‘A literatura russa tem a capacidade de ver o ridículo da vaidade humana’

31 JULHO, 2017 -

A par de romances como Guerra e Paz ou Crime e Castigo, Almas Mortas é considerado uma das obras-primas da literatura russa. Quando foi publicado, suscitou reações extremadas: uns acharam-no genial, outros revoltante. O grande livro de Nikolai Gógol acaba de ser reeditado em Portugal, pela Assírio e o SOL falou com os tradutores.

A14 de outubro de 1839, o escritor Nikolai Gógol dirigiu-se a casa da família Aksákov para almoçar e cumprir a promessa de ler passagens de um dos seus últimos livros. Chegou notoriamente atrasado – às quatro da tarde. Deu uma desculpa qualquer, comeu, bebeu um copo de vinho e, finda a refeição, reclinou-se num canapé e adormeceu. «As senhoras estavam angustiadas: acordaria ele de bom humor ou rabugento?», conta Henri Troyat na biografia do autor (Gógol, 1971).

Assim que despertou, Gógol pretendeu não se recordar da promessa, alegou que o jantar da noite anterior não lhe caíra bem e pediu que o poupassem a esse sacrifício. Mas por fim lá acedeu aos pedidos dos anfitriões e leu parte de uma peça de teatro inédita. «No final, a plateia explodiu em aplausos».

Encorajado pela reação, «Gógol anunciou que ia ler agora um grande capítulo de Almas Mortas», continua Troyat. «Desta vez, o entusiasmo foi levado ao auge. […] Ao correr das frases, um universo ao mesmo tempo verídico e grotesco, cinzento e alucinante, abria-se perante a assistência pasmada». O dono da casa repetia «Genial! Genial!» e «as senhoras extasiavam-se, suspiravam, alongavam-se em exclamações».

Bem diferente seria a receção por parte da comissão de censura. A obra foi considerada ultrajante, subversiva e revoltante – mas acabaria por passar ao fim de alguns meses. A primeira edição, de março de 1942, esgotou rapidamente e desencadeou uma polémica que dividiu os leitores: uns ficaram «fascinados», outros «perplexos» e outros ainda «enraivecidos» por se verem retratados sem piedade no livro.

Este clássico russo acaba de ser reeditado em Portugal pela Assírio & Alvim, com tradução de Nina e Filipe Guerra. Nina Okuneva nasceu em Moscovo em 1950, fez mestrado em Línguas Românicas e Germânicas e trabalhou para editoras que publicavam em português. Na capital russa, conheceu Filipe Guerra, que ali esteve entre 1986 e 1989 a fazer traduções para a editorial Progresso, e mudou-se para Portugal em 1990. Casaram-se e publicaram a primeira tradução conjunta em 1996, uma antologia de poesia de Óssip Mandelstam: Guarda Minha Fala para Sempre. Desde então não pararam de verter clássicos da literatura russa para português – Tólstoi, Dostoiévski, Gógol, Tchékhov, Béli… – e em 2002 foram distinguidos com o Prémio da SPA e do Pen Clube Português.

Avessos à exposição pública, os tradutores não gostam de ser fotografados e optaram por responder às perguntas do SOL por email.

Quando foi a primeira vez que leram este livro e com que impressão ficaram?

O Filipe leu este livro pela primeira vez numa tradução francesa, trinta anos atrás, quando trabalhava em Moscovo. A Nina leu-o na escola secundária, não só porque fazia parte do programa escolar, mas também porque sempre gostou de Gógol – já aos oito anos de idade os seus contos baseados no folclore ucraniano tornaram-se a sua leitura preferida.

O humor amargo de Gógol, em que o cómico e o trágico se confundem, é um traço da literatura russa ou algo específico deste autor?

Amargura sim, mas o trágico? É um termo um pouco fora do contexto. Pelos vistos, tem em mente «o riso visível através das lágrimas invisíveis»? Preocupação, descontentamento, desejo de desmascarar e pôr fim aos vícios da sociedade, compreensão de que os problemas são graves – isto sim. Já a tragédia pressupõe um final catastrófico e uma catársis que o leitor, em resultado, experimenta. Aqui não há nada disso. (A não ser que consideremos uma ‘tragédia’ o malogro da burla maquinada por Tchítchikov.) Este livro lê-se descontraidamente, com prazer, o humorismo de Gógol é encantador, a sua sátira é certeira, implacável, demolidora. Quanto à segunda parte da pergunta, diria que a literatura russa tem esta característica inalienável: a capacidade de ver com olhos abertos o ridículo das vaidades humanas.

