A transformação humana no pós-modernismo?

12 FEVEREIRO, 2017 -

Parece-me que, em geral, vivemos numa ânsia de amor, precisando cada vez mais – enquanto seres individualistas – de sentir que alguém nos ama. Desejando a percepção da necessidade do outro relativamente a nós. Note-se que referi individualistas e não individuais, na medida em que individuais somos todos. Nenhum ser humano é igual a outro e isso salvaguarda a excepção à regra, englobando os casos fora da média considerada. Assim, importa perceber em que é que este novo arquétipo interfere no que concerne às relações amorosas.

Na pós-modernidade – Bauman viu-o como ninguém –, a volatilidade impera em todos os planos, nomeadamente pelo imediatismo, utilitarismo (do estrito ponto de vista do usufruto) e superficialidade, tríade que compõe a base da actual sociedade de consumo. É hoje bastante comum a aparência superar o conteúdo, ainda que se verifique a inexistência de conteúdo. Isto é, imagine-se uma mulher bonita (ou vice-versa) que sente um dado impulso sexual por um homem que lhe parece belo, sendo, porém, intelectualmente desinteressante. É naturalmente admissível a envolvência sexual de ambos. Todavia, seria expectável que, após algum tempo de convivência, esta perdesse interesse por tal indivíduo, verificando-se que tal não acontece. É até bastante comum que no actual paradigma a beleza estética se sobreponha marcadamente ao conteúdo. E porquê? Bom, por variadíssimas razões, mas creio que essencialmente pelo egoísmo.

O ser humano possui uma cada vez maior necessidade de controlo sobre o outro, uma necessidade de se superiorizar ao outro (independentemente da hierarquia ou grau de relacionamento). Fenómeno motivado pela competitividade vigente, com os indivíduos talhados e mentalizados desde crianças para a obrigatoriedade de serem máquinas de combate na selva do mercado de trabalho. Evidentemente que esse rumo dado às gerações mais jovens tem efeitos colaterais nefastos na construção da personalidade, potenciando comportamentos: dissimulados, com os fins a justificaram os meios; conflituosos, cada vez mais patentes na dificuldade dos jovens em conviverem e trabalharem em grupo; e desviantes, com um apelo latente para a viciação em drogas, de forma a anestesiar ou entusiasmar estados psicológicos desfavoráveis em determinado contexto.

Posto isto, torna-se interessante pensar como uma sensação básica como o medo se mescla num complexo padrão interrelacional que são as relações amorosas, escalando a um nível que, em última instância, conduz ao desprendimento. Em razão disso, estou convencido que o actual ritmo do mundo impele o Homem a um auto-isolamento persistente, em grande parte derivado do egoísmo e do sentimento de posse. Ou, neste caso, preferindo evitar a provável dor da perda, desapegando-se de um plano emocional mais profundo.

Estou convicto que tais seres, por mim denominados ‘animais do mundo líquido’, apresentam padrões comportamentais que irão alterar profunda e radicalmente a tipologia das relações humanas. Parecendo-me pouco provável que daqui a cem anos o casamento tradicional dos actuais pais e avós ainda perfaça a maioria dos casos.

Em suma, diagnostica-se um desligamento cada vez mais acentuado da noção de comunidade, com uma sociedade cada vez mais individualista em lugar da opção pela via comunitária, que de resto foi o grande trunfo da espécie humana durante a sua evolução. O ideal colectivo possibilitou ao Homem superar obstáculos, protegendo-se e prevenindo-se das ameaças selvagens e naturais que o planeta lhe ia apresentando. Nessa medida, estaremos então a perder a nossa característica humana?

Texto de: Luís Atilano
Imagem: frame retirado do filme ´Lost in Translation’, de Sofia Coppola

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