvester Viereck — Quais seriam os meus complexos?

Sigmund Freud — Uma análise séria  levaria, pelo menos, um ano. Talvez demorasse até mesmo uns dois ou três anos. O senhor tem dedicado muitos anos da sua vida à caça de leões. O senhor tem procurado, ano após ano, as grandes personalidades da sua geração, invariavelmente homens mais velhos.

George Sylvester Viereck — Isso é parte do meu trabalho.

Sigmund Freud — Mas também é uma  preferência. O homem importante é um símbolo. A sua procura é afectiva. O senhor está à procura do homem importante que irá tomar o lugar do seu pai. Isso é parte do complexo que o senhor tem em relação ao seu pai.

(Neguei a afirmação de Freud com veemência. Entretanto, após reflectir, parece-me que pode haver alguma verdade, insuspeita para mim, na sua sugestão casual. Talvez seja o mesmo impulso que me levou a ele.)

George Sylvester Viereck — No seu trabalho “O Judeu Errante”, o senhor estende essa procura ao passado. O senhor é o eterno Explorador do Homem. Eu queria poder ficar aqui durante o tempo que fosse necessário para ver o meu interior através dos seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de medo ao ver a minha própria imagem! Entretanto acho que conheço bastante a psicanálise. Eu iria prever, ou tentar prever, as suas intenções.

Sigmund Freud — A inteligência de um paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes, ela facilita o trabalho.

(Nesse aspecto, o mestre da psicanálise difere de muitos dos seus adeptos, que se ressentem de qualquer dedução feita pelos próprios pacientes sob os cuidados deles. A maioria dos psicanalistas emprega o método da “livre associação” de Freud. Eles encorajam o paciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importa se o que dizem possa ser idiota, obsceno, inoportuno ou irrelevante. Seguindo pistas que parecem não ter importância, encontram os dragões psíquicos que assustam o paciente, afugentando-os. Eles não apreciam o desejo de cooperação activa do paciente, pois têm medo que, quando descoberta a direcção da sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter os seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista. Freud também reconhece esse perigo.)

George Sylvester Viereck — Às vezes penso que se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma os nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos mais felizes ao descobrir o nosso lado selvagem, criminoso e animal.

Sigmund Freud — O que o senhor tem contra os animais? A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana.

George Sylvester Viereck — Porquê?

Sigmund Freud — Porque os animais são muito mais simples. Não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu  mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas nele não existe a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas nele. É essa vingança que dá vida ao reformista profissional e às pessoas intrometidas. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo. Mas vai poupá-lo das pequenas  provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade civilizada quase intolerável. Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. As emoções intensas, directas e simples de um cão, ao abanar o rabo ou a latir quando é contrariado, são muito mais agradáveis! As emoções de um cão fazem-me lembrar um dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade como Aquiles ou Heitor.

George Sylvester Viereck — Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, parece-me que o senhor é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes do senhor inventar a psicanálise ninguém sabia que a personalidade era dominada por um exército em conflito de complexos censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeças.

Sigmund Freud — De forma nenhuma. A  psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente.

George Sylvester Viereck — Numa visão superficial, parece, entretanto, que a vida humana nunca foi tão complexa. E, a cada dia, alguma nova ideia, apresentada pelo senhor ou pelos seus discípulos, torna o problema do comportamento humano mais enigmático e contraditório.

Sigmund Freud — Pelo menos a psicanálise nunca fecha as portas para uma nova verdade.

George Sylvester Viereck — Alguns dos seus alunos, mais ortodoxos do que o senhor, agarra-se a qualquer declaração que o senhor faça.

Sigmund Freud — A vida muda e a psicanálise também. Estamos só no princípio de uma nova ciência.

George Sylvester Viereck — Acho a estrutura científica que o senhor criou muito complexa. E os elementos dessa estrutura, como a teoria da substituição, da sexualidade infantil, do simbolismo dos sonhos, etc., parecem permanentes.

Sigmund Freud — No entanto, torno a dizer, nós só estamos a começar. Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente.

George Sylvester Viereck — O senhor ainda dá grande importância ao sexo?

Sigmund Freud — Eu respondo com as palavras do grande poeta Walt Whitman: “Mas não haveria nada, se não houvesse o sexo”. Entretanto, como já disse, hoje em dia, eu dou a mesma importância ao que está além do prazer — a morte, a negação da vida. Esse desejo explicar porque alguns homens gostam da dor — ela representa um passo em direcção à morte! O desejo da morte explica por que todos os homens procuram o descanso  eterno, por que os poetas agradecem:

“Onde quer que os deuses estejam,
Não há vida que viva para sempre
Os homens mortos nunca renascem,
E até o rio mais enfastiado
Segue confiante na direção do mar”.

