‘A Quatro Mãos’, fomos saber que história é esta

26 OUTUBRO, 2017 -

Ocorreu nos 4 dias compreendidos entre 12 e 15 de Outubro o “A Quatro Mãos”, auto-descrito como o “1º Encontro de Escrita para Cinema e Televisão em Português”. O certame nasceu graças à saudável sinergia consumada por instituições portuguesas e brasileiras, de onde naturalmente se destacam a Academia Portuguesa de Cinema – entidade organizadora do evento -, o Instituto de Cinema e Audiovisual e a Globo.

Muitos se deverão ter questionado por que se desviou da capital um evento que se orgulhou de simbolizar a saudável confluência artística na lusofonia. Não sabendo mais que vós, permitam-me o achismo.

Enquanto o frenético movimento e o ensurdecedor ruído de fundo se vão tornando indissociáveis da “marca” Lisboa, Cascais permanece como o recanto periférico exótico ladeado pela urbe em constante ebulição. Talvez por isso, tem-se afigurado cenário de eleição para alguns dias de reflexão – e consequente troca de impressões, no caso do “A Quatro Mãos” – ou celebrações de âmbito mais alargado, como foi o caso do igualmente recente “Festival Internacional da Cultura”.

DIA 1

Numa palestra que comportava o mote “O Processo de Escrita”, Jim Sheridan abriu as hostilidades com um par de tiradas cáusticas. Surgiu agastado, distante do vigor exibido no passado, porém ostentando uma combinação bombástica e extremamente bem recebida pelo público: lucidez e sarcasmo em doses massivas.

Jim Sheridan

A tradição do humor britânico (e seus vizinhos) a isso obriga e o realizador irlandês não esteve com meias medidas: agradeceu a vinda e referiu ter sido uma excelente oportunidade para visitar o casino, sem que tenha perdido dinheiro.

O exercício de partilha centrou-se mais num conjunto disperso de recordações e convicções do autor, ao invés de se debruçar em exclusivo sob a temática escolhida.

Referiu com admiração o actor Klaus Kinski – alemão celebrizado por participar em projetos de Werner Herzog – que definiu como “crazy enough to believe in the camera as a human being”, por se desviar, debruçar e lidar com a cãmera como se de um corpo vivo se tratasse. Fê-lo para logo depois introduzir um conceito seu: spiritual believe, ou colocado de uma forma mais aberta, “ou acreditas fervorosamente no que fazes ou não vale a pena fazê-lo”. De todo.

Sem pudor, mostrou o quanto repudiava a argumentação que orbita em torno da tese “it’s just a movie, it’s just Hollywood”. Para contrapôr, teceu paralelo com a época do surgimento da televisão: segundo o próprio, 20 anos volvidos, a “caixa mágica” esvaziou de influência o Catolicismo, num percentil de poder que estima ter passado de 99% para 9%. Tudo isso para referir que, muitas vezes, o ato de influir é exercido de forma sub-reptícia, quase sem que demos por ela, ainda que por isso não deixe de ser um soft power de potentíssima magnitude.

Aclamado pela crítica na sequência da estreia d’O Meu Pé Esquerdo (1989), Jim define-se a si mesmo como conservador, pelo menos na hora de se posicionar enquanto guionista. Adepto fervoroso da three-act structure – metodologia usada na escrita para cinema de ficção, consistindo na divisão da narrativa em três partes distintas – toma como um imperativo o conhecimento integral do seu público, confessando-se obcecado por dar resposta a indagações como “who is the audience and how do you address them?” e “what do you write? for who?”.

Como qualquer profissional da indústria do cinema, guardou o melhor – na forma de considerações mais personalizadas – para o fim. Defendeu com unhas e dentes a ideia de que nada tem que faze sentido, partindo do pressuposto que basta ter energia. Classificou a escrita como um exercício de inflexão mental, de cariz pessoal e sempre refletor das experiências mais variadas.

A propósito do surgimento de plataformas como a Netflix e semelhantes, deixou no ar um pensamento pouco ortodoxo, capaz de surpreender alguns dos estudantes (aspirantes a guionistas, realizadores e/ou dramaturgos) sentados nas filas mais traseiras da plateia, no Centro Cultural de Cascais: o sistema de entrega é mais importante do que os filmes em si.

Depois de um espaçado período para almoço, o roteiro da tarde conduziu-nos até à Casa das Histórias Paula Rego, situada a escassas centenas de metros do anterior local.

