‘A morte do Príncipe’ – O resgate do Homem

27 OUTUBRO, 2016 -

No segundo piso do Teatro da Trindade, depois de passar dois lanços de escadas com toda a estranha e magnífica alcatifa verde e detalhes dourados que dominam as vistas, entramos na sala estúdio e o palco é de um curioso elemento para a altitude a que nos encontramos da rua: terra. “A morte do príncipe” é, segundo os interpretes, Lídia Muñoz e José Condessa, e o encenador-dramaturgo, Ricardo Boléo, isso mesmo: um regresso à terra, à raiz, aos afetos e à sexualidade além do sexo, um regresso ao tempo para o outro e ao ser humano.

O nome da obra é emprestado pelo texto homónimo de Fernando Pessoa, “A morte do Príncipe”, e a dramaturgia é um entrelaçado de três autores: Fernando Pessoa, Heiner Müller e William Shakespeare. O ponto de partida é o texto de Müller, “Máquina Hamlet” (com apenas 9 páginas), escrita após uma “leitura furiosa”, como lhe chamou Ricardo Boléo, do mais antigo dos “Hamlet”, o de Shakespeare. Esse Hamlet que, e ainda segundo o encenador, foi o primeiro homem antropocêntrico, em oposição à visão teocêntrica da idade média.

“Máquina Hamlet”, escrito antes da queda do muro de Berlim, traz-nos um homem revoltado contra as crises do século XX, dividido entre o desejo de se tornar em algo sem sofrimento ou pensamento, uma máquina, ou num ser que reflete e questiona sobre esse tempo de grandes tragédias humanas e dor. Amar ou não amar, agir ou parar, ser ou não ser.

A aparente inação é algo muito característico da peça. As personagens – Hamlet e Ofélia – estão estáticas grande parte do tempo, de frente para o público sem se olharem, a dizer um texto sobretudo lírico. Trata-se de um ambiente controlado, derrotado, onde um homem e uma mulher que parecem presos a alguma coisa imperceptível, procuram criar uma ligação através dos afetos já consumidos pela máquina. Há, no entanto, acção interior, e existe transformação nas personagens. São cenas carregadas de uma angústia quieta que passa para o público, mérito dos interpretes, que terão o desafio de prender a atenção durante uma hora com muito poucas acções físicas. A estética da encenação assim o exige: não há desperdício de objetos, sons, gestos, movimentos ou palavras. Tudo é símbolo e aparece apenas quando necessário.

O palco, que no seu global parece um espaço inóspito, está divido em duas áreas bem distintas. Num lado, e por meio de um belo desenho de luz de Miguel Cruz, há um recanto com ambiente onírico próprio dos textos de Pessoa. No outro existem televisões e a régie. O encenador está em palco, a fazer a operação técnica e a interagir com as personagens. É aqui que entra o teatro dentro do teatro: o interprete de Hamlet revolta-se, por vezes, contra a dramaturgia, revelando ao público o ator e, por consequência toda a realidade ambígua do teatro e do Homem.

É uma peça de ambiente denso que convida o espetador a deixar-se entrar num estado de imersão, desafiando-o a questionar-se e a repensar os seus valores mais profundos.

“A Morte do Príncipe” estará em cena de 27 de Outubro a 20 de Novembro, de quarta a domingo no Teatro da Trindade, em Lisboa.

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Nota: a peça, no ensaio de imprensa, não foi vista na íntegra.

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