A escrupulosa caminhada e estadia no poder

4 MAIO, 2017 -

Estar no poder é razão para reivindicar mais do que aquilo que alguma vez se imaginaria. Os limites perdem-se num imaginário arrivista. Eram tempos, e são tempos nos quais as ambições se perdem e se confundem ao ritmo da estruturação da identidade. Quem quer, terá de fazer muito, para depois poder de forma equivalente. A proporcionalidade que o poder oferece desmede-se. Não há fita métrica quantitativa ou qualitativamente suficiente para se esticar a tamanhos estreitos. Este termo engana, mas não desmente a tese de que são muitos os que se perdem no encalce da desmesura.

Tudo começa numa conjetura, num cenário imaginado, onde a possibilidade se estende a número infindável de casos. É o mais próximo da conjuntura fantástica, onde tudo pode acontecer, mesmo que não seja percetível pelos cinco sentidos. O que interessa, no fundo, é que se concretize, e se materialize alguns dos apetrechos idealizados nos tempos onde as ambições se foram enumerando. A cornucópia de metas, de ambições, de consagrações elencadas na vontade, tornou-se essencial para que o primeiro passo fosse dado. Este, o mais crucial de todos, define aquilo que é a essência à partida, e se reúne a presença favorável ou desfavorável dos outros no seu plano megalómano.

O plano estratégico, que se aprende nos ramos da tecnocracia da gestão e da prototipagem de um produto, ou de um elemento, está encabeçado por esse plano de atividades, um plano que se vai reformulando enquanto a vida se desconstrói, e mostra os horizontes dos passos dados. No fundo, o rumo vai-se aproximando, com mais ou menos sorte, de um fim. O fim, que se cruza com o idealizado, intriga-se pelo que é feito, pelo que se crê que é obra sua, mas que também inclui as circunstâncias coincidentes. A pirâmide começa a sentir uma base sustentável, um posto confortável a partir do qual mirar e disparar investidas de intenção e de motivação.

Os traços caraterizadores de um líder começam a surgir, desencadeando uma galopante vontade de chegar lá acima o mais rápido possível. Assumindo-se uma condução perigosa, que se afastem os obstáculos. Tudo se transforma numa via que, por mais erma que seja, tem o seu fim. Ávidos daquele destino, o traçado urbano vai destoando da placidez organizativa que apresenta. A formalidade vai quebrando, vacilando perante a audácia em abundância do sonhador. Afinal de contas, conjeturar uma liderança destacável e imponente é, em alguma altura, sonhar. Poucos são aqueles que nunca se configuraram, no mais remoto dos seus pensamentos, numa posição de relevo e de supremacia.

O pior é quando essa liderança chega. A lucidez vai-se diluindo, em contraste com a pressão de manter a lideração, um pouco à imagem da pressão atmosférica que se faz sentir no topo das montanhas. O cume é confortável, mas será suficiente para aquele que, um dia, ambicionou liderar? Chegar mais longe é um desafio giro. As garras que tanto agarraram nesta jornada permanecem lá, mas haverá asas? O sonho que os levou ao infinito do poder não se importava de tentar. Os voos vão sendo dados, e o mundo acaba esquecido. A megalomania é um cenário cada vez mais misantropo, esquecendo-se de quem o rodeia, e de quem influiu e participa na trajetória. Há quem se atreve, e que seja visto da conformista terra até ao idílico céu.

Porém, não há céu sem tempestade. Fazendo jus a uma justiça natural, faz-se sentir, ensopando as predições exacerbadas, e rebentando em pleno com as visões mirabolantes de uns quantos. A História está cansada de ser descrita por cabeças destas que, ao fim e ao cabo, as perdem. Resta o mito, resta o relato das suas jornadas em escalada, que os livros tratam de adensar e de especular, que a música trata de homenagear e de satirizar, que o cinema trata de documentar e de adaptar. No fundo, a íngreme estadia no poder nunca é fácil. De um mundo que não contenta, passa-se para um outro onde, na perceção de quem o concebe e o povoa, o alheio é mais verdadeiro que o próprio real.

Os escrúpulos e as minúcias são muitos, dando origem a doutrinas várias, e a compassos de circunferências bem firmadas, sem tolerância ou elegância perante aqueles que envolvem os supostos “líderes”. Líder é aquele que bem orienta, que bem motiva, que bem inspira, que bem conduz o mundo às suas mais belas finalizações. Porém, no reverso desse epíteto tão bem atribuído, moram os anti-líderes, que orientam, motivam, inspiram e conduzem para o mal e para as piores concretizações. O mundo está cheio de ambos, repleto daqueles que se querem aprestar para a loucura do seu plano, ou para a sensibilidade da realidade, que, para além de sua, é de muitos mais.

E no poder? O que sobra? Pois bem, na inconsciência dos limites, as dúvidas acrescem, as questões aumentam, as intrigas sucedem-se. Poder é importante, é sinal de atividade e de uma convidativa responsabilidade em relação ao mundo. Em defeito e em excesso, os resultados acabam por findar na repressão. Como em tudo, como o que escasseia e o que abunda, os fins confundem os meios. Os inícios, porém, permanecem intactos. Ousados e atrevidos, apontam ao mais alto raio solar, lutando para que se incorporem na estrela, e que, daí, decidam brilhar do infinito até ao desconhecido além.

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