A minha ida ao festival dos Bon Iver e dos National

11 AGOSTO, 2016 -

Há pouco mais de um ano, entrei num avião com destino a Chicago, depois conduzi cerca de 500 quilómetros e cheguei a Eau Claire, Wisconsin. A viagem estava há muito planeada, mas as datas foram marcadas em função da 1.ª edição do festival do Justin Vernon e do Aaron Dessner, Eaux Claires.

A edição deste ano será diferente terá mais palcos, terá mais exposições de arte e promete continuar a ser uma comunhão perfeita de arte, natureza e pessoas. Este ano também será marcado pela apresentação do novo álbum de Bon Iver ao vivo, numa actuação onde só se ouvirão músicas novas. Também vários músicos juntar-se-ão em palco para o projecto Day of the Dead de tributo aos Grateful Dead. Haverá James Blake, Beach House, Lisa Hannigan, Phosphorecent, LNZNDRF, Mavis Staples, Unknown Mortal Orchestra e tantos, tantos outros que confluem precisamente nestas frases de Justin Vernon, presentes no programa do festival:

 “Humility. It is the only suitable term. Even the word Welcome – which we hereby offer with all heart and heartiness – carries the implication that this place belongs to us, when in fact we belong to this place.”

A melhor e mais bonita experiência de música que eu vivi, com palavras que não lhe fazem jus. Há um ano foi assim:

Imaginem uma floresta com uma cidade no meio. Assim é Eau Claire. Não é uma cidade vibrante, é uma cidade tranquila, com pessoas extremamente simpáticas, com uma beleza natural extraordinária e com um foco musical forte. A zona de Chippewa Valley, onde Eau Claire se insere, recebe, em média, 152 eventos musicais por mês, de acordo com a publicação Volume One. A uma hora e meia de Minneapolis, Eau Claire é a cidade que viu nascer Justin Vernon (Bon Iver) e que representa um papel essencial tanto na vida como na carreira do músico. Não são muitos os músicos que residem em Chippewa Valley, mas são muitos os que aqui nasceram.

Eaux Claires. Um projecto de Justin Vernon e Aaron Dessner (The National) que junta, nas margens do rio Chippewa, bandas como The National, Sufjan Stevens, Spoon, Low, The Staves, Bon Iver, entre outras. Mais do que um mero festival, é um evento feito por músicos para músicos e para amantes da música, com artistas que se respeitam e colaboram. E as colaborações estiveram sempre presentes neste festival.

Começou com a colaboração entre os irmãos Dessner, Ragnar Kjartansson e as irmãs Valtysdóttir (da banda islandesa múm) intitulada Forever Love: Trees and Pines e onde foram musicados poemas de Sylvia Plath, e.e. cummings e Bertolt Brecht num cenário bucólico.

The Staves. Fizeram a primeira parte de Bon Iver no Campo Pequeno e é visível o crescimento que a banda teve nos últimos anos, principalmente com o magnífico disco If I Was deste ano, produzido por Justin Vernon. Muito apreciadas pelo público, foi a constatação de que são uma banda muito coesa e de um enorme talento.

Entretanto estavam 32º e 85% de humidade no ar e eram 5 da tarde porque aqui os festivais começam às 13:30.

Por fim, The National. Quem, como eu, viu The National 8 vezes já conhece a fórmula. Uma extraordinária entrega do vocalista Matt Berninger, desta vez com algumas falhas, e uma excelente execução da banda. Não foi o melhor concerto que vi deles, podia ter tido mais canções de discos anteriores, como Sad Songs for Dirty Lovers, mas foi um bom concerto. A meio teve a participação de Sufjan Stevens, em “Afraid of Everyone”, “Squalor Victoria” e “I Need My Girl” (com um pedido de casamento no público, estes americanos apostam tudo); uma cover de Grateful Dead (a banda tem estado a trabalhar num tributo aos GD, com artistas como Lee Ranaldo, entre outros); Ragnar Kjartansson em “Sorrow” (com quem colaboraram na maratona de 6 horas a tocar “Sorrow” no MOMA); Justin Vernon em “Slow Show” e “Terrible Love”; e culminou com Sufjan Stevens e Justin Vernon e 22 mil pessoas a cantar “Vanderlyle Crybaby”. Já agora, a pedida em casamento aceitou.

O segundo dia foi um nadinha mais fresco, até porque houve uma tempestade a meio da noite, com direito a sirenes de alerta e tudo, mas ainda assim sofrível.

Phil Cook no palco principal, com um folk rock-qualquer-coisa-parecida que se ouve muito bem e recomenda-se. Mas S.Carey a seguir foi extraordinário. Quem segue Bon Iver já terá ouvido falar de S. Carey e a distinção é mais do que merecida. Ao longo de 45 minutos, e acompanhado pela Eau Claire Jazz Ensemble, apresentou canções dos seus dois álbuns de uma forma imaculada, é um excelente músico, um excelente compositor e atrever-me-ia a dizer que foi o concerto do dia. E sim, foi no dia do concerto de Bon Iver.

Sufjan Stevens. Eu já estava a marcar terreno para Bon Iver e tinha esperança de conseguir ouvir tudo bem. Mas não. É raro ter Sufjan Stevens em festivais, aparentemente é uma opção do músico (brincou que poderia contrair uma DST em festivais), mas o que ouvi comprovou que este festival, talvez por não ser tão movido pelo lucro como outros, é um festival especial para todos. E todos nós podemos senti-lo, independentemente de estarmos em palco ou fora dele. Foi a minha grande pena, mas espero vê-lo em breve. Até porque é o homem mais bonito que eu já vi.

Sufjan Stevens - Eaux Claires
Foto: Laura Fanelli

Por fim, o momento mais aguardado do dia era Bon Iver. À semelhança do que já havia acontecido em The National, Michael Perry, o narrador do festival, apresentou a banda realçando, mais uma vez, toda a mística que estava a ser vivida nas margens do rio Chippewa.

Justin Vernon deu talvez o concerto mais emotivo da carreira dele, não só por voltar a tocar as músicas que lhe trouxeram o reconhecimento que tem hoje, como pelo culminar do festival pelo qual trabalhou, deu a cara e que não teve uma única lacuna. O concerto começou com “Heavenly Father” e percorreu os dois álbuns e EP da banda, com vários membros que antes integravam a participar em algumas canções, nomeadamente Reggie Pace e a sua No BS! Brass Orchestra, Colin Stetson e C.J. Camarieri.

Não era fácil agradar a todos, eu gostava que tivesse a profundidade sonora que Bon Iver nos habituou na última digressão, esperava mais do que 1 hora e meia de concerto, mas foi muito bom, e bastante emotivo, ouvir e sentir toda a emoção que Bon Iver nos traz. Ou me traz.

Foto: Andrea Swensson/ thecurrent.org

Com as The Staves a fazer coros em algumas canções, quase a conferir-lhes um toque angelical, os irmãos Dessner e um convidado que creio ser de Aero Flynn, Justin Vernon despediu-se com duas músicas novas e quase em lágrimas daquele que foi o primeiro concerto de Bon Iver desde 2012.

Alinhamento de Bon Iver:

“Heavenly Father”

“Lump Sum”

“Towers” (curiosidade: as residências da Universidade de Eau Claire, onde estou alojada, chamam-se The Towers e o nome desta canção deve-se a estas mesmas torres)

“Calgary”

“Flume”

“Blindsided”

“Brackett, WI”

“Babys

“Holocene”

“Perth”

“For Emma”

“The Wolves (Act I and II)”

“Nova 1”

“Nova 2”

“Skinny Love”

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