A imortalidade de Leonard Cohen

22 OUTUBRO, 2016 -

Leonard Cohen completou 82 anos em Setembro.

Em entrevista à The New Yorker disse estar preparado para morrer, declaração reproduzida à náusea, entristecendo todos os que o veem como um dos últimos grandes trovadores do século XX.

Cohen teve uma vida cheia, certamente a origem do cansaço que confessa. Aos 25 anos, na boémia vida londrina, sabia exactamente o público que queria. Numa carta ao seu editor, declarava querer um público de “adolescentes introspectivos, amantes em todos os graus de sofrimento, platonistas desiludidos, voyeurs pornográficos, monges e papistas”.  Desiludido com Londres, parte para Hydra, na Grécia, onde escreve o romance The Favorite Game, o livro de poemas Flowers for Hitler e delineia os seus dois primeiros álbuns, Songs of Leonard Cohen e Songs from a Room. É perto do Mediterrâneo que viaja galáxias no terraço à espera de ver Deus, apenas para acordar ressacado no dia seguinte.

É aqui que conhece Marianne Ihlen. A Marianne de «Bird on the Wire», de «Hey, That’s no Way to Say Goodbye», de «So Long Marianne». Uma das muitas mulheres que povoaram os poemas de Cohen que, apesar da voz quente e de reconhecidos talentos para o hipnotismo – conta a lenda que aos 13 anos conseguiu hipnotizar a empregada doméstica para que esta se despisse – nunca foi bem-sucedido no amor.

Nico preferiu Iggy Pop, bastante mais jovem e Janis Joplin envolveu-se com Cohen por piedade, pois preferia homens bonitos. Suzanne Verdal – da mítica canção «Suzanne» – disse que uma troca de olhares com Cohen era uma das experiências mais tocantes e viscerais, mas nunca passaram disso. Joni Mitchell abandonou-o depois de um ano de relacionamento, mas é Cohen que é desenhado no mapa do Canadá de «A case of you». A existir, a culpa é assumida por Cohen, que confessa a sua incapacidade de retribuir o mais excelso dos amores. Ainda assim, versou-o como poucos.

Durante toda a sua vida, Leonard Cohen buscou um refúgio espiritual, tendo afirmado estar disposto a tentar tudo, «religião católica romana, budismo, LSD, qualquer coisa». Depois de uma breve incursão pela Cientologia, passou vários anos num retiro zen no Monte Baldi. Foi ordenado monge em 1996. Porém, a meditação e a vida monástica não o resgataram da depressão que sofreu durante toda a vida, que eternizou no seu Book of Longing.

«I left my robes hanging on a peg

in the old cabin

where I had sat so long

and slept so little.

I finally understood

I had no gift

for Spiritual Matters.»

Em 2004, com uma condição financeira estável, que permitiria uma vida tranquila aos seus filhos, descobre que Kelley Lynch (sua manager de então, com tivera uma breve relação) havia roubado todas as suas contas. Decide então regressar aos palcos e os anos seguintes são quase todos passados na estrada (passou 4 vezes por Portugal desde então).

Esta semana saiu o seu 14.º álbum, de seu nome You Want It Darker.

Produzido pelo filho Adam Cohen, não lhe encontramos a genialidade de outros tempos, mas é um álbum honesto, como toda a discografia do canadiano. A voz grave e sussurrada, as palavras sempre poéticas, assumem um papel preponderante na música de Cohen. Sem querermos vaticinar este como o último álbum de Leonard Cohen (até porque está a trabalhar em novas músicas), é evidente a ideia de finitude ao longo de todo o álbum. Se tivermos de o catalogar, poderemos dizer que este é um álbum de redenção, de gratidão. Um álbum que não choca, não surpreende, mas conforta.

Perfeccionista como é, é provável que, a existir, o próximo álbum demore algum tempo a ser lançado, até porque o perfeccionismo de Cohen não se deixa apressar por coisas tão terrenas como a morte.

 

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