A extravagante normalidade

21 JANEIRO, 2017 -

Hoje, toda a gente acha piada ao facto de não comer o que os outros comem, o que, em si mesmo, é uma contradição – não existem tantos pratos quantas pessoas. Como com a comida, também o mesmo se verifica com outras áreas, como a moda ou a literatura, mas igualmente o humor ou o amor. Todo o indivíduo, por mais desqualificado que seja, julga-se no direito de impor aos outros a sua visão do conceito de comediante ou as razões porque alguém fracassa ou é bem-sucedido nas relações amorosas. Haverá, contudo, nesta fuga à normalidade, uma enorme hipótese de se incorrer naquilo de que se foge. Com a quantidade de excepções que fogem à norma, esta já não faz doutrina, sendo mais uma excepção. Ser diferente é a regra e a estabilidade conceptual dilui-se. Se é esta a ordem natural, a excepção é o seu contrário. Mas como se pode ser igual ou convergir com alguém, quando todo o mundo quer ser diferente? Parece-me, então, que o grande risco do nosso tempo não é mais ser-se arriscado, tampouco incomum ou inoportuno. Nos dias de hoje, as maiores extravagâncias a que uma pessoa se pode permitir, são a ponderação, o bom-senso ou a sensatez.

Imagem de artigo: frame do filme “Her”, de Spike Jonze

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