A influência de Salvador Dalí no cinema

22 SETEMBRO, 2016 -

Conotado como um dos expoentes máximos do movimento surrealista e da pintura como modalidade artística, Salvador Dalí foi um dos mais irreverentes e inovadores artistas do século XX. Porém, a sua influência direta e indireta não se delimitou à tela e ao pincel, ganhando movimento e dimensão na sétima arte. Influenciando e referenciado por vários cineastas em diversos trabalhos destes, o primeiro passo desta estreita relação foi dado com o também espanhol Luis Buñuel. Na partilha de ideais criativos similares, nasceu a animada e celebrada orla de cinema com um cunho surreal.

No auge da excentricidade imaginativa e expressiva do pintor espanhol, Salvador Dalí não hesitou em pincelar constituintes das obras mais vanguardistas do século XX, em particular no cinema.  O seu apreço por este começou ainda na sua infância, enquanto assistia regularmente aos domingos a vários trabalhos. A era que acompanhava então era caraterizada essencialmente pelo cinema mudo, no qual se recorria frequentemente a desenhos feitos à mão ou por outros métodos de criação emergentes. Após uma itinerância entre Madrid e Paris, Dalí conheceu uma década de 20 propensa ao experimentalismo artístico e à manifestação multinível desse potencial criativo.

Assim, e no final desse período de tempo, colaborou com Luis Buñuel na curta “Un Chien Andalou” (1929), no qual foi preponderante na redação do roteiro do filme. Este trabalho conhece uma viagem pela dimensão do sonho, muito comum no trabalho dos restantes artistas surrealistas. Sem um enredo e sem ordem cronológica, a primazia é a expressão de cenas que eventualmente se relacionam a partir de uma associação livre baseada nas teorias e postulados de Sigmund Freud. As súbitas mudanças de cena e de cenário permitiam ajustar a direção do filme à dinâmica do sonho e da sua multiplicação. Este projeto ficou notabilizado pela cena em que um olho humano é rasgado por uma tesoura, apresentando desde já um vigor visual arrojado. De uma forma discreta mas com uma notável consideração dentro do seio surrealista e independente, Dalí e Buñuel tornaram-se pioneiros na transposição surreal para uma modalidade artística que ainda conhecia posições quase irreais.

Na continuação desta união, surgiu “L’Age d’Or” (1930), trabalho de 63 minutos no qual se explanam os detalhes insanos da existência humana e da vida, a hipocrisia da moral sexual na burguesia e se critica o sistema de valores da Igreja Católica Romana. Este retrato satírico acabou banido após uma oposição feroz efetuada por grupos fascistas e anti-semitas, incluindo uma invasão ao Studio 28, cinema de Paris, no qual causaram mossa com bombas de mau cheiro e atirando tinta. Porém, é impossível de descartar o cariz revolucionário da obra assente num discurso visual implacável e intenso que percorre a vida de um casal da época.

Um episódio curioso sucedeu-se já em 1936, na estreia da também curta “Rose Hobart”, realizado pelo norte-americano Joseph Cornell. Nessa sessão, e de forma intempestiva, Dalí expressou a sua raiva quando arremessou um projetor, alegando que o que estava a ver parecia ser roubado dos seus sonhos e que era essa a ideia a partir da qual construiria um filme. Assinale-se que essa sessão decorria de forma simultânea à primeira exposição surrealista no Museu de Arte Moderna da cidade nova-iorquina. Nos anos 40, e continuando a escrever alguns cenários para realizadores experimentalistas, publicou a sua autobiografia denominada “The Secret Life of Salvador Dalí” (1942). Na mesma, expõe as razões pelas quais se afastou do seu ex-parceiro de trabalho Luis Buñuel, alegando este ser comunista e ateu, colocando em maus lençóis o futuro do cineasta em terras norte-americanas. Futuramente, o pintor tentaria retomar os laços que outrora possuíam mas sem sucesso.

Seguidamente, colaborou com Alfred Hitchcock, especialmente numa cena que se tornou célebre de “Spellbound” (1945). Num filme em que a tónica é posta na emergência das práticas psicanalistas e no retrato de um asilo mental, Dalí tornou-se no realizador da cena, viajando por uma vasta gama de experiência até que uma das reprimidas desvendasse a neurose. Hitchcock confiou ao espanhol a criação do cenário que expusesse fielmente essa viagem e este não o desiludiu, decorando com símbolos como tesouras, olhos, cortinas e outros fragmentos igualmente surreais. No entanto, a cena que fora realizada estendia-se demasiado, pelo que teve de ser cortada e até descomplicada de forma a transmitir a mensagem adequada. Nesse período, concebeu também com Walt Disney uma curta que só viria a público em 2003, após a iniciativa de Baker Bloodworth e do neto de Disney Roy E. a dinamizar, editar e lançar. De nome “Destino“, o registo não se dispersa da normal surrealidade veiculada pelo espírito artístico do pintor e baseia-se na música do mexicano Armando Dominguez. Os oito meses de intenso trabalho de Disney e de Dalí não foram suficientes para a conclusão do trabalho, sendo condicionados pelas dificuldades financeiras em que incorreram. A peculiaridade desta obra, para além dos arranjos cénicos e do desenrolar onírico das circunstâncias, passa pelo contacto entre as personagens criadas pelo cineasta e pelas reproduções do pintor.

Já nos anos 70, Salvador Dalí completou o seu único trabalho em exclusivo de nome “Upper Mongolia” (1975), no qual narra uma expedição que procura encontrar cogumelos alucinogénos gigantes. A imagética do filme foi baseada em manchas de ácido úrico microscópicas numa faixa de bronze de uma caneta esferográfica, para a qual o espanhol vinha urinando há várias semanas. De seguida, o cineasta Alejandro Jodorowsky convidou-o para interpretar a personagem de Padishah Emperor no filme “Dune”, baseado na obra de Frank Herbert. Todavia, o pintor exigiu ser o ator mais bem pago de Hollywood, condição acatada pelo realizador, apesar deste condicionar a sua participação a meros minutos. Por fim, o filme não chegou a público, acabando por ser transposto para o grande ecrã por David Lynch em 1986, abordando-o de forma sui generis. O seu futuro no cinema estaria indissociável a várias referências contextuais (p.e. “Midnight in Paris“, de 2011, de Woody Allen) ou até para a sua representação biográfica (“Little Ashes“, de 2008, de Paul Morrison).

À luz da teoria do cinema, Salvador Dalí visualizava duas dimensões que o constituíam, sendo estas “as coisas em si“, isto é os factos apresentados pelas câmaras; e “a imaginação fotográfica“, que correspondia ao modo como as mesmas exibiam as imagens e o grau de criatividade e de imaginação que essa apresentação trazia. Foi com base nesta perspetiva que o espanhol desenvolveu a sua contribuição cinematográfica, tentando dar forma e dimensão ao sonho e à sua configuração. Foi ao lado de Luis Buñuel que abriu as portas para uma nova forma de se produzir cinema, dando a chance de muitos outros percorrerem caminhos nunca antes calcorreados. A espontaneidade criativa consolidada pelo génio singular permitia redescobrir o cinema como método de expressão do sentido, do dito, do discursado, do pensado e do amado. Uma linha vanguardista mas com vista à explicação minuciosa da existência e graciosa da essência. Para além da pintura, Dalí impulsionou uma nova vaga dos descobrimentos, uma na qual se induz a realidade a partir da mais subjetiva atividade.

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