A importância de Charles Bukowski

11 JUNHO, 2017 -

A jornada de Charles Bukowski pelo trilho literário norte-americano pode ser descrita de várias maneiras: convoluto, atribulado, complicado, difícil, árduo e persistente. Bukowski é o tipo de autor que nos oferece frases como “I wasn’t much of a petty thief. I wanted the whole world or nothing.” (Post Office), para depois afirmar “It’s nothing. Life is for nothing. Money is nothing.” “Money is like sex,” I said. “It seems much more importante when you don’t have any…”

Era um homem profundamente complicado, fracturado pela vida, mas mantido intacto por pelo menos duas paixões, que se alimentavam uma à outra. O seu vício pelo álcool e o seu vício por escrever. A vida que levou foi o combustível para todo o seu trabalho. Except Pulp e uma mão cheia de contos, todo o seu corpo literário é auto-biográfico, escondido sob um véu de ficção que por vezes não passa da troca de uma ou duas letras nos nomes das personagens. Em Hollywood, Bukowski descreve o processo de fazer um filme de raiz, mas assim que desvendamos o nome real das personagens, a história é tudo menos ficção. Com o modo como descreveu as interações em “Women”, Bukowski chocou as mulheres retratadas no romance. Mas assim era Charles Bukowski, escritor e poeta do realismo sujo, dono de uma honestidade incómoda, que os críticos têm dificuldade em interpretar.

É possível encontrar uma mensagem no seu trabalho, mas Bukowski cingia-se a escrever o que via e vivia. Para ele a vida era mensagem suficiente e a vida que levou fala por si própria. O seu trabalho relata o desespero da classe trabalhadora, dos menos afortunados. Os temas tratados são os mesmos em todo o espectro da sua literatura: violência, desespero, pobreza, alcoolismo, loucura, sexo, solidão e suicídio. O que o prendia à escrita era a realização de que sem ela, a sua vida seria tão absurda e tão sem significado, como as personagens e os temas que tratava.

Escrever, para Bukowski, era catártico. Assim como beber, era uma forma de engolir e expelir os seus demónios interiores para tornar a vida mais tolerável. Era uma relação onde uma forma não podia existir sem a outra.

Em Factotum, escreve “Frankly, I was horrified by life, at what a man had to do simply in order to eat, sleep, and keep himself clothed. So I stayed in bed and drank. When you drank the world was still out there, but for the moment it didn’t have you by the throat.”

No mundo de Bukowski, o escapismo e alienação que marcaram a sua vida mostram-se na forma como se juntam as pessoas. Há pouco amor e paixão à mistura. É mais uma necessidade. Os casais retratados por Bukowski são criados porque mais ninguém os quer, são renegados sociais desesperados por qualquer tipo de intimidade que prometa aliviar o desespero que sentem. Mas esse alívio tem um custo, como o autor admite: “Since I had been born a man, I craved women constantly, the lower the better. And yet women – good – women – frightened me because they eventually wanted your soul, and what was left of mine, I wanted to keep. Basically I craved prostitutes, base women, because they were deadly and hard and made no personal demands. Nothing was lost when they left. Yet at the same time I yearned for a gentle, good woman, despite the overwhelming price. Either way I was lost.”

Bukowski agarrava-se a qualquer promessa de intimidade e conforto mas, ao mesmo tempo, temia o efeito que teria em si. A confusão, a perda, a falta de capacidade para lidar com os sentimentos e o alcoolismo condenaram-no a uma vida onde só a escrita o poderia salvar. E que escrita. John William Corrington chamou-lhe “the spoken voice nailed to the paper.” Sem nada a perder, Bukowski escrevia com uma honestidade brutal e descomprometida sem pedir desculpas no que o próprio autor descreve como a “sua personalidade, o resultado duma existência árdua e intensa.”

Não é de estranhar que a ler Bukowski encontremos frases como “I was being raped by a child.” (The captain was out for lunch) ou “She appeared to climax along with me. Of course, a man never knew. I rolled off. I’d always liked canadian bacon.” (Women)

Esta crueza não encontra par em autores de ficção contemporâneos. Bukowski influenciou uma horda de poetas e escritores. É um dos autores mais imitados (pobremente) no circuito literário norte-americano, mas a sua influência não dá frutos quando a honestidade, o realismo e a sua personalidade se tornam desconfortáveis; quando queremos cheirar a rosa sem risco de encontrar espinhos.

Nenhum outro autor conseguiu repetir o que Bukowski nos deu. Talvez ele tenha razão. Talvez não haja uma escola própria que o represente. Talvez a sua escrita seja somente o resultado de uma vivência dura e única que mais ninguém com a sua sensibilidade artística viveu para descrever.

Mas grande arte e grande literatura não tem de ser bonita. Basta ser honesta, mesmo que desconfortável. Especialmente se desconfortável. Bukowski era um ser humano imperfeito. A importância do seu legado não se faz de divagações de alguém profundamente misógino, alcoólico ou mulherengo, mas sim de uma dedicatória ao realismo, por mais sujo que seja, que tenta criar algo raro. A verdade.

Artigo escrito por M.J. Cruz, autor de crónicas, contos, poesia e do romance de ficção científica Karl Rogers. Actualmente escreve no blog “Ósume Pósum”.

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