Esta estranheza, estes exageros, estes acontecimentos com algo de absurdo correspondem a algum traço de carácter do escritor, a uma personalidade peculiar, ou, pelo contrário, Gógol era uma pessoa ‘normal’?

Depende da definição que se der de normalidade. Vladímir Nabokov disse: «Gógol era uma criatura estranha, mas o génio é sempre estranho; só uma mediocridade saudável parece ao grato leitor um velho amigo sábio […]. A grande literatura roça o irracional». Agora sobre os exageros e os acontecimentos absurdos: na verdade, os ‘exageros’ são, pelos vistos, o grotesco que é próprio da sátira. Os acontecimentos no livro não são mais absurdos do que tudo o que vivemos realmente todos os dias. Só que não reparamos em nada, e o escritor genial tem olhos para ver.

Porque leva a obra o subtítulo «Um Poema» se é escrita em prosa?

O termo ‘poema’ associa-se, normalmente, a uma obra em verso. Mas isto quanto à forma. Pela sua essência, o poema é uma obra lírico-épica (o épico é representado pelas aventuras de Tchítchikov, o lírico é exprimido em digressões líricas do autor) em que se reflecte uma época histórica, a vida de um povo e, até, da humanidade. Além disso, o próprio Gógol falou de mais um género – a obra épica menor que «contém todo o conjunto épico de notáveis fenómenos particulares» com tendência satírica e invectivadora. Por isso, embora a ideia inicial fosse um romance de aventuras tradicional, Gógol saiu das margens do romance, da novela e do poema tradicionais. As margens habituais dos géneros literários eram demasiadamente estreitas para o escritor.

Houve algum acontecimento que inspirasse ou desencadeasse a escrita deste livro?

O argumento de Almas Mortas foi sugerido a Gógol por Aleksandr Púchkin. Existem pelo menos duas versões de histórias reais de vigarices com ‘almas mortas’ que deram a ideia para o livro. Uma das vigarices era tal qual como no livro (compra dos servos que já morreram mas que ainda figuravam nos registos como vivos para, a seguir, se obter créditos, empenhando esta propriedade, e também para receber gratuitamente terras nas províncias ocidentais do império).

Em que circunstâncias o autor escreveu o livro?

Primeiro, na primeira metade dos anos 1830, trabalhou no livro na Rússia, mas no Outono de 1836 partiu para o estrangeiro (Suíça, França, Alemanha, Itália). A maior parte do trabalho foi feita em Roma, entre 1837 e 1839. Gógol achava que «o escritor moderno, escritor cómico, escritor dos costumes, tem de estar o mais longe possível da pátria».

Gógol tinha algum objectivo em mente quando escreveu Almas Mortas? Por exemplo, denunciar injustiças ou apresentar uma espécie de espelho através do qual o povo russo se desse conta dos seus defeitos?

Os livros não se escrevem assim. A ideia geral, a partir da qual se cria seja o que for, é própria do jornalismo do mais baixo nível, ou de uma propaganda barata (primeiro uma ideia geral, e logo se vê que coisinhas se podem adaptar a isso). A arte anda pelos seus próprios caminhos, e o ponto da primeira inspiração pode ser uma impressão absolutamente inesperada – uma conversa casual, uma paisagem que, por uma associação, dá início a uma imagem, uma brincadeira, uma aventura etc., etc. Além disso, não é o povo, russo ou outro qualquer, que tem defeitos, o defeituoso pode ser o sistema social e político. Ninguém sabe nem saberá qual foi o factor inspirador que despertou a ideia de Almas Mortas.

Como foi o livro recebido na época?

Quando, em 1841, o livro caiu nas mãos da censura, o escritor foi atormentado durante vários meses pelos seus pareceres tradicionalmente absurdos. Acharam que o autor se revoltava contra a imortalidade da alma, contra a servidão da gleba, que apoiava o crime da sua personagem central, ou pelo menos incitava os leitores a cometer semelhantes crimes, e que até indicava um preço demasiado baixo por uma alma. Uma das maiores obras-primas da literatura mundial foi publicada só em Março de 1842. O escritor Serguei Aksákov, contemporâneo de Gógol, escreve nas suas memórias que, quando a tiragem ficou rapidamente esgotada, o público dividiu-se em três partes: as pessoas capazes de compreender o génio do escritor ficaram fascinadas; outras, habituadas a ver nas obras de Gógol um divertimento ligeiro, ficaram perplexas, não compreendendo a profundidade desta obra; e, finalmente, havia quem se enraivecesse, reconhecendo-se a si próprio nas personagens do Poema e acusando o autor de ter insultado toda a Rússia.

