A herança centenária da Revolução Russa

15 SETEMBRO, 2017 -

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Celebra-se, em 2017, o centenário da intensa e imensa Revolução Russa, conotada com a força bolchevique, embora tudo se tenha iniciado num desmoronamento do czarismo, fustigado pelos fracassos sociais e bélicos. Apesar da breve experiência da Comuna de Paris, ainda no século XIX, os pensamentos e as ideias debatidas por Karl Marx e Friedrich Engels nunca tinham conhecido tamanha abordagem prática, matutada por nomes, como Vladimir Lenine e Leon Trotsky. Encharcada de sangue e de chama, a Revolução do Proletariado, no auge de um outono frio nas redondezas siberianas, levou a uma primeira experiência comunista, totalizante e integrante de toda a extensão territorial e social da Rússia. Nascia a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e um mito, que seria perpetuado e esticado pelas controversas figuras de José Estaline e Leonid Brejnev, entre muitos outros.

De 1917 a 1991, muito de autoritário vingou nas terras russas. São factos. Existiram purgas, perseguições contra os dissidentes políticos, e demais vozes opostas à ideologia vinculada do unipartidarismo soviético. Se, inicialmente, o potencial bélico e industrial ameaçou a superpotência ocidental dos Estados Unidos da América, seria, rapidamente, visível e constatável o pecado de uma União Soviética, que nem sempre se preocupou com aqueles que acolhia nos seus terrenos, nas cidades seculares que englobou. A partida de Lenine, uma figura que, não obstante atribulada, conseguiu definir as traves-mestras para uma sustentação socioeconómica do páis, conheceu uma aquisição de desenvoltura física e material por parte de Estaline, que reivindicou, de forma dissimulada, a sucessão prometida a outros. Foi com Estaline que a União Soviética, após assinar um tratado secreto com a Alemanha Nazi, reagiu perante a violação do pacto desta, e que se mostrou determinante na derrota desta força geopolítica. Pelo meio, abarcou uma série de territórios no leste da Europa, e deles não se desligou. Construiu uma orla de influência que permitia reivindicar, para si, um papel de enorme investidura no panorama mundial, por mais instituições de regulação e paz internacionais que se fundavam.

Muitos países não consentiram, tal como a Jugoslávia, do marechal Tito, também ele comunista, mas desconfiado daquilo que eram as intenções de Estaline mandar no rumo do seu país. Do outro lado do mundo, também eles vencedores, os Estados Unidos da América construíam uma aura na qual os comunistas eram os atuais constituintes do eixo do mal, assim como a própria cortina que caí sobre a Europa, e a vergastada Alemanha, no coração da sua capital, Berlim. Este país dividia-se, o mundo fracionava e friccionava-se, e seriam várias as ameaças tácitas entre os pólos Ocidente e Oriente. Vietname, Cuba, Coreia, Afeganistão foram alguns dos países que viram alguns dos confrontos camuflados entre forças ideológicas, sustentadas na orientação para a esquerda e para a direita que comumente se alimentava no quadrante político. Os ódios estavam instalados e germinados, competidos em terra, em mar e no ar, para lá daquilo que se havia descoberto, até à data, pelo espaço. A corrida tornava-se desenfreada, e só se tornou arrefecida mal a União Soviética sentiu fragilidades em garantir os mínimos ao seu povo, perdida na ganância de reforçar o seu superpoder mundial.

A queda foi-se dando em lume brando, até incendiar os diversos países da orla do leste europeu. Polónia e República Checa porfiaram muito para reivindicar os direitos mais básicos e elementares dos seus, para além da presença dos tenazes e mordazes Janos Kadar, na Hungria, e de Ceausescu, na Roménia. Aos poucos, a realidade comunista só se ficou, à exceção da Ásia, pela figura consensual e louvada a Ocidente de Mikhail Gorbachev. O seu relaxamento político e social levou ao prenúncio daquilo que quase se assegurava há uns anos atrás: a eclosão da União Soviética, na sua perfeita instância como formulação de um estado comunista. Embora pese os vários resquícios que subsistiram, em especial em Cuba, na Venezuela, e na República da China, a URSS havia soçobrado. Caía todo o semblante idealizado e edificado por Lenine e Estaline, embora se mantivessem os seus vultos como referências daqueles que mantinham a projeção de um estado comunista como o ideal para a sua realidade política, independentemente do habitat em que esta se explanava e se estudava. Tudo se simbolizava e se colmatava com a queda do Muro de Berlim, erigido no mandato de Nikita Khrushchev, dando fim àquilo que era uma pequena mas marcante fronteira das realidades ocidental e oriental. Um fim que não esquecia as almas que havia perdido, nas várias contestações sonegadas pelos tanques soviéticos, em especial na Hungria e na República Checa. Aqueles que tentavam fugir, e que arriscavam a sua vida, viam o pior cenário a acontecer, por vezes quando já avistam, de muito perto, a liberdade ensejada.

