A prosa gritou poesia em ‘Nossos Ossos’, de Marcelino Freire

6 AGOSTO, 2017 -

Valter Hugo Mãe, no prefácio a Nossos Ossos, introduziu Marcelino Freire como o “(…) mestre. (…) um escritor de maravilha, na esteira dos maiores do seu país, na esteira dos maiores da língua portuguesa” e terminou, afirmando: “Não dá medo ler Marcelino Freire. Dá juízo”. Iniciamos uma espécie de ritual de preparação para o que se aproxima e antevemos; respiramos de modo profundo, porque nos iremos embrenhar (ou embater?) no colosso literário que Valter Hugo Mãe nos promete. Porém, falhámos redonda e inegavelmente. Qualquer preparação não terá sido suficiente. A violência, a angústia e a individualidade de Nossos Ossos impõem-se como um percurso, uma luta. Temos de suspender a leitura para recomeçar com outro fôlego. Imbuímo-nos em Heleno Gusmão, bebemos do seu amor a Cícero, também referido como o boy. Uma viagem visceral, sem dúvida.

Marcelino Freire (n. 1967), escritor brasileiro, tem vindo a privilegiar o conto, tendo publicado Angu de Sangue (2000), BaléRalé (2003), Contos Negreiros (2005) – galardoado com o Prémio Jabuti de Literatura, em 2006 -, Rasif – Mar que Arrebenta (2008) e Amar é crime (2010). Assim, Nossos Ossos (2013), que surge, apenas este ano, nas livrarias portuguesas, é a primeira prosa longa do autor. A obra já terá também chegado a países como a Argentina e França e arrecadou o Prémio Machado de Assis 2014 de Melhor Romance.

O protagonista desta obra chama-se Heleno Gusmão e é dramaturgo. Esboçar, moldar e entregar o destino aos seus personagens sempre se configurou como o seu propósito, o seu sonho. Num mundo de animais, ambicionava ser rei. Num mundo de violência e de morte, almejava tocar as entranhas da vida e penetrar o submundo. Num mundo doloroso e impiedoso, buscava erguer-se, sentindo inteiramente:

“Pedi ainda um tempo para pensar, eu sempre fui devagar na preparação dos instrumentos, naquele solo de rachar, eu gostava, repito, de costurar vestimentas, criar um texto qualquer, inventar uma história para ver a tarde cair, meus irmãos ficarem curiosos, presos às aventuras que eu arquitetava ali, na hora, o destino eu tinha em minhas mãos, quando crescer eu quero ser várias pessoas, ir fundo, escrever para me sentir, assim, o dono do mundo, o rei dos animais”.

Confrontado com o homicídio do seu amante, Heleno decide encontrar a família de Cícero – oriundo de Poço de Boi – para lhes devolver o corpo e conceder um enterro digno. Numa procura, que transcende os preceitos morais, o protagonista recorda o seu percurso, desde o passado pernambucano à vida adulta na grande cidade. Num tom que mescla o fluxo e simplicidade da oralidade com uma violência e profundidade aflitivos, Freire apresenta uma paixão homossexual, entre um dramaturgo e um prostituto, numa cidade que violenta e aniquila, de forma desumana e inclemente.

Num jogo constante da palavra, que se reflete inclusive nos títulos de cada uma das partes do romance, imergimos a um estádio de vigília e de luto, acompanhando o pesar de Heleno por um amante morto, por uma cidade atroz, por um passado distante. Ser e vivenciar pode ser podre e custoso. Esta é uma ‘vida prostituta’. Porém, os ímpetos de vida do protagonista, espelhados também na linguagem desamarrada, liberta-nos do sufoco. Esta São Paulo bestial e crucificadora é essencial à própria experiência vivencial do protagonista. Heleno alimenta-se de excessos e paradoxos, de infernos e vísceras. Afinal:

“(…) a vida é tão curta para ser pequena. Filho da puta, até hoje essas palavras rebatem no meu juízo, ficam cicatriz em minha mente, a gente, mesmo sem querer, se lembra, durante uma eternidade a gente se lembrará do fim da inocência, do que restou daquele primeiro amor, do dia em que meu coração foi ao inferno e voltou (…)”

Fotografia: Mario Miranda Filho/ Agência Foto

Em entrevista ao Observador (18/03/2017), Marcelino Freire assinalou o cariz autobiográfico de Nossos Ossos, ainda que tenha escrito um personagem mais exagerado, uma experiência mais exacerbada: “É autobiográfico, mas eu exagero para construir o personagem. O [amor] dele deu errado. No meu caso o meu amor deu muito errado [risos]. A vida é feita de amores possíveis e de amores impossíveis”. Sobretudo, o escritor nordestino declara o seu fascínio pela marginalidade, pelo submundo, pelos velhos, gigolôs e travestis.

No final de contas, concordamos simplesmente com Valter Hugo Mãe. Marcelino Freire é mesmo mestre; é um grito na contemporaneidade lusófona.

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