“Escrever Comédia” trouxe Adriana Falcão para uma boa hora do mais genuído dos exercícios de storytelling. À cinquentenária – mãe de Clarice Falcão, que lhe vai seguindo as passadas – já ninguém tira a vasta reputação enquanto escritora, guionista e argumentista, maioritariamente de humor.

Quem, a reboque do título, esperava uma conversa premoniantemente técnica e com insights detalhados sobre os procedimentos inerentes à escrita de comédia, desiludiu-se. A autora foi lesta a renunciar às técnicas pré-estabelecidas e a assumir-se, ela própria, como leiga. Um pouco à semelhança de outros escritores de comédia, não nos entregou de bandeja a sua fórmula mágica, pois considera que “se existe método, comigo não funciona… (…) Um dia vão descobrir que sou impostora, que não sei nada e que tenho tido sorte”.

Explicou, isso sim, o processo que percorre religiosamente a cada novo início, em cada projeto que enceta. Classifica-o como doloroso, pois logo à partida surge a ideia de desistir. Depois, com o pânico já mais contido, nasce a hipótese de reciclar algo já escrito. Por fim, numa tirada que conquistou a sala, surge a ideia de se matar.

Enquanto se debatia com a própria timidez, ia ganhando o auditório ao explicar – agora mais a sério – como se dava a ignição da coisa: “em geral, parto de um ponto-de-vista que seja peculiar (…) uma personagem, uma história. Daí, finjo que nada sei sobre essa pessoa e tento reconstruir tudo com base nessa ignorância induzida”.

Aos poucos, à medida que a palestra prosseguia, foram-se descobrindo as genuínas motivações – mesmo que a autora as desconheça – por detrás daquele talento nato para contar histórias “de rir”: seja de maior ou menor dimensão, o humor vem sempre da tragédia pessoal.

Sem espaço para revelar todo o enredo, permitam-me que vos faça chegar a sinopse: ambos os pais se suicidaram, em épocas diferentes e apoiados em diferentes motivos. O pai pôs término à vida quando Adriana tinha 18 anos e estava grávida da primeira filha, enquanto a mão só se foi mais tarde, mesmo padecendo de uma condição mental algo indefinida (neurótica foi a palavra usada pela autora). A partir deste momento, o ambiente tensificou-se e a escritora tomou a sua mãe como personagem da história que nos ia contando. Passou pelo mais episódico, pelas situações surreais, pelas caricaturas mais enternecedoras e confessou que a “a maneira mais fácil de lidar com aquilo era ser menos doida, menos crítica”; “a gente tem que entender a loucura do outro”. O recorrido pelas memórias pessoais dominou a segunda metade da palestra, numa abertura desconcertante e esclarecedora.

Na relação com a mãe, tal como no trato das personagens, disse-se dona de um olhar acrítico; isto, claro além, para além de afirmar que defende os seus protagonistas da mesma forma que, em tempos, defendeu a sua mãe.

Quase uma hora depois, foi peremptória a pôr término ao clima de tristeza que tinha tomado conta da plateia. Com um golpe de asa que tem tanto de sábio como de genuíno, sorriu “é muito trágico mas a gente tá falando de comédia”.

Deixo um sincero agradecimento pela partilha, Adriana.

Adriana Falcão

O senhor que se seguiu é já um habitué dos espectadores portugueses. Rui Vilhena chegou com a responsabilidade de esmiuçar o processo de “Adaptar um Livro para Guião”. Equador – escrito por Miguel Sousa Tavares e adaptado por Vilhena para televisão, numa mega-produção TVI – foi o projeto a dissecar. Antes, em jeito de quebra-gelo, atirou sem medo: “o critério para ser autor, é ser tímido”.

Para que seja possível começar a pensar numa adaptação bem-sucedida, há que ver cumpridos dois pré-requisitos: gostar do livro e recear o clichê do “livro melhor que o filme”. Cumpridos ambos, inicia-se o processo de criação.

Por questões de narrativa e logística, ficou estipulado que a saga teria 26 episódios; ora, pelas contas do guionista, e de acordo com o seu ritmo de criação, isso conferia-lhe 26 dias para escrever um episódio diariamente. Não aconteceu.

Para além de ter mergulhado no livro de cabeça, enveredou por uma análise página-a-página. A isso, aliou-se o facto de se assumir como um escritor urbano, das grandes urbes e Equador ser uma epopeia absolutamente rural, colocando-o definitivamente fora da zona de conforto.

