À procura de Hemingway em Ronda

21 JUNHO, 2017 -

Ao saber que ia visitar a cidade de Ronda em Espanha, decidi investigar a presença de Hemingway na cidade, um dos seus mais ilustres adeptos e um apaixonado pelo estilo de vida lá praticado. Mas como é que Hemingway veio parar a esta cidade no meio de uma serra, num cenário próximo do épico, a duzentos quilómetros de Sevilha?

Um ano depois do começo da guerra civil espanhola, em 1936, Hemingway partiu para Espanha para fazer a cobertura do conflito para jornais norte-americanos. Documentar a guerra e viajar por Espanha inspirou uma das suas obras mais icónicas – “Por Quem Os Sinos Dobram” –, assim como a única peça de teatro que escreveu. Ainda assim, não foi dessa que se cruzou com Ronda, só visitando a cidade muitos anos mais tarde.

O seu sucesso como escritor e os rumores de que estaria associado à causa republicana deram fama a Hemingway em terras de nuestros hermanos, tornando-se conhecido também o seu grande gosto por touradas. Afinal, já desde o tempo em que vivia em Paris que Hemingway passava uma boa porção do seu tempo em Pamplona a ver as corridas de touros. É, talvez, o elo mais popular entre Hemingway e Espanha. Foi um dos motivos pelo qual visitou tantas vezes o país.

A verdade é que Hemingway não vivia pela metade. Nascido em Chicago em 21 de Julho de 1899, grande parte da sua juventude foi passada a pescar e a caçar com o seu pai. Este estilo de vida, bravo face a qualquer desafio, também está presente no facto de ter lutado na Primeira Guerra Mundial, em Itália (algo que informou o seu corpo de trabalho como escritor). A sua figura macho está bem documentada e a sua estadia em Espanha também comprova isso.

A Andaluzia era uma das suas paragens frequentes. A arena de Málaga recebeu-o por diversas vezes. Em 1959, decidiu voltar a Espanha, não só para escrever sobre Tourada, mas também para relatar um mano a mano – uma espécie de duelo entre dois matadors para decidir quem é o melhor toureiro. A rareza destes encontros levou a que Hemingway fosse a Ronda escrever um artigo para a revista Life (numa altura em que a presença de Franco no poder irritava Hemingway em demasia).

Ronda é conhecida pela sua localização dramática, a sua paisagem marcada por uma ponte de pedra sob um desfiladeiro de cem metros. Um detalhe cénico que parece fazer mais sentido num episódio da Guerra dos Tronos ou do Senhor dos Anéis. Ronda é um dos “pueblos blancos” e um local habitado desde o séc. IX. Já tinha impressionado e seduzido romanos, árabes e visigodos. Para Hemingway revelou-se o seu último destino em Espanha, apaixonando-se pelo estilo de vida da cidade – pela possibilidade de beber vinho ao pôr-do- sol, de se perder na paisagem. Escreveu que “Ronda é o sítio para ir se for a Espanha em lua de mel, a cidade inteira é um cenário romântico.”

Quando lá chegou já era grisalho, usava o cabelo escondido num chapéu de tweed, a barba enorme certíssimo para a sua idade. Na fotografia, está acompanhado por um dos toureiros que ia competir na corrida sobre a qual escreveu em “Um Verão Perigoso.” É que o seu artigo nunca chegou a sair na revista Life, mas acabou por ser publicado e é considerado o seu último livro. Conta a história da rivalidade entre Luis Miguel Dominguín e o seu cunhado António Ordóñez (na foto).

Na cidade, à procura de Hemingway, encontrei a sua estátua muito próxima, como seria algo óbvio, da Praça de Touros. A inscrição na estátua fazia justiça à sua paixão, aspirava a escrever como se toureava em Ronda: “De forma sóbria e com um repertório limitado, simples, clássico e trágico.”

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