A inevitável solidão dos desfavorecidos em ‘O Coração é um Caçador Solitário’

24 ABRIL, 2017 -

Numa cidade indeterminada num dos estados do Sul profundo dos Estados Unidos da América, num livro e numa acção decorrentes durante os anos trinta do século passado, cinco personagens lutam, em O Coração é um Caçador Solitário, de Carson McCullers, contra os seus demónios interiores. Quer sejam assuntos ligados à classe, raça, sexualidade ou mesmo à adolescência, o que as une acaba por ser uma imensa solidão, tão característica da raça humana quanto a socialidade que nos torna humanos.

Jack Blount é um embriagado agitador social, que tenta fazer os outros ver a Verdade, ou seja, a forma como estão a ser explorados e como se têm de unir face às desigualdades; Mick Kelly é uma adolescente maria-rapaz que sonha dedicar-se à música; Dr. Copeland é um médico negro que sonha libertar o seu povo da opressão; Biff Branon é o dono de um café cujas manifestações sexuais têm um teor algo ambíguo. Todos eles gravitam à volta da personagem central do romance, o surdo-mudo John Singer, que os quatro sentem ser a única pessoa que entende os seus problemas e, portanto, a única pessoa com a qual podem conversar e sentir-se à vontade. A ideia genial de um surdo-mudo ser a pessoa com quem os quatro escolhem conversar é ainda mais genial quando a isso se junta o facto de Singer ter, ele próprio, um amigo surdo-mudo que serve para ele como a figura que Singer é para as restantes personagens, um confidente que sente ser a única pessoa que o percebe a ele. O curioso é que, ao contrário de Singer, que consegue ler os lábios das pessoas que lhe falam e se sabe expressar através de linguagem gestual, Antonopoulos provavelmente nem sequer percebe nada do que Singer lhe tenta transmitir, mas é, mesmo assim, o ouvinte predilecto do surdo-mudo que é o ouvinte predilecto dos que têm os sentidos auditivos intactos. Se ouve a voz deles se ouve a toda a hora quando se encontram com Singer, quando este está com Antonopoulos são as mãos de Singer que mexem constantemente, por oposição à postura de calma e de ouvinte que exerce quando é a sua vez de ouvir os problemas dos outros.

Carson McCullers tinha somente 23 anos quando publicou este livro que é agora reeditado em português pela Relógio d’Água. Teria certamente um fascínio por Dostoiévski, as ligações entre ambos não são meramente as temáticas dos desfavorecidos e rejeitados, ainda que o tom de McCullers não seja o de constante exaltação que marca as obras do russo. Mas há a procura pela resposta às grandes questões do mundo. Jack e o Dr. Copeland sentem-se cada vez mais sós e revoltados quanto mais tentam mostrar aos outros o caminho a seguir. Continuam a falhar e, quando a certa altura da obra tentam unir-se e criar um plano, já que ambos identificam os mesmos problemas no mundo (e leem Karl Marx), aquilo com que nos deparamos é uma discussão crescente por um desentendimento quanto aos métodos a tomar para propagar a consciência ao resto (dos trabalhadores no caso de Jack, dos negros no caso do Dr. Copeland).

Não são só as personagens principais que se encontram neste espaço dos desfavorecidos, há uma espécie de ideia generalizada do desfavorecimento das relações humanas e, ao mesmo tempo, da inevitabilidade das mesmas. Carson McCullers parece querer dizer-nos, com esta obra, que, no fundo, todos os habitantes daquela cidade se encontravam na mesma situação – tal é especialmente relevante pelo facto de não existir nenhuma personagem que possa ser olhada como bem-sucedida, como fonte superiora de inveja dos restantes; e as que perto disso estariam acabam por ir de encontro também aos seus próprios problemas.

Os EUA nos anos trinta não eram o melhor dos locais para viver, como aliás não o era a Europa (a ameaça de Hitler está bastante presente durante a obra). Mas mesmo que alguns dos problemas aqui relatados tenham sido parcialmente ultrapassados nos dias de hoje, a mensagem e a situação dos que povoam esta obra não está minimamente menos relevante. Conseguirão os desfavorecidos alguma vez não o ser? É que apesar de nenhuma das personagens ser bem-sucedida a ultrapassar os seus problemas, a autora não propaga uma mensagem de cepticismo, mas antes uma de continuidade – de trabalho, de esforço, de dor, de rejeição. Porque, no fundo, é isso que quer dizer ser humano: continuar a tentar, mesmo quando as coisas não parecem resultar. Sem algo pelo qual trabalhar e ansiar, sem alguém que nos possa compreender, de que serve viver?

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