A Fé cénica, a mentira vital em ‘O Pato Selvagem’

5 OUTUBRO, 2016 -

Fomos ver “O Pato Selvagem”, uma obra daquele que é o dramaturgo mais representado em todo o mundo (logo a seguir a Shakespeare), o norueguês Henrik Ibsen. Encenada por Tiago Guedes, com Gonçalo Waddington e Tónan Quito nos papéis principais, a peça estará em cena até ao próximo domingo, dia 9 de Outubro, na Sala Garret do Teatro Nacional Dona Maria II.

Comecemos pelo nome – o pato selvagem é um animal que, ao ser atingido por um tiro, mergulha a pique até ao fundo do lago e se agarra às algas e ao lodo acabando por morrer afogado. Segundo a ciência ele não volta por medo. Na peça de Henrik Ibsen a perspetiva é mais poética, e ele “tenta o suicídio” para manter a sua honra e não ser morto por outro ser. Neste texto, há um cão que o vai buscar com os dentes e o traz novamente à superfície. O velho Werle, que era o caçador, oferece-o então a Hedvig, uma criança que o faz sobreviver num espaço sem liberdade. As metáforas no texto a partir daqui são muitas, mas como qualquer pessoa tem acesso a ele, falemos antes da peça que nos é apresentada neste espetáculo.

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Quando se entra na sala, o público tem logo acesso a um curioso cenário, que pelo seu visual, em barras de ferro e semelhante a uma teia desorganizada, tanto faz lembrar uma prisão, como uma parede, uma rede de capoeira ou estilhaços – tudo coisas que fazem sentido e ajudam a interpretar a obra. Esse é um ponto a favor. Por outro lado, a peça, que é longa e complexa, pede uma encenação e interpretações reveladoras que transmitam de forma eficiente a questão da peça no seu texto e subtexto, o que nem sempre acontece na encenação de Tiago Guedes, por vezes pouco comunicativa. Em alguns casos os atores passam pelas palavras e frases importantes demasiado rápido complicando a compreensão por parte da plateia. O enredo não chega por inteiro ao público, sobretudo no final, onde dá ideia que falta “fé cénica” por parte dos atores.

Falando nos atores; as personagens de Tónan Quito (Gregers), Anabela Almeida(Gina) e Pedro Gil (Relling) parecem pedir um pouco mais do que aquilo que os artistas lhes estão a dar em certos momentos mais trágicos e reflexivos. Mais interessantes estão: Margarida Correia (estagiária) que, como exigia o seu papel, parece realmente uma miúda de 14 anos com bastantes carências; João Grosso, na personagem do velho Ekdal, que, das duas personagens interpretadas por ele, é a que mais claramente comunica com a plateia, revelando um velhote a lutar por se manter numa ilusão mais agradável que a realidade; Gonçalo Waddington, no papel de Hjalmar, que apesar de nos momentos finais da peça não ter estado no seu melhor, consegue provocar bastante curiosidade sobre o seu personagem preguiçoso e trapaceiro, que também vive na ilusão de que um dia vai recuperar a honra perdida num passado a que ficou preso.

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Apesar de algumas falhas, o espetáculo está construído de maneira a manter o interesse durante as duas horas e meia da sua duração. Pena é o final que ficou confuso e fez com que só de uma forma vaga surgisse a questão essencial da peça e que será algo próximo de “É preferível uma verdade pura que destrói as pessoas ou uma mentira que as mantém numa vivência próxima da felicidade?”- uma inquietação incomum em Ibsen que é quase sempre pela verdade acima de tudo.

Em resumo, o espetáculo não é o melhor que podia ser, mas vale pelo texto, por alguns pormenores e personagens e por bons momentos, sobretudo na primeira parte.

Texto de Sandra Henriques
Fotografias de Filipe Ferreira

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