A Lisboa turística

26 AGOSTO, 2017 -

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Não há como não bater uma certa nostalgia de quando a Baixa falava português. Uma ilusão, já que estava votada ao abandono. Deixei-me contagiar pela turismofobia e fui castigada com um carteirista

Lisboa, final de dia de uma sexta-feira. Se há poucos anos o coração da cidade se preparava para ficar às moscas, agora há movimento até tarde. As esplanadas estão cheias, há músicos de rua, homens-estátua para todos os gostos e feitios, negócios que parecem ter aparecido no sítio certo à hora certa, o que infelizmente não foi verdade para muitas pessoas que tentaram fazer alguma coisa na Baixa no princípio deste milénio, entaipada por obras que duravam e duravam e sem ninguém com vontade de comprar alguma coisa no meio das barreiras e do pó.

Bafejados pela sorte, visão ou um pouco de tudo isto junto, lá estão fenómenos do marketing como a casa que vende latas de sardinha que nos dizem factoides sobre o ano em que nascemos ou essa especialidade imemorial do pastel de bacalhau com queijo da Serra, que continua a gerar filas de curiosidade.

De repente, parece que foi de repente, Lisboa mudou e é feita destas pequenas coisas. Muito tem sido dito sobre se a cidade está a mudar para pior ou para melhor, se faz sentido resistir à “invasão” de turistas ou como mitigar o impacto que a bolha do alojamento local tem sobre quem vive ou quer viver no centro. E se me parece um pouco extremado alinhar na onda de turismofobia, o facto é que, ao chegar aos Restauradores sem ouvir uma palavra em português, não deixei de sentir-me um pouco estranha num lugar que sempre foi familiar.

Já não falo dos spots que não conheço, da velocidade com que se multiplicam restaurantes e experiências e que dificilmente dá para acompanhar, mas daquele circuito normal onde pouco mudou mas que parece, de alguma forma, descaracterizado. Desci a Avenida da Liberdade, vi aparecer a fachada da estação do Rossio, o Avenida Palace e os lugares de sempre, mas estas referências na paisagem e no subconsciente pareceram, por instantes, imagens de um postal que podia ser dali ou de qualquer outra cidade da Europa. Daquelas que visitamos a cada vez mais em conta, fotografamos incessantemente e depois já não sabemos bem o que era o quê.

Tentei não alimentar muito a ideia, afinal, para que queríamos dantes a Baixa vazia e votada ao abandono? Ao menos que alguém desfrute, que passe cá um bom bocado: os turistas parecem adorar-nos, a luz de Lisboa é linda e ainda há imperiais a um euro, o que só não bate os preços da cerveja em destinos como o Tajiquistão, Butão, Burundi, Coreia do Norte ou Madagáscar, os países com a cerveja mais barata segundo o site comparador pintprice.com.

Mas sim, senti-me um pouco turismofóbica e noite dentro, em conversa, o assunto lá foi regressando sempre que parecia que estávamos a estragar a fotografia de um turista com a nossa presença mundana, sentados à beira dos carris de um elétrico parado, o que ainda deve ser um sentimento mais chato para quem se sente diariamente um animal de zoo, como dizia há uns tempos uma moradora de Alfama numa reportagem publicada no i.

Quando me pus a caminho de casa, tive o castigo. Senti a mala pesar e dei com um intruso em flagrante delito. Com um chapéu de palha a servir de distração e autêntica cara de sonso, o homem levou um safanão e não me conseguiu roubar nada, mas não têm faltado relatos de que a praga dos carteiristas tem alastrado na cidade e os turistas são quem mais sofre.

Se é para ser uma Lisboa amiga deles, alguém que resolva o problema. Depois da cena, fui meio desconfiada até ao carro. Tirando o aparato policial no Chiado, no caminho até à Avenida da Liberdade, com as ruas mais desertas, já não vi agentes. Senti-me de novo insegura como quando a cidade não tinha ninguém. Curiosamente, dei comigo a pensar: esta sensação sempre foi meio familiar em Lisboa, o que mostra como a nostalgia é uma ilusão. “Nostalgia é negação. Negação do presente doloroso… o nome para esta negação é ‘pensamento da Era de Ouro’ – a noção errada de que uma época diferente é melhor do que aquela em que vivemos. É uma falha da imaginação romântica de quem tem dificuldade em enfrentar o presente”, retratou Woody Allen em “Meia-Noite em Paris”.

A única vez que fui assaltada foi na estação do Rossio, teria uns 15 anos. Umas miúdas levaram-me um telemóvel que tinha na bolsa da mochila. À época, o esquema era ficar uma pessoa na base das escadas rolantes; tiravam o que queriam e passavam ao cúmplice. Na altura também me indignei e puxaram-me os cabelos. Era final de tarde e não havia tanta gente como há hoje nos Restauradores, mas estavam algumas pessoas. Ninguém fez nada para me ajudar. Se é para ser a Lisboa turística, que seja. Mas que seja mesmo um lugar simpático que fique nas memórias boas dos que chegam pela primeira vez e dos que, como eu, não desistem de regressar de vez em quando.

Crónica escrita por Marta F. Reis, publicada no nosso parceiro jornal i

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