À espera com Bukowski, Kafka e Camus

18 JUNHO, 2017 -

Há alguns anos, quando me encontrava num momento mais existencialista da minha vida – quem não os tem? – escrevi sobre a espera:

“Abandonados, todos os sorrisos divulgam a mesma expressão de quem se encontra (im)paciento-eternamente à espera: à espera do médico, à espera das refeições, à espera do final do mês, do próximo jogo de futebol, à espera que a mulher se cale, à espera de dias melhores, à espera da morte. À espera, à espera e à espera. Quando um momento finalmente chega, esperam que acabe. E quando acaba, esperam que outro recomece. É este o ciclo a que estamos condenados. Contudo, não são os mais velhos que se encontram neste ciclo de espera e (re)começo. Se virmos bem, todos nós nos encontramos à espera de algo neste preciso momento. E depois disso estaremos à espera de outra coisa; e depois outra e outra e outra. Que aconteceu ao viver no presente? Carpe diem my ass. Não existe tal coisa. Até naqueles momentos que julgamos perfeitos esperamos que não acabem. Aqui está um contra-senso: esperamos que a espera não exista. E na espera acabamos por perder o momento. Merda.”

Mais tarde, descobri que o Bukowski disse algo parecido:

 “We waited and waited. All of us. Didn’t the shrink know that waiting was one of the things that drove people crazy? People waited all their lives. They waited to live, they waited to die. They waited in line to buy toilet paper. They waited in line for money. And if they didn’t have any money they waited in longer lines. You waited to go to sleep and then you waited to awaken. You waited to get married and you waited to get divorced. You waited for it to rain, you waited for it to stop. You waited to eat and then you waited to eat again. You waited in a shrink’s office with a bunch of psychos and you wondered if you were one.”

Rabisquei este pensamento em 2012, numa sala de espera do centro de saúde de Seia. Estava a acabar a licenciatura e, pela primeira vez, começava a encarar a realidade como adulto. É óbvio que o passo seguinte seria aceitar que a vida não tem sentido ou significado, para logo negar o cliché de que cada um de nós nasceu com propósito, especial.

Desde então mudei de ideias. Kafka mantém-se entre as minhas maiores influências, mas a teoria do absurdo e do ridículo guardo-a para o que escrevo, não para o que vivo.

Mais tarde, encontrei Camus.

Camus ajudou-me a lutar contra delírios existencialistas de significados e não-significados. Kafka desempenhou o seu papel, mas desafio qualquer pessoa que viva segundo os seus escritos a manter-se sã. Camus, por outro lado, escreveu as palavras que, ainda hoje, me guiam:

“The literal meaning of life is whatever you’re doing that prevents you from killing yourself.”

Tirando o dramatismo do suicídio – tema comum no existencialismo – Camus, certo ou errado, foi uma força contra a onda que me arrastava nos últimos anos. Apesar de reconhecer a força do optimismo de Kafka, tive deixar para trás a insignificância, o absurdo e o fracasso. Afinal, tinha à minha frente todas as possibilidades do mundo.

E agora voltamos à espera. Ainda hoje acredito que vivemos simplesmente à espera. À espera que algo melhore ou aconteça. O fim do mês, do dia, do sorriso, da mensagem, dos outros e de nós próprios. Não há nada de errado nisto. O tempo é contínuo, linear e infinito e, como se diz, “não espera por ninguém.

O que quero dizer com tudo isto é que em 2012 era um idiota mas, em retrospectiva, o que escrevi então ainda me serve hoje.

E aqui estou – e nós – em 2017, ainda à espera.

There is a place in the heart that

will never be filled

 

a space

 

and even during the

best moments

and

the greatest times

times

 

we will know it

 

we will know it

more than

ever

 

there is a place in the heart that

will never be filled

and

 

we will wait

and

wait

 

in that space.

Bukowski “No help for that”

Artigo escrito por M.J. Cruz, autor de crónicas, contos, poesia e do romance de ficção científica Karl Rogers. Actualmente escreve no blog “Ósume Pósum”.

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