Gógol chegou a escrever um segundo volume de Almas Mortas que não nos chegou. O que lhe aconteceu? Temos alguma ideia de como era?

Gógol planeou escrever uma trilogia, em que os peritos muito cedo adivinharam a estrutura da Divina Comédia de Dante. O primeiro volume foi comparado com o Inferno, o segundo e o terceiro teriam um paralelismo com o Purgatório e o Paraíso, ou sa ideia do autor era levar a personagem central e a sociedade pecaminosas pelo caminho de purificação. A ideia foi rica, mas infeliz. A tentativa de apresentar uma solução positiva, uma receita de perfeição, entrou em desacordo com a própria natureza do talento satírico de Gógol e com uma particularidade geral da arte literária: o verdadeiro escritor não inventa soluções, não prega sermões, ele vê a vida, reproduzindo-a e colocando perguntas. O seu leitor, a sociedade, tem de compreender, abrir os olhos, reflectir e tirar conclusões. Talvez o escritor sentisse que o caminho que escolheu o levava para um beco sem saída (há várias explicações hipotéticas da destruição do segundo volume); o facto é que queimou a sua obra duas vezes: em 1845 e em 1852. Por puro acaso, conservaram-se os rascunhos de quatro capítulos da última redacção e um dos últimos capítulos da primeira redacção do segundo livro.

Qual é o maior desafio que Almas Mortas coloca aos tradutores?

O maior desafio para qualquer tradução literária é reproduzir a obra de arte, perdendo o mínimo de ideias, de estilo, ritmo, é não deturpar o conteúdo, encontrando soluções para tudo noutra língua, desde os elementos aparentemente simples até aos quebra-cabeças, como jogos de palavra, provérbios, duplos sentidos, etc. E a ironia, que é absolutamente essencial. Um livro de Gógol apresenta ao tradutor todo o género de dificuldades. Há quem diga que é intraduzível. Estamos de acordo com isso, mas só porque temos uma clara consciência de que nunca atingiremos o nível deste brilhante escritor. Muitas vezes, a própria construção da frase, a ordem de palavras, as repetições levam em si os preciosos sentidos, o humorismo imperceptível que não se pode perder.

Como começaram a trabalhar juntos em tradução? O facto de a Nina ser russa e o Filipe português colocam-nos em vantagem sobre os outros tradutores que têm apenas uma língua-mãe?

A ideia da colaboração nasceu quando, comparando os originais russos com as traduções feitas através do francês ou inglês, descobrimos grandes deturpações de todos os géneros. E começámos a aprender a trabalhar juntos. A vantagem de termos duas línguas maternas é óbvia, embora dê muito mais trabalho.

Como é o vosso processo de tradução? Ambos participam em todas as fases do trabalho ou dividem tarefas? Discutem muito?

Quando se trata de prosa, o processo é o seguinte: a Nina traduz do original russo, o Filipe lê o que disso resulta e aperfeiçoa o estilo, depois a Nina relê o texto outra vez com o original russo, concorda e não concorda, e a fase final é a leitura conjunta, as discussões e a procura das melhores soluções. Mais tarde, lêem-se também as primeiras provas com as emendas do revisor. Quando se traduz poesia, a Nina faz um rascunho sem manter o ritmo dos versos, e sem procurar eventuais rimas, e o Filipe, depois disso, cria uma obra poética. Depois repete-se o mesmo processo.

Qual a principal qualidade da escrita de Gógol que quiseram realçar na vossa tradução?

Não realçámos nada. O objectivo não é realçar, mas compreender e tentar reproduzir todos os aspectos da escrita de modo mais honesto possível. Compreender é o essencial, não nos cansamos de o repetir, já que nem todos os nossos colegas o consideram importante.

Há muita riqueza desta obra que se perde na tradução? Há nuances do russo que não passam para o português?

Na verdade, alguma coisa sempre se perde na tradução. Sobretudo quando se traduzem os livros geniais. Seria absurdo pretendermos chegar, na nossa escrita, ao nível deles. É só uma modesta tentativa de nos aproximarmos daquilo que criou o grande artista. Parece um lugar-comum, mas não. Há bastantes tradutores que se acham capazes de ‘melhorar’ a escrita dos génios. O estilo de Gógol, a sua ironia, a maneira de construir a frase, são muito especiais, e quando traduzimos temos muito medo e muita pena de perder os seus preciosos achados artísticos. Ainda por cima, na sua escrita está presente às vezes, quase imperceptivelmente, um ligeiríssimo ‘sotaque’ ucraniano que comunica à narração um encanto realmente intraduzível.

Entrevista de José Cabrita Saraiva, publicada no nosso parceiro jornal SOL

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