O processo de escrita perdurou por uns longos 8 meses.

Por diversas vezes no decorrer da palestra, Vilhena classificou o desafio como um “verdadeiro inferno” por culpa da excessiva ingerência de Sousa Tavares nas filmagens. Um ultimato depois, o clima amenizou devido às cedências de ambas as partes.

À posteriori, defendeu que uma adaptação “não deve ser um clone da obra” e bateu-se pela ideia de que em televisão, “todo o personagem deve ter um propósito”, por oposição ao que ocorre na literatura. Para legitimar a primeira ideia, apoiou-se no exemplo histórico da nvela brasileira Gabriela, também ela uma adaptação do romance de Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela. Segundo o argumentista, Jorge Amado estaria a ver a novela com a esposa, quando exclamou : “Não é meu livro, mas tá bom”.

Depois de se dizer obcecado por ganchos, desmontou o conceito. Numa série televisiva, ou novela, o gancho é colocado no final de cada episódio; regra geral, retrata uma situação-limite, tendo como intuito deixar o espectador antever o desenrolar da cena. Em bom rigor, é isso que nos mantém em suspense até ao episódio do dia seguinte. Estaria tudo bem, caso não tivesse corrido bem demais.

Depois de uma estreia em televisão arrebatadora, a direcção comunicou que a bem do melhor aproveitamento das gordas audiências, o produto deveria ser esticado de forma a perfazer 30 episódios. Resultado? Um truque de edição aqui, planos de paisagem mais looooongos e os ganchos sensivelmente a meio dos episódios, quando se queriam no seu final.

Foi a própria mulher a adverti-lo, quando ambos viam Equador juntos: “estes finais estão fraquinhos, nem parecem teus”.

Não obstante, para a história ficou uma série televisiva portuguesa de sucesso, gravada em 4 continentes distintos e com audiências difíceis de igualar.

Após um culto intervalo, pretexto ideal para explorar o farto coffee-break gentilmente oferecido pela Globo, foi a vez de Adílson Xavier mostrar ao que vinha. “Produção independente de Séries de TV” trouxe o testemunho de um movimento migratório que vai sendo cada vez mais recorrente. Publicitário até 2011, mudou de vida aos 50 anos por querer algo com “mais espaço e menos aborrecimento”. De resto, grande parte dos ativos presentes no mercado audiovisual são originários do ramo da publicidade: as ideias parecem ter todas morada nas mesmas mentes.

Hoje CEO da ZOLA Filmes, defende que o problema está longe da anunciada “falta de mercado” e mais próximo do elevado número de veículos para transmitir conteúdos, o que invariavelmente, conduz a um gradual aumento da profundidade na TV paga, deixando os canais abertos algemados ao (ultra)passado.

Para além de estar certo de nos encontrarmos, hoje, na Television Golden Age, é (novamente) com lucidez e humor que denota as fragilidades das produções independentes: “pequeno, pobre e perto do perigo”, a par da obrigatoriedade de toda a equipa estar envolvida em toda e qualquer parte do projeto. Há, portanto, uma responsabilidade acrescida, bem como o imperativo de se ser criativo “o tempo todo”. À semelhança de outros autores, também vive convencido do papel central das (boas) ideias em todo o processo, pese embora o facto de julgar um bom personagem mais valioso que o próprio enredo.

Nutre um amor singular pelas séries, em detrimento das longas-metragens. E a explicação é simples: há nelas uma oportunidade mais fértil de criar empatia, e consequentemente relações, entre personagem e espectador. Para além de possuir uma profundidade só comparável com a alta literatura, a série televisiva assume-se hoje como uma “longa-metragem bem fatiada”.

Apesar da conjuntura pouco animadora, com escassez de apoios estatais e uma profunda recessão económica que (também) fustiga o ramo audiovisual, deixou o palco da Casa das Histórias com um indicador ilustrativo de uma tendência animadora: no espaço de 3 anos, as produções nacionais aumentaram cerca de 300%.

Num dia pautado por intervenientes maioritariamente brasileiros, o estado da indústria foi tema recorrente entre os vários intervenientes. Nas entrelinhas, a par de observações mais óbvias, registou-se a predisposição de mais e maiores parcerias entre os agentes do mercado lusófono, quer na produção, como na distribuição. Veremos que tipo história o futuro nos reserva.

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