A limitação do corpo e como este restringe a nossa experiência de vida no mundo

2 MAIO, 2017 -

O Homem caracteriza-se por estar restringido à finitude. É inelutável que o grande guião (mesmo que subconsciente) para a vida humana é o seu termo. É nessa medida que criamos um conjunto de objectivos que nos conduzam, meta atrás de meta, naquilo a que se definiu chamar ‘autorealização’. Podendo encarar-se a ‘autorealização’ como a forma de aplicar um período de tempo esgotável, com a agravante de desconhecermos a quantidade de tempo de que dispomos para usufruir.

Um outro tópico passaria pelo tempo, já que é bastante questionável a definição que se lhe atribui, ponderando-se se não seria mais adequado medir a permanência do Homem pelo número de ciclos de oxigenação celular em lugar dos segundos que se convencionaram utilizar. Todavia, dada a complexidade do tema e a possibilidade de esvaziar o conceito do tempo a nada se entrando pela atomística, com particular atenção no paradoxo temporalidade-eternidade, deixar-se-á este assunto para outras abordagens.

Pegando na ideia de Platão, de que seremos uma mescla entre carne e alma, existirá em nós um algo que nos diferencie – aqui note-se que não me parece consensual que tal nos faça necessariamente especiais como em geral é dito – das restantes coisas e animais terrestres. Em razão disso, questiona-se se não poderemos encarar a permanência física do corpo como um cárcere que nos impõe uma severa série de condicionalismos. Desde logo o condicionalismo geográfico, já que ao nascermos somos imediatamente integrados no seio de um núcleo regional e familiar que nos bombardeia com conceitos, ideias, valores e ideais, os quais invariavelmente influenciam de um ou de outro modo o desenvolvimento da personalidade do indivíduo. Porém, o maior condicionalismo parece-me ser o orgânico. E por várias razões: por nos obrigar a dormir, por nos obrigar a comer, por nos subjugar ao cumprimento das necessidades fisiológicas. Repare-se como a fome nos impele na busca de alimento. Basta pensar que sentindo fome caminhamos mais rapidamente na direcção do alimento, com o nosso cérebro a estipular a refeição no topo da hierarquia de prioridades, em detrimento de outros processos intelectualmente mais elaborados.

Somos completos reféns do nosso corpo, sendo por isso que a limitação do corpóreo se assume como um tema tão cativante quanto perturbador. Atente-se no seguinte exemplo: um Homem olha o céu e afirma que este é azul. Na prática o céu não é azul, o que sucede é que o Homem percepciona o céu como sendo azul. Estando o olho humano limitado a uma gama de comprimento de onda (denominada como espectro da luz visível), materializa-se a limitação do corpóreo no simples percepcionamento do céu como sendo azul. Note-se que o exemplo poderia ter sido aplicado às ondas sonoras e funcionaria do mesmo modo. A construção que temos do mundo é parcial e obedece a incontornáveis restrições de sensorização (pelo menos até à disseminação dos humanos modificados genética e/ou ciberneticamente). Em suma, temos acesso a uma parte da realidade e não à realidade em todo o seu esplendor.

Podemos daqui derivar novo questionamento sobre a ilusão existencial onde habitamos dia após dia, afinal de contas vivenciamos uma expressão contentorizada de mundo, não o conseguindo aproveitar em toda a plenitude, por estarmos cingidos a um receptáculo dependente de vários aspectos de funcionalismo.

Como poderemos então desfrutar ao máximo desta experiência, perante tamanhas limitações? Bom, em primeira instância existe uma condição fundamental no ser humano, a sua individualidade. Essa individualidade é transversal ao indivíduo e completamente inviolável. Por mais integrado socialmente, por mais interrelacionado com os pares, cada um será sempre único e será esse ónus a distingui-lo. É dentro dessa individualidade que o ser humano deve actuar com vista à maximização da sua experiência na Terra. Para tal, e como defendeu Sócrates com o “Conhece-te a ti mesmo.”, deverá buscar conhecer-se o mais que possa, de forma a sublimar as maiores habilidades e mitigar as principais lacunas. Por outro lado, não bastará conhecer-se, sendo também fulcral evoluir. Nesse ensejo importará possuir a humildade de reconhecer a infinitude do conhecimento e que por mais que conheça haverá ainda muito mais por conhecer. Corroborando em toda a linha como outro dito socrático: “Só sei que nada sei.”.

Se a base socrática nos permite buscar o autoconhecimento e o desenvolvimento da personalidade, não deixam de ser previsíveis dois aspectos que lhe surgem atrelados, os ‘monstros’ do medo e do erro. Seria fantástico (ou talvez não) se a probabilidade de acerto estivesse nos 100%, todavia, dado o cariz circunstancial e probabilístico do mundo é natural que se falhe. Ao fim e ao cabo o que é do Homem senão o somatório de todos os erros que se lhe acumulam nas costas? Somos marcadamente profanos e iterativos no decurso da nossa experiência de vida. Vogando à mercê do ineditismo do mundo.

À partida ninguém nos conhecerá tão bem como nós mesmos e isso cria-nos outra limitação, a de ser quase impossível que nos consigamos surpreender. Quase todas as decisões que tomamos têm origem num padrão racional tão próprio que decidimos sem surpresa, escolhemos sem surpresa, agimos sem surpresa perante o maior dos juízes: a nossa consciência.

Neste sinuoso caminho de dúvidas, a ideia nietzschiana sugere uma possível abordagem com uma acção assente na individualidade e no desprezo pelos hábitos  hegemónicos. Focada na prática uma exaltação da vontade própria operacionalizada ao limite. Na coragem do individual para combater a frustração, a tristeza, a desilusão, a decepção jamais incorrendo na adulteração do eu. No demarcar-se de modelos mentais padronizados, na fuga à globalização do pensamento que nos conduziu à moral de bando que quase todos partilhamos. E isto está claramente patente no seguinte pensamento de Nietzsche: “Se te apetece esforçar, esforça-te; se te apetece repousar, repousa; se te apetece fugir, foge; se te apetece resistir, resiste; mas conhece bem o que te apetece, e não recues perante nenhum pretexto, porque o universo organizar-se-á para te dissuadir.

Atente-se num exemplo muito trivial que demonstra perfeitamente esta abordagem tão intrínseca ao indivíduo: Certo dia vamos ao cinema e queremos sentar-nos no lugar central da sala. No entanto, a sala está lotada e a pessoa com aquele bilhete não está disposta a ceder-nos o seu lugar. Já num outro dia vamos ao cinema e a lotação está em 1/3 do seu total, queremos sentar-nos no melhor lugar da sala e fazemo-lo. No entretanto chega o detentor daquele bilhete, mas vendo a sala tão livre cede-nos o lugar que seria seu por direito sem qualquer tumulto, sentando-se numa outra cadeira livre.

Este exemplo simples expressa bem o impulso da competitividade num acto tão banal quanto assistir a um filme no cinema. Deste modo se comprova que as coisas não têm valor nelas mesmas, o valor delas depende de alguém as desejar num determinado instante. Assim, todo o elogio generalizado não é mais do que uma tentativa de universalização de um gosto singular.

É então de tremenda relevância a nossa luta pela singularidade, por nos instruirmos enquanto seres com sentido crítico, capazes de escutar, processar e racionalizar. Ocupando o nosso espaço no mundo, conscientes de que a melhor forma de mitigar as limitações inerentes à condição corpórea será cultivando a individualidade e intensificando a nossa potência de agir até ao âmago da autosatisfação.

Texto de Luís Atilano
Fotografia do National Portrait Gallery, com pinturas de Lucian Freud

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