O ideário comunista não deixou de se suportar noutros rostos de maior sucesso, que não conheceram derrotas públicas e visíveis, e que se foram reforçando e consolidando em vida, no auge da sua plataforma política. Fidel Castro (alicerçado pelo eternizado Ernesto “Che” Guevara), Kim Jong-Il (que, ainda hoje, por intermédio do seu filho Kim Jong-Un, ainda vê os seus caules lunáticos e tóxicos a tomarem rédeas de um país que se deixou adormecer pelo soro autoritário) e Mao Tsé-Tung exemplificaram o êxito de uma esquerda que começou a construir um fantasma de totalitarismo, por mais socialmente equitativos e válidos que os seus valores pudessem ser. Professando a liberdade de direitos, de expressões e de existências, a repressão e a opressão não foram realidades raras nas “dinastias” destes governos, que se proliferaram pelos quatro cantos do mundo. Aqueles que subsistem são suportadas por estruturas muito herméticas e difíceis de serem problematizadas e desconstruídas, para além dos olhares e dos pensares de muitos dos pensadores de outrora e de hoje, no sentido de perceber como mudar o amanhã. Aliás, e por mais que Marx estivesse presente nos discursos e nas promessas, foi pouco aquilo que se constatou do que propôs, assim como dos demais pensadores de esquerda, muitos deles conotados com pendor comunista.

Appratchiks, realpolitik, ou nomenklatura não foram termos raros, que sumarizavam um rumo político muito confluído para bases de apoio e de operacionalização muito rotinadas, capazes de obstar a vozes dissonantes, e de ofuscar as luzes que permitiam ver para além do enclausuramento sociopolítico imprimido. Os rumos avistados por Lenine e Trotsky, na tentativa de globalizar o comunismo, tornaram-se latos e pouco bem-sucedidos. A denúncia do capitalismo contou, no entanto, com uma resposta séria e capacitada de integrar grandes e muitas páginas dos livros da história. Porém, e à imagem do que seria o fascismo e o nazismo, também geraram movimentos extremistas, desconsiderando as liberdades mais essenciais e fulcrais daquilo que é uma sociedade democrática e plural por excelência. Confinando-se, cada vez mais, a rotinas arcaicas e devolutas, o comunismo degradou-se, permanecendo os valores teóricos que conduziram à sua institucionalização. A verdade é que ainda resistem vários partidos associados àquilo que é o comunismo, bebendo do que foi o seu passado para um futuro mais sustentável e pensado, sem nunca, porém, se desfalcar das grandes obras e vitórias no terreno.

Portugal é um desses países, contando com uma falange de apoio e de militância considerável, que permanece com uma visão crítica bastante ativa, e com um festival, com algumas décadas, de reunião e confraternização, ainda celebrando o seu rosto máximo Álvaro Cunhal. À imagem de outros países, e tentando superar a neblina que distorce a proposta de valores da esquerda, cultiva essa força partidária comunista, assente, aqui sim, na dinâmica democrática e de diálogos e debates, numa discussão construtiva, instrutiva, e envolvente. Ainda muito olhado de lado, a definição de comunismo proposta por Engels e Marx tornou-se desvalorizada, precisamente, pela gorada oportunidade da União Soviética o aplicar de forma isenta e socialmente valorosa, dispersando arrivismos e ganâncias de várias figuras enraizadas no sistema. O Ocidente, naquilo que foi a sua política de perseguição e delação de indivíduos associados à esquerda, e na subsequente deportação de uns quantos (incluindo vários artistas de renome), também foi posto à prova, nos anos seguintes, quando se isolou no progresso referencial e exponencial de um património material e imaterial. No entanto, foram poucas as mentes que não pensavam, desligadas daquilo que havia sido um passado menos favorável da aplicação do comunismo, em envolver políticas exequíveis e favoráveis no seu radar político.

Por muito que se reivindique Marx no estudo da economia política, e se associe este a grande parte daquilo que é a base onde assenta o trabalho político nessa matéria, a Revolução Russa é fundamental naquilo que é o que se entende por comunismo nos dias de hoje. Mais do que pensar o que se propôs, é normal e natural que se reflita no que foi feito, nos danos causados, nas iniquidades aprofundadas, nos direitos violados. A União Soviética, pelo poderio granjeado, e pela dimensão geográfica e logística congregada, é o mais direto exemplo disso, e é a revolução dos operários flagelados e condicionados pela autocracia czarista, inspirada no carisma e na liderança de Vladimir Lenine, que se celebra. Uns, defendiam que essa revolução devia de ser permanente, proporcionada por todo o mundo; outros, continham-na dentro de portas, na tentativa de acertar objetivos e ambições mais centradas do que socialistas. Mais do que uma contradição, eram rumos diferentes, de certa forma, contrastantes, mas que marcariam, indelevelmente, o futuro daquilo que era o estado de espírito e de vontade de muitas das gentes de leste, e, seguidamente, da América Central para baixo.

No fundo, e numa reflexão a frio, despojada de raivas ocidentais, mas também de fanatismos estalinistas, o comunismo não se cumpriu, naquilo que eram as suas determinações iniciais e cruciais. Alguns laivos do mesmo tiveram lugar e proporção pela orla de influência soviética, para além de outros casos pontuais pelo mundo, mas reforçaram uma cultura de opressão e de supervisão, ao invés da consciencialização e descapitalização das gentes trabalhadoras e operárias. A esquerda continua a fazer-se sentir neste espectro, é neste espectro que é castigada e punida, muitas vezes, por um passado que nem sempre é aquilo que o seu presente demonstra ser e pensar. Mais do que as experiências, as crenças e os princípios-base solidificam-se e reivindicam-se. É nesse prisma que uma parte significativa da atividade da política e do pensamento associado à esquerda se faz ampliar e repercutir. À imagem da direita, que apresenta páginas equitativamente tenebrosas na História, também ela já conheceu êxitos práticos, embora em contextos e escalas mais reduzidos. A certeza é a de que não se pode dissociar o comunismo e a sua herança da identidade esquerda, ao mesmo tempo que não se pode reduzir esta à frustrada e esgotada devoção soviética, que já chegou aos cem anos de idade (e de discussão).

 

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