George Sylvester Viereck — Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas ele acha o sexo desinteressante.

Sigmund Freud — Shaw (respondeu Freud, a sorrir), não entende o sexo. Ele não faz a  mais remota ideia do que seja o amor. Não existe nenhum relacionamento amoroso real nas suas peças. Ele transforma o caso de amor de César — talvez  a maior paixão da história — numa piada. Deliberadamente, para não dizer maliciosamente, ele despe Cleópatra de todo o seu esplendor e rebaixa-a à condição de uma mulher insignificante, petulante e exagerada. A razão para a estranha atitude de Shaw em relação ao amor e para a sua negação do impulso primordial de todas as acções humanas, o que tira das suas peças o atractivo universal apesar da sua grande inteligência, está na natureza da sua psicologia. Num dos seus prefácios, Shaw enfatiza o aspecto ascético da sua personalidade. Posso ter cometido muitos erros, mas tenho certeza que não errei ao enfatizar a predominância do instinto sexual. Porque o instinto sexual é tão forte que choca com muita frequência contra as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em defesa própria, procura negar a  importância suprema do sexo. Analise qualquer emoção humana, não importa o quanto ela esteja distante da esfera do sexo, e o senhor vai encontrar com certeza, em algum lugar, o impulso primordial, ao qual a própria vida deve a sua perpetuação.

George Sylvester Viereck — É certo que o senhor conseguiu incutir o seu ponto de vista sobre todos os escritores modernos. A psicanálise deu uma nova força à literatura.

Sigmund Freud — Ela também recebeu contribuições da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É incrível o quanto a intuição dele se antecipou às nossas descobertas. Ninguém identificou com mais clareza as razões para o comportamento humano e a luta do princípio do prazer pelo eterno domínio. O seu Zaratustra diz:

“Desgraça
Grite: Vá
Mas o prazer implora por eternidade,
Implora insaciável, profunda eternidade”.

Pode ser que a psicanálise seja menos discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, mas a sua influência sobre a literatura, no entanto, é enorme. Thomas Mann e Hugo von Hofmansthal devem-nos muito. Schnitzler acompanha, em grande parte, o meu desenvolvimento. Ele expressa através da poesia muito do que eu tento transmitir cientificamente. Mas o doutor Schnitzler não é apenas um poeta, ele também é um cientista.

George Sylvester Viereck — O senhor não é apenas um cientista, é também um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise. Rupert Hughes, Harvey O’Higgins e outros são seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance recente sem encontrar alguma referência a psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O’Neill e Sydney Howard devem muito ao senhor. “The Silver Cord” (O Cordão de Prata), por exemplo, é uma mera dramatização do complexo de Édipo.

Sigmund Freud — Eu sei disso, sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profunda. A grande popularidade leva à aceitação superficial sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que ouvem no teatro ou leem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir o nosso gíria! Eu prefiro o estudo mais intenso da psicanálise nos centros europeus. Os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University conferiu-me um grau honorário quando eu ainda estava condenado ao ostracismo na Europa. No entanto os Estados Unidos contribuíram muito pouco para o estudo da psicanálise. Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Além disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento. A formação médica pode ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem para o psicanalista. Ela é uma desvantagem quando certas convenções científicas aceites se tornam arreigadas demais na mente do estudante.

(Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos, onde tem a maioria dos seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância. Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança da sua hospitalidade! A noite chegara. Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos. Freud, acompanhado pela esposa e pela filha, subiu a escada que ligava o seu retiro nas montanhas à rua, para se despedir de mim. Ele pareceu-me triste e sombrio, quando acenou para mim.)

Sigmund Freud — Não me faça parecer um pessimista — (comentou depois do último aperto de mão) — Eu não desprezo o mundo. Expressar insatisfação para com o mundo é só uma outra maneira de o cortejar, para conseguir plateia e aplausos! Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver os meus filhos, a minha mulher e as minhas flores! As flores felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz — pelo menos, não mais do que outras pessoas.

(O apito do meu comboio soou na noite. O carro levou-me à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe. Como Édipo, Freud olhou profundamente nos olhos da Esfinge. O monstro propõe o seu enigma para qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham o seu segredo.)

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Erik Erikson é um dos mais notáveis psicólogos e psicanalistas do século XX, h

Jacques Lacan é um dos principais nomes no estudo e na intriga da psicanálise no

Sigmund Freud é um nome que quase ninguém desconhece. Quase toda a gente já ouviu falar qualquer