A esperança que a cultura traz

30 DEZEMBRO, 2016 -

No início dos tempos, tudo estava em branco. Tudo estava por ser feito. Foram precisas gerações e gerações para construir um nexo cronológico de causalidade, com muita coisa incluída. Muito ficou pela vaga memória apreendida e dada a aprender aos mais tenros nos seus anos de escola. Muito do que é apresentado na oferta curricular dos alunos é também submetido a vidas de estudo, vidas essas devotadas pelos investigadores mais especializados e por outros interessados. Temos história, muita história. À conta desta evidência, devemos muita da nossa gratidão a muita gente, incluindo a pessoas das quais pouco ou nada ouvimos falar.

É este anonimato que receamos que se acerque das nossas vidas. Pelo menos, em princípio. Quem se debate com a tal questão de passar pelos pingos da chuva, não é rara a ocasião em que surge o pensamento de que seremos só mais uns no silêncio que não clarifica identidades, mesmo reconhecendo o esforço das gerações. Destaca-se uma mão cheia de rostos quanto ao progresso científico e cultural que usufruímos no presente. É a tal mão que vamos valorizando e da qual nos vamos servindo como fonte de inspiração para os nossos sonhos e para os feitos que idealizamos no alcance das nossas vidas. Acreditamos no nosso potencial e naquilo que temos para chegar mais além. Por vezes, até descredibilizamos aquilo que se torna por demais evidente em laivos de espontaneidade. No entanto, temos em nós todo esse conjunto finito (e que se projeta no infinito) de recursos.

É a tal esperança que reside na alma mais atenta e produtiva. Uma esperança que motivou muitos outros a embarcarem nas suas carreiras artísticas e criativas, dando azo a que toda a sua iluminação não se remetesse ao campo das ideias. Era preciso passar à prática e, como tal, foi preciso mais do que pensar e meditar sobre o que devia de ser feito. Foi preciso, efetivamente, fazer. Criar, construir, edificar. Tudo verbos que são exemplificativos daquilo que os tempos foram efetivando. Mesmo na maior das invisibilidades, as coisas foram-se fazendo. Engenhos que vamos usando no quotidiano e aos quais damos nomes. No reverso dessas denominações, está lá todo o trabalho efetuado por uma linha de criadores e de patenteadores daquilo que vamos usando e admirando. Uma invenção foi levando a outras mais. Uma obra tem uma amplitude tamanha, uma amplitude que se estende para além do ângulo previsto pelos mais céticos. Por mais conceitos definidos e enraizados que haja, a novidade nunca entra em vão, especialmente quando traz em si o cunho humano.

A cultura, conforme a conhecemos hoje, traz em si inúmeros nomes de inúmeras gentes que deram corpo e alma àquilo que foram tempos vividos e que são recordados com curiosidade ou com saudade por aqueles que os apreciam. A cultura sempre se fez denotar pelos pormenores mais elementares, como hábitos, costumes, tradições, saberes, ofícios e até tiques. No pico da cultura, a obra artística. As artes visuais e mentais, estruturadas e elaboradas com tempo e com prática. De um lado, todas as esculturas e figuras nelas plasmadas, histórias e narrativas contadas em plena peça fixa mas formada com a cor e a forma que idealizamos a partir da criatividade. As pinturas com os seus contrastes e histórias que ficam nos conscientes de quem as estuda, para além das desenvolvidas pelos mais problematizadores daquilo que veem. Do lado das artes mentais, todos os raciocínios e as ciências corporizadas em teorias várias, influenciadas pelos mentores e pelos rivais, pelas observações e ambições, pelas experiências e pelas demais existências. Leis levadas para problemas filosóficos que ficam no memorial de todos nós a partir de expressões idiomáticas ou de outros caminhos mais ou menos experienciados. No fundo, um lastro que clarifica aquilo ao que estamos expostos, embora estarmos num presente em que os ocidentais se sentem tentados a se orientalizar e vice-versa.

Para que a nossa existência não incorra em questões existenciais confusas e profundas, importa atribuir um sentido a tudo aquilo que vivemos. Passa-nos pela cabeça tudo isso, quando nos mostramos recetivos às artimanhas dos pensamentos. A esperança reside na cultura. A esperança reside naqueles que queremos orgulhar, para além daqueles que, apesar de ainda não serem nossos conterrâneos e existirem só em conjeturas ou na imaginação, se sentirão honrados e motivados por aquilo que deixamos para eles. Não tanto por nós mas mais por aquilo que damos ao mundo em prol da sua evolução agregada e agrupada, desde o mais desconhecido até ao mais reputado. Isso não interessa quando a satisfação pessoal está nos píncaros. Importa conhecer e experienciar o canal que nos propicia a verdadeira felicidade. A cultura ajuda a que nos encontremos connosco mesmos e, como tal, todo o espírito criativo deixa-nos às portas de dar algo novo e nosso ao mundo. É essa a esperança que é canalizada de nós para o planeta e vice-versa.

Depois de tudo estar em branco, há muito tempo atrás, temos o privilégio de ver as folhas dos livros sobre aqueles que partilharam este mesmo solo bem preenchidas e coloridas. Por muitas notas mais baixas e pesadas que constem nas partituras, há também as mais elevadas e alegres e que concedem um grande sentido construtivo aos tempos que se vivem. Mesmo com uma névoa frequente que assola o horizonte dos mais desencontrados com as suas virtudes, a esperança não é daquelas que se desmorona. Pode adormecer e conformar-se com linhas mais estáveis e gélidas mas nunca se rende. Como tal, trata-se de uma questão de alinhar todo o potencial que a humanidade contém em si e que conhece repercussão nas figuras do passado, tanto as evidentemente reconhecidas como as mais despercebidas. Todas possuem um papel crucial naquilo que é o presente, naquilo que são os tempos nos quais vivemos. Que não caia em nós a fatal guilhotina que nos isola do campo de todo o sonho que move o engenho e a criação. É fácil evitar que seja essa a nossa realidade, contando nós com um passado de luxo no que toca à superação e à realização.

A esperança é a última a morrer e a cultura é imortal. A dialética não se coíbe de as unir, em caso de uma intenção engrandecida o suficiente para a honra da criação. Porque criar é um prazer e toda a arte assim o comprova. Temos em nós as bases das próximas gerações, estando elas por serem erigidas. Mesmo sendo uma responsabilidade, eis também a oportunidade de a realidade seja mais nossa do que o sonho permite.

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