A nova vida de Fernando Namora

15 SETEMBRO, 2017 -

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Num tempo em que a memória literária tantas vezes sucumbe às mãos da amnésia, a Editorial Caminho avança com a reedição dos principais títulos de Fernando Namora. Depois de Retalhos da Vida de Um MédicoO Rio Triste acaba de desaguar nas livrarias. 

Por razões variadas nem sempre facilmente explicáveis, escritores hoje tidos como grandes, alguns deles alçados à condição de clássicos, passaram pela vida como ilustres desconhecidos; dir-se-ia que a celebridade lhes foi inteiramente póstuma. Outros, acolhidos pela melhor critica mas recebidos com fria indiferença pelo público, tiveram de sujeitar-se a uma posteridade vagarosa. Outros ainda, pelo contrário, tiveram impacto imediato, conheceram raro acolhimento público, mas a morte veio progressivamente apeá-los de um cume em que parecia terem-se fixado.

É o caso de Fernando Namora, autor de mais de 30 títulos publicados, entre romances, contos, crónicas e poesia, nome saliente do trajecto neo-realista cuja obra constituiu, ao longo das primeiras décadas da segunda metade do século XX, um fenómeno de vendas e traduções, da China aos Estados Unidos.

Ainda a marca Pessoa, longe de sonhar com o catálogo da literatura de caneca ou de t-shirt, não circulava no estrangeiro, e já o autor de Retalhos da Vida de um Médico corria mundo em traduções para as principais línguas europeias, mas também em África e nas Américas, onde conquistou público bastante para esgotar edições.

Poucas décadas bastaram para que o escritor-médico passasse de «grande génio da literatura portuguesa» (assim o apresentavam artigos e recensões, badanas e contracapas) a escritor atirado para o lote dos autores conjunturais, exumados apenas ao sabor das conveniências ou das exigências da sócio-literatura, como se, no caso, a realidade profunda do Portugal fascista, os itinerários do país salazarento, a indagação ficcional sobre a nossa história e os desafios que Namora lhe lança não pudessem interessar novas gerações de leitores.

A existência literária de Namora passou, em boa verdade, a confinar-se aos territórios da especialidade. E até há bem pouco tempo, quem quer que o buscasse numa livraria perdia a viagem. Nem sinal daquele que abriu os livros ao inventário romanesco dos trabalhos e dos dias sofridos dos homens e das mulheres sem juventude e sem descanso, aos quais deu generosamente corpo e voz, relevo, dinâmica esperançada – vida. E um toque de efectiva grandeza, pois sempre lhe doeu a carga de submissão das existências mais humildes. Do autor de Resposta a Matilde (1980), e para os mais persistentes, apenas uns ‘restos de colecção’, jazendo num ou outro armazém.

A Caminho, que este ano publicará ainda o romance Domingo à Tarde e até 2019, data do centenário do nascimento de Fernando Namora, pretende dar continuidade à republicação das obras do autor, veio pôr fim a este definhamento editorial. Depois das duas séries narrativas de Retalhos da Vida de Um Médico, concentradas num único volume, entretanto esgotado e já em processo de reimpressão, acaba de sair O Rio Tristecom um prefácio de David Mourão-Ferreira que o apresenta como «o mais polifonicamente ambicioso e o mais arrebatadoramente conseguido de quantos romances Fernando Namora escreveu».

Último romance escrito por Namora, aquele que apesar de tudo era indispensável escrever, corre muito fora dos trilhos do neo-realismo e longe daquele optimismo que encontramos em zonas anteriores da sua obra. Originalmente publicado em 1982, O Rio Triste é um romance para atravessar de galochas, daquelas bem altas, pois o que se pede ao leitor – a quem se recusa o papel de mero espectador de ficção – é «o mergulho na vida até ao pescoço».

Romance de primeiríssima água, traz no título a atmosfera em que se move: amarga, desalentada, dominada por uma sensação de fim que foi também a do autor quando acabou de o escrever, como se o vazio o viesse habitar, colocando-o perante o limite dos signos que lhe couberam em sorte. «A partir dele entrei num período de melancolia, de depressão, de vazio. Vazio interior… Sinto-me no vácuo, com uma enorme sensação de fim, como se tudo aquilo que eu tivesse de dizer como escritor estivesse dito», afirmou numa entrevista dada a Fernando Dacosta, publicada no JL.

A narrativa, feita do cruzamento de várias vozes e da interacção de registos e de discursos de diversa proveniência (do jornalismo, da publicidade), roda em torno do desaparecimento de Rodrigo dos Santos Abrantes, um homem de rotina cinzenta, casa-emprego-casa, que nunca chegaremos a conhecer, e que é tanto o eixo de um mistério onde nenhuma chave cabe, como a questionação da existência, esse rio que não pára de correr, e do seu sentido.

Assim como um rio recebe mananciais de ambas as margens, também este romance de alcance duplamente colectivo (no plano familiar e no plano nacional) se alimenta dos dois lados, antes e depois dessa fronteira histórica que o ano de 1974 configura. Quase todos os temas da história portuguesa das últimas décadas encontram lugar neste Rio discursivamente fluente, num exercício de aparente facilidade verbal que esconde a cautelosa manipulação da realidade: a guerra colonial, a clandestinidade e a resistência, a chaga da emigração, o jornalismo a contas com a censura, as greves reprimidas, os tribunais plenários, mas também o amor, a morte e a própria literatura – tudo atado numa coesão temática de longo alcance.

Romance total o quis Namora, livro-soma de todos os livros no qual se condensa toda a sua experiência romanesca, todo o talento literário que aqui se exibe na sua plenitude: «o romance tem de ser uma soma, um inventário, um suicídio torrencial, apocalíptico. Uma enxurrada de vida a despenhar-se num abismo. O romance é um acto derradeiro, um testamento.»

A este rio de tom dorido banhado de atmosferas contidamente trágicas, vêm desaguar, a um tempo, a tão portuguesa experiência de ir ao fundo e as angústias da própria criação literária. E por isso se faz, se desfaz e refaz, se adia e se estrutura diante dos nossos olhos.

Artigo escrito por Teresa Carvalho / Parceria